Edição de 21.04 a 27.04.2003



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo


Em má hora

Como pode uma pessoa fazer falta?

Além da falta que certamente faz cada vida às vidas de que ela se soltou, além do espaço oco escuro em cada pessoa, a carregar até que faltar também, há gente que mais falta. Gente capaz de deixar vazios, um pouco mais tristes, outros que nem os conheceram, que nem viveram seu tempo, mas que vivem uma mesma linha, convivem com uma mesma arte.

Políticos, médicos, cientistas certamente haverá que morreram deixando incompleto um trabalho que outros não poderiam, ou somente a muito custo puderam, completar ou seguir. Veja-se o famoso caso de Fermat.

Mas a mim, a nós, espero, interessam mais as artes. Interessa mais a dor de pensar que, como já disse aqui, Chirstopher Marlowe, Lucano, Pergolesi e Lequeux morreran antes dos trinta anos, deixando apenas a possibilidade de imaginarmos o que poderiam vir a fazer, frente ao que já haviam mostrado. Ou, para mim mais aguda, a dor de pensar aonde ainda poderiam ir os trajetos já iniciados e consolidados (e plenamente produtivos, até o fim) de gente como Joyce e Gould.

Shakespeare morreu muito novo, antes dos sessenta, exatamente como os outros que acabo de citar. Mas tinha, aparentemente, ele mesmo dado por ecerrada sua carreira como dramaturgo, escrevendo cada vez menos, em seu exílio em Stratford, e principalmente em colaboração com Fletcher, seu sucessor no Globe Theatre. Sua obra teve um início algo tateante, um ápice inigualável e um fim em ponto morto.

Dia desses eu dizia a um amigo e vizinho escritor que sua tarefa era, para o resto da vida, escrever seu próximo livro, coisa que ninguém mais poderia fazer, e que certamente pessoas esperavam conhecer feita.

Pois bem, amiguinhos, o que me dói imensamente é que nós simplesmente jamais conheceremos o que andava pela cabeça insanamente privilegiada de James Joyce depois de ter consumado o romance com o Ulisses e reinventado a narrativa com o Finnegans Wake. Harold Bloom acredita poder imaginar que Joyce andaria a pensar em um épico sobre o mar, baseado em quase nada além do costume do bardo irlandês de emendar os finais de seus livros, tenso o Wake terminado com o rio Anna Livia fluindo lindamente para o Mar Humphrey Chimpden Earwicker. Nós jamais leremos o próximo romance de Joyce. Jamais conheceremos a nova perversão de um homem morto com meros 58 anos, por causa de uma úlcera durante anos diagnosticada equivocadamente. Só para fins de comparação, se nosso grande (grande mesmo) José Saramago tivesse morrido com essa idade, mal teríamos notícia do autor de coisas como "Deste mundo e do outro" e "Terra do pecado". E Joyce não estava em ponto morto; ele, caso único entre os escritores, demonstrou ter um plano conseqüente e completo de reformulação da literatura, que parecia ter chegado ao fim no Ulisses, mas que foi ultrapassado no Wake, e que o levaria aonde, meu Deus? Tremenda injustiça.

E Gould?

Glenn Gould morreu com 51 anos e, mais triste ainda, poderia estar hoje vivo com meros 72. (Setenta e dois anos não são nada para um gênio; Saramago, de novo ele, passou dos 80.)

Antes dos 30 ele revolucionou nosso conceito de interpretação de música erudita ao piano. Era o maior dos intérpretes de Bach quando tinha a minha idade. Logo depois, no auge de sua carreira, ele decide largar os palcos, cansado do circo, como dizia. Outro que viu os tempos mudarem, ele decide se consagrar apenas ao estúdio, polindo repolindo editando e emendando suas gravações, para horror de muitos puristas, para levar a música a muito mais gente, de uma forma mais eficiente.

Mas mesmo disso ele cansou, e começou a dizer que se dedicaria apenas à regência. Pelo pouco que deixou gravado, teria sido um regente interessante, talvez não tanto quanto como pianista.

Mas o que me interessa aqui é o que ele poderia estar fazendo como compositor. Ele escreveu muito pouco, e muito esparsamente ao longo da vida. Começando com um quarteto puramente Alban Berg, passando por peças curtas puramente Schoenberg. Mas. E este é um grande mas. Ele conseguiu escrever coisas como "So you want to write a fugue", cujo texto vai traduzido aí embaixo, só pela diversão, uma completa e complexa fuga barroca com um texto louco que sintetiza muito bem sua postura, ao menos como intérprete.

Gould era muito dispersivo como compositor, desperdiçou inclusive oportunidades de se dedicar mais intensamente a isso. Mas a idade, a tranqüilidade, poderia ter-nos dado um raríssimo exemplo (só penso em Schnittke como comparação) de um compositor que tivesse atravessado a música contemporânea com o artigo de que ela mais sente falta: senso de humor. E isso não teria tido preço.

Mas nós nunca conheceremos as peças camerísticas que Gould teria escrito quando conseguisse a liberdade que já obtivera nas formas vocais, e a aliasse a uma legítima concentração em seu trabalho de composição. E nunca ouviremos a gravação dos Concertos de Brandenburgo que ele não fez.

Consolo: leiam "O náufrago" de Thomas Bernhard, que trata da catástrofe que representou, na vida de um pianista, entrar em uma sala e ouvir Gould ensaiando as variações Goldberg. E leiam o textinho abaixo, bela epígrafe para qualquer trabalho pretensioso: os únicos que valem a pena. Ou vão às fontes, Joyce e Gould, e sejam bem mais felizes.

ENTÃO VOCÊ QUER ESCREVER UMA FUGA? (1964)

Então você quer escrever uma fuga?
Está com vontade de escrever uma fuga,
Tem a audácia de escrever uma fuga.
Então vá em frente e escreva uma fuga que a gente possa cantar!

Não ligue para o que te dissemos,
Não se importe com o que te dissemos,
Esqueça tudo o que te dissemos,
E a teoria que você leu.
Porque a única maneira de escrever uma,
É mergulhar de vez e escrever.
Então esqueça as regras e escreva uma,
Tente, é, tente escrever uma fuga.

Então, ignore as regras e tente,
E a diversão da coisa vai te pegar,
E a alegria da coisa vai te tomar,
Um prazer que há de te satisfazer.
Então por que não tentar?
Você vai acabar vendo que João Sebastião,
Deve ter sido um cara de muita personalidade.

Mas nunca seja esperto só para ser esperto,
Pois um cânon por inversão é um desvio perigoso,
E um pouco de aumento é uma séria tentação,
Enquanto que um Stretto em diminuição é uma solução óbvia.
Nunca seja esperto só para ser esperto,
Só para se mostrar!

É impressionante, não é?
E quando você tiver acabado de escrever,
Eu acho que você vai ter se divertido muito (espero)...
Bem, quem não arrisca não petisca, dizem...
Mas ainda assim é difícil de começar.
Vamos tentar.

Agora?
Vamos escrever uma fuga agora mesmo!

Caetano Waldrigues Galindo, 29, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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