Com uma taxa de crescimento
de 2,7% ao ano, uma das maiores do país, Curitiba está
mudando drasticamente nestes últimos anos. O lado ruim da estatística
é mais do que visível, sobretudo porque a maior parte da população
que está vindo pra capital é do próprio Estado - são pequenos
agricultores e trabalhadores do campo que, excluídos da política
de industrialização do Paraná, estão migrando em massa em busca
de melhores condições de vida.
O resultado é manjado, já que a população que acaba aportando
por aqui não tem a instrução mínima necessária para ingressar
no mercado de trabalho. Aumento de favelas. Aumento da criminalidade.
Enfim, um processo irreversível que vem acontecendo no Brasil
há pelo menos meio século e que, agora, muito mais do que antes,
está mostrando todo o seu lado maligno para o curitibano. A
capital do Estado é uma das cidades mais violentas do país e
já é terceiro lugar no Brasil em instalação de blindagem de
carros. Aliás, falando em carros, foi se o tempo em que o trânsito
de Curitiba era um paraíso - fenômeno recentíssimo, pois há
dez anos nem sequer sabíamos o que era a hora do rush.
Mas, apesar do pesares, nem tudo está perdido. Porque, pela
primeira vez, estamos deixando de ser caipiras - o preço que
possivelmente toda cidade brasileira paga para abandonar o sítio,
é ganhar mais sangue nas páginas policiais. Lógico, que fique
bem claro, ainda somos província. Mas, somos menos.
Há, indiscutivelmente, algo de novo na cidade. E vem de fora,
vem de migrantes de São Paulo e Rio de Janeiro, cidades que
a cada dia conseguem se tornar bem mais inabitáveis que Curitiba.
É gente que procura uma qualidade de vida melhor. E, em geral,
neste caso em particular, gente com um grau de instrução bastante
sofisticado. Assim, apareceram recentemente por aqui, por motivos
diversos - mas não muito diferentes -, artistas e intelectuais
como José Castello, Décio Pignatari (e mais dezenas de professores
universitários de São Paulo), Tisuka Yamasaki, entre outros.
Estas são algumas das estrelas mais conhecidas, mas, elas são
só a ponta do iceberg. Porque na base, há uma nova classe formadora
de opinião em Curitiba - suficientemente forte para que o PT,
que sempre foi um partido maldito dentro do conservadorismo
medonho da cidade, quase levasse as últimas eleições municipais.
Outra mudança nítida no comportamento da cidade são as alternativas
noturnas e gastronômicas. Pela primeira vez Curitiba tem um
restaurante que está entre os melhores do país pela avaliação
da Quatro Rodas, o caríssimo Boulevard. E, salvo engano, houve
um crescimento sem precedentes nos barzinhos de happy hour.
Dom Max, Beto Batata, Mercearia do Português, Café Mafalda,
só pra citar os mais óbvios, são belas e bem-vindas novidades.
E, na noite, Era Só o que Faltava, Sociedade Vasco da Gama e
Original Café estão impulsionando como nunca antes a música
popular local.
Aliás, em matéria de música, Curitiba realmente deu um salto.
Apesar dos sucessivos desastres da OSINPA após a saída do maestro
Osvaldo Colarusso, desde o ano passado a cidade está recebendo
a espetacular série Latina, com alguns dos melhores intérpretes
italianos de música erudita - e o melhor: a preços irrisórios.
É uma pena que não exista em Curitiba um jornalismo suficientemente
inteligente na área musical pra entender e divulgar a magnitude
deste evento - rezamos todos o dia para que o Adriano Brandão,
que faz o melhor site brasileiro de música (www.allegrobr.com),
escreva com mais freqüência nas páginas de cultura dos jornais
daqui. Fora a música erudita, apareceram também excelentes bandas
pra balançar o esqueleto, como o Turbo Funk, o Vadeco e o Merekumbê.
E, de quebra, com o empenho obstinado do Arthur, a cidade viveu
noites memoráveis de Jam Session no Original Café, como o inesquecível
encontro de Hermeto Pascoal ao lado do Dr. Cipó. Nas outras
áreas, Curitiba ficou na mesma. Ainda é uma referência nacional
de literatura, com uma boa safra de escritores - liderada pela
genialidade do Dalton. Também é munida de um bom arsenal de
pensamento crítico literário - liderado por Wilson Martins.
E bem, continua sendo uma referência do pior teatro brasileiro,
se é que existe um grande teatro brasileiro, e de alguns poucos
bons nomes nas artes plásticas, na fotografia e no design.
Enfim, a última barreira para que Curitiba deixe de ser uma
província ainda é o jornalismo.