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Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 20/08/2001

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A sabedoria falível - memórias do Oriente

André Tezza Consentino

O primeiro livro que realmente, lembro com segurança, mudou o curso dos meus achismos sobre o mundo foi O Ponto de Mutação, do físico austríaco Fritjof Capra. Eu, então do alto da inocência não perdida dos meus 14 ou 15 anos, ainda não sabia que um dia, hoje, o livro estaria sob suspeita criminal — no banco dos réus da minha consciência. Mas na época, santo Capra, foi uma revelação. Talvez porque tivesse sido meu primeiro livro de ensaios. Talvez porque pela primeira vez descobrira algumas novidades cruciais do século XX, saboreando, até onde é possível para um leigo, a Física Quântica e a Teoria da Relatividade. Talvez, ainda, porque as primeiras impressões do Oriente — frágeis primeiros passos — são geralmente mágicas.

Não renego tudo. Ainda não descobri alguém que tenha uma didática mais sofisticada para explicar os mundinhos espertos de Einstein, Böhr ou Heisenberg, como Capra — acredite, didática apurada, por aqui, não é de modo