A sabedoria falível - memórias
do Oriente
André Tezza Consentino
O primeiro livro que realmente, lembro com segurança, mudou o
curso dos meus achismos sobre o mundo foi O Ponto de Mutação,
do físico austríaco Fritjof Capra. Eu, então do alto da inocência
não perdida dos meus 14 ou 15 anos, ainda não sabia que um dia,
hoje, o livro estaria sob suspeita criminal — no banco dos réus
da minha consciência. Mas na época, santo Capra, foi uma revelação.
Talvez porque tivesse sido meu primeiro livro de ensaios. Talvez
porque pela primeira vez descobrira algumas novidades cruciais
do século XX, saboreando, até onde é possível para um leigo, a
Física Quântica e a Teoria da Relatividade. Talvez, ainda, porque
as primeiras impressões do Oriente — frágeis primeiros passos
— são geralmente mágicas.
Não renego tudo. Ainda não descobri alguém que tenha uma didática
mais sofisticada para explicar os mundinhos espertos de Einstein,
Böhr ou Heisenberg, como Capra — acredite, didática apurada, por
aqui, não é de modo algum mérito desprezível.
Mais. Capra também é brilhante quando disseca, tintim por tintim,
como a física clássica de Newton — o mundo regido por um gigantesco
relógio suiço — está nas entranhas do devir ocidental desde o
século XVII. E, igualmente sábio, quando demonstra que, após o
impacto da física quântica, o mecanicismo revelou-se um instrumento
impreciso e obsoleto de observação do universo — sua influência
sobre a cultura do ocidente, portanto, é um assombroso equívoco.
Até aí tudo bem. Aplausos. Só que Capra queria algo muito mais
ambicioso. O título, Ponto de Mutação, já dá uma pista das pretensões
do livro. Estaríamos vivendo um momento de transição. Nela, alguns
dos valores mais complexos do ocidente, como a razão e a ciência
tradicional, estariam em declínio. Por outro lado, a perspectiva
oriental de apreensão do mundo, em que não há privilégio das partes
isoladas, mas sempre a perspectiva do todo (holismo, de longe,
é a palavra preferida de Capra), lugar em que ciência e religião
não se distinguem facilmente, estaria não só em ascensão, mas
substuindo nossos valores ocidentais.
Para Capra, tudo isto é muito bom — ainda que o livro fale sobre
uma suposta crise do ocidente (a crise do mecanicismo), há um
pano de fundo otimista, a idéia de que o oriente tem muito mesmo
a nos ensinar e que a transição seria bem-vinda. Segundo Capra,
uma prova cabal, para defender esta suposta mudança do paradigma
ocidental, seria a própria física quântica — a física que abandona
a idéia das relações únicas de causa e efeito, que adota o aleatório
como argumento científico (arruinando, portanto, o modelo de Newton)
e que defende uma natureza ambígua da matéria: partícula e/ou
onda. Não é o caso de se esmiuçar estes conceitos, até porque
o e-Rogerio não é a Nature Magazine, mas é o caso de se relatar
que, para Capra, acredite se quiser, os orientais já sabiam de
tudo isto há muito tempo — basta saber interpretar o taoísmo.
Se eu fosse resumir em uma linha, diria que o Ponto de Mutação
é mais um esforço para justificar uma possível superioridade da
milenar sabedoria oriental. É a defesa de um possível processo
de orientalização do mundo contemporâneo. Nem é preciso dizer
que Capra tornou-se, injustamente, um dos gurus preferidos daqueles
que acreditam que vivemos na chamada Nova Era. É o típico sujeito
que faz sucesso na revista Planeta, no Alternativa Saúde ou como
curiosidade no Jô Soares. Infelizmente, tornou-se o "filósofo"
citado aos quatro ventos por tudo quanto é tipo de embusteiros.
E que, naturalmente, é ridicularizado pela comunidade científica
ocidental — eleito o picareta do momento até por Stephen Hawkings.
Particularmente, não diria que Capra faz parte do mesmo time
dos farsantes da Nova Era, mas diria que ambos cometem um erro
comum: desconhecimento de história — aqui está uma lacuna imperdoável
de O Ponto de Mutação. O oriente não está no repertório do ocidente
— em parte porque o ensino e os meios de comunicação do lado de
cá pouco se importam com o lado de lá. Quando se estuda, por exemplo,
o renascimento europeu, ignora-se que a Índia vivia um momento
de igual florescência cultural — a civilização Moghul, que edificou,
entre outros, o Taj Mahal e o Forte de Agra. Ignorar a história
do oriente é ignorar que temos exatamente o mesmo processo de
civilização: dominação do homem sobre o homem e dominação do homem
sobre a natureza. O mundo oriental não é harmonioso, tranqüilo
e sereno como os filmes hollywoodianos sugerem. É uma civilização
sangrenta, de impérios violentíssimos (como o Mongol — possivelmente
o mais terrível império que já existiu), de imensas reviravoltas
políticas e de lamentáveis desigualdades sociais — exatamente
como acontece por aqui, no ocidente, desde que o mundo é mundo.
