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Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 05/11/2001

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Para bem e para mal
A Curitiba de hoje não é a mesma de dez anos atrás.

André Tezza Consentino

Com uma taxa de crescimento de 2,7% ao ano, uma das maiores do país, Curitiba está mudando drasticamente nestes últimos anos. O lado ruim da estatística é mais do que visível, sobretudo porque a maior parte da população que está vindo pra capital é do próprio Estado - são pequenos agricultores e trabalhadores do campo que, excluídos da política de industrialização do Paraná, estão migrando em massa em busca de melhores condições de vida.

O resultado é manjado, já que a população que acaba aportando por aqui não tem a instrução mínima necessária para ingressar no mercado de trabalho. Aumento de favelas. Aumento da criminalidade. Enfim, um processo irreversível que vem acontecendo no Brasil há pelo menos meio século e que, agora, muito mais do que antes, está mostrando todo o seu lado maligno para o curitibano. A capital do Estado é uma das cidades mais violentas do país e já é terceiro lugar no Brasil em instalação de blindagem de carros. Aliás, falando em carros, foi se o tempo em que o trânsito de Curitiba era um paraíso - fenômeno recentíssimo, pois há dez anos nem sequer sabíamos o que era a hora do rush.

Mas, apesar do pesares, nem tudo está perdido. Porque, pela primeira vez, estamos deixando de ser caipiras - o preço que possivelmente toda cidade brasileira paga para abandonar o sítio, é ganhar mais sangue nas páginas policiais. Lógico, que fique bem claro, ainda somos província. Mas, somos menos.

Há, indiscutivelmente, algo de novo na cidade. E vem de fora, vem de migrantes de São Paulo e Rio de Janeiro, cidades que a cada dia conseguem se tornar bem mais inabitáveis que Curitiba. É gente que procura uma qualidade de vida melhor. E, em geral, neste caso em particular, gente com um grau de instrução bastante sofisticado. Assim, apareceram recentemente por aqui, por motivos diversos - mas não muito diferentes -, artistas e intelectuais como José Castello, Décio Pignatari (e mais dezenas de professores universitários de São Paulo), Tisuka Yamasaki, entre outros. Estas são algumas das estrelas mais conhecidas, mas, elas são só a ponta do iceberg. Porque na base, há uma nova classe formadora de opinião em Curitiba - suficientemente forte para que o PT, que sempre foi um partido maldito dentro do conservadorismo medonho da cidade, quase levasse as últimas eleições municipais.

Outra mudança nítida no comportamento da cidade são as alternativas noturnas e gastronômicas. Pela primeira vez Curitiba tem um restaurante que está entre os melhores do país pela avaliação da Quatro Rodas, o caríssimo Boulevard. E, salvo engano, houve um crescimento sem precedentes nos barzinhos de happy hour. Dom Max, Beto Batata, Mercearia do Português, Café Mafalda, só pra citar os mais óbvios, são belas e bem-vindas novidades. E, na noite, Era Só o que Faltava, Sociedade Vasco da Gama e Original Café estão impulsionando como nunca antes a música popular local.

Aliás, em matéria de música, Curitiba realmente deu um salto. Apesar dos sucessivos desastres da OSINPA após a saída do maestro Osvaldo Colarusso, desde o ano passado a cidade está recebendo a espetacular série Latina, com alguns dos melhores intérpretes italianos de música erudita - e o melhor: a preços irrisórios. É uma pena que não exista em Curitiba um jornalismo suficientemente inteligente na área musical pra entender e divulgar a magnitude deste evento - rezamos todos o dia para que o Adriano Brandão, que faz o melhor site brasileiro de música (www.allegrobr.com), escreva com mais freqüência nas páginas de cultura dos jornais daqui. Fora a música erudita, apareceram também excelentes bandas pra balançar o esqueleto, como o Turbo Funk, o Vadeco e o Merekumbê. E, de quebra, com o empenho obstinado do Arthur, a cidade viveu noites memoráveis de Jam Session no Original Café, como o inesquecível encontro de Hermeto Pascoal ao lado do Dr. Cipó. Nas outras áreas, Curitiba ficou na mesma. Ainda é uma referência nacional de literatura, com uma boa safra de escritores - liderada pela genialidade do Dalton. Também é munida de um bom arsenal de pensamento crítico literário - liderado por Wilson Martins. E bem, continua sendo uma referência do pior teatro brasileiro, se é que existe um grande teatro brasileiro, e de alguns poucos bons nomes nas artes plásticas, na fotografia e no design.

Enfim, a última barreira para que Curitiba deixe de ser uma província ainda é o jornalismo.

André Tezza Consentino, 28, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

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