Edição de 25.3 a 2.4.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Altman e um cinema americano sobrevivente
Assassinato em Gosford Park é biscoito fino

Dias destes, zapeando na TV a cabo, achei Festim Diabólico, de Hitchcock — filme pra sempre ver de novo. Faz falta, como faz, nos dias de hoje, achar um entretenimento adulto. Nem estou pensando no malabarismo técnico de Hitchcock (pra quem não viu, Festim Diabólico é quase um teatro filmado, com raríssimos cortes — cada take dura 10 minutos), mas, sobretudo, naquilo que o cinema americano — neste caso, dirigido por um inglês — tinha de melhor: roteiro excepcional, diálogo sofisticado, gente falando alguma coisa que não ofenda a inteligência de ninguém.

Não sou muito de ficar fazendo apologias sem fins à arte do passado — mas, pelo menos no cinema, no cinema gringo, houve uma época em que Faulkner escrevia roteiros e as estrelas bacanas interpretavam as palavras de Tenesse Williams, Edward Albee e Arthur Miller. Mesmo a filmografia de entretenimento, como Festim Diabólico, contava com uma narração suficientemente interessante para que uma sala de jantar fosse o único cenário necessário. Um certo cinema morreu, um cinema mais “textocêntrico”, mais com cara de teatro, lento, com personagens densos e complicados. Nesta época, o conflito não se baseava no maniqueísmo banal, mas em divagar livremente sobre a condição humana.

O cinema americano, hoje, ainda é conseqüência do que Spielberg e George Lucas fizeram na década de 70. Profusão de efeitos especiais, fantasia, custos e lucros astronômicos, ritmo alucinado, infantilização — aqui os personagens ficam em segundo plano, o que importa é a pirotecnia. Claro, há exemplos de acabamento magnífico, e, hoje, uma amostra inconfundível seria O Senhor dos Anéis, com sua plástica extraordinária e seus personagens de inacreditável pobreza dramática.

Como todo mundo já disse, este é o cinema pipoca, que dura tanto quanto o pacote da dita cuja, e que não vai muito além de entreter. Para os apocalípticos de plantão: sim, a cultura hedonista, que pouco se importa com as questões que realmente ficam. Mas, por outro lado, entretenimento por entretenimento também é importante, pelo menos pra mim, que apesar de tudo, também adoro Spielberg e também preciso consumir diversão sem compromisso.

Daquele outro cinema americano, daquele que até arriscaria a chamar de arte, felizmente ainda há sobreviventes. Woody Allen, Martin Scorsese e Robert Altman, pra ficar nos mais óbvios e conhecidos. Mas, aproveitando a carona do Oscar, fiquemos hoje com Altman.

Taí um diretor não domesticado pelos grandes estúdios e pela filmografia de massa. Pelo contrário, Altman cutuca a onça com vara curta — vide O Jogador —, e gosta de surpreender o espectador com soluções originalíssimas, que, claro, nem sempre agradam a gregos e troianos. Sou fã. Mesmo nos filmes menores, como Kansas City ou Dr. T e as Mulheres, sempre há algo suficientemente relevante, suficientemente inteligente para torná-los muito acima da média americana.

Mas, quando o resultado é o melhor de Altman, espere obras-primas como Short Cuts ou então este irresistível Assassinato em Gosford Park. Aqui, tudo o que se pode aprender com um mestre: um tema relevante (frivolidade, diferenças de classes), um roteiro excepcional, personagens adultos com falas adultas, atores de primeira grandeza, e, principalmente, leveza e sutileza.

A história é simples e eficiente — em uma mansão milionária, a alta sociedade inglesa do início dos anos 30 se reúne para um final de semana de caça e diversão. Durante os eventos, o dono da casa, William McCordle, é assassinado e, como nos filmes mais banais de mistério, todos são suspeitos.

Ainda que Gosford Park tenha toques de filmes de detetive, ou então, de fina comédia, o que fica mesmo são os inúmeros conflitos de todo um batalhão de personagens, retratando não só a futilidade da riqueza, mas também as diferenças (ou semelhanças...) entre os criados e a alta sociedade. Enfim, o melhor do antigo cinema americano, filme fino em que não podemos desconfiar do final desde o início.

Escrevo a coluna no sábado, um dia antes do Oscar. Acho que Uma Mente Brilhante leva a taça, porque foi feito para isto — mas, às vezes acontece de a tal academia ficar irreconhecível e acabar tomando uma decisão inteligente. Neste caso raro, Gosford Park tem chances. Torcemos.

André Tezza Consentino, 28 anos, é publicitário e casado com a Fran.

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