As religiões orientais (que alguns preferem chamar de filosofia
ou conduta de vida) são igualmente dogmáticas. Em geral, também
punem a sexualidade como pressuposto de amadurecimento espiritual
(mas sem a culpa e a moral católica, é bem verdade) e são de um
machismo odioso — mulher não tem vez em mosteiro budista. Isto,
quando não acontece a tagédia do hinduísmo, um modelo eficaz para
apaziguar o abismo econômico entre as diversas castas da Índia.
No caso da Índia, não estou falando com desconhecimento de causa
— andei por lá em 1998. Sem exagero algum, ainda não conheci lugar
mais triste. Lá, a miséria é soberana. Não há classe média, mas
uma brutal população de mendigos (que não pode almejar uma condição
social melhor por determinação religiosa) em contraste com uma
revoltante casta de poucos marajás que vive encastelada em cenários
paradisíacos.
Talvez alguém me acuse de opinião suspeita — afinal, aparentemente,
sou um materialista convicto. Mas, o diretor de teatro Antunes
Filho, um fã da Índia e do hinduísmo até o dia em que conheceu
a Índia e o hinduísmo de carne e osso, declarou em entrevista
para a Folha de São Paulo, em 1996: "A Índia... Eu fui com tanto
sonho, tanto sonho e eu vi uma coisa pesada. Uma coisa terrível
para mim. Além da pobreza. A Índia para mim foi uma decepção,
confesso. Esperava uma coisa, sonhava tanta coisa, eu que adoro
tanto a mitologia hindu (...) A viagem foi terrível. Como eu fiz
uma viagem por baixo mesmo, de conhecer os lugares com o povo,
não fui em ônibus com ar condicionado, então foi terrível, como
experiência. A miséria me... Eu fiquei mal. (...) Aquela mitologia
se tornou uma coisa mais pragmática, muito utilitária. (...) Eu
não tenho mais vontade de voltar à Índia"
Na declaração de Antunes há um ponto crucial: a enorme dissonância
entre o imaginário ocidental sobre o oriente e a realidade oriental
propriamente dita. O oriente é menos mágico, menos fantástico,
menos sábio do que o Sheherazade de Korsakov sugere. Não somos
tão inferiores assim — ora, nossa sabedoria, nossos gregos (Será
que Capra se esqueceu que holismo é uma idéia grega?), também
são igualmente milenares. E, em alguns pontos, como o machismo,
honestamente, acho que somos uma civilização muito mais sofisticada
— pergunte para uma mulher chinesa ou mulçumana se ela gosta da
idéia do relativismo cultural.
Para Capra, a superioridade oriental é tamanha, que, por lá,
até a física quântica é milenar. É só uma questão de interpretação.
Isto cheira a profecias de Nostradamus — são tão terrivelmente
ambíguas e obscuras, que se pode deduzir de tudo. Até o fim do
mundo, com dia e hora marcados. Para entender melhor o poder da
ambigüidade, faço uma sugestão ao leitor. Visite o site http://www.uol.com.br/iching/
É isto mesmo, já é possível consultar o livro das mutações, o
I Ching, um clássico da cultura oriental, em versão on-line. Para
quem não conhece o I Ching, explico: é uma espécie oráculo, um
doutor sabe tudo, pronto para responder qualquer questão a qualquer
hora. Mas, quando estiver no site, proponho um desafio. Ao invés
de indagar somente uma pergunta, pense em duas ou três. E leia
a resposta. O texto é tão suficientemente ambígüo, tão riquíssimo
nas metáforas, que é capaz de responder as três. Ou qualquer outra.
Resta ainda desmistificar a orientalização do mundo. Segundo
Capra, é um processo irreversível — cada vez mais adotaremos o
paradigma do oriente. Bem, é uma teoria que carece de um mínimo
de senso de realidade, para dizer o mínimo. Para bem ou para mal,
a globalização é, em vários sentidos, o processo de ocidentalização
do mundo. Não são os hábitos orientais que estão fazendo a cabeça
do ocidente, mas justamente o oposto. Nossa comida, nossa medicina,
nossas crenças, nossos filmes, nossa música — em uma invasão sem
precedentes e sem paralelos — é que estão conquistando os mercados
de lá. É muito difícil aceitar o argumento de Capra sabendo que
as grandes potências econômicas do mundo estão no ocidente. Não
é uma questão de escolher este ou aquele modelo como o ideal,
assim estaria eu cometendo o mesmo erro de Capra, mas de se evidenciar
novamente que O Ponto de Mutação carece de lastros de história.
Antes de aceitar teorias fantasiosas sobre o oriente, prefiro
admirar o palpável, a simplicidade do dia-a-dia, a sabedoria falível.
Se alguns procuram profecias milenares e redenção espiritual,
prefiro comer sushi de joelhos, admirar extasiado a arquitetura
da Índia do século XVI e caminhar, feliz da vida, no Himalaya
do Nepal. Para mim, O Ponto de Mutação é um livro já datado. Envelheceu.
Hoje, as pessoas morrem porque não gostam do McDonalds. Sim, há
um ponto de mutação no mundo — justamente o inverso das previsões
de Capra.
André Tezza Consentino, 27, é publicitário
e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas
do Jazz", da Educativa FM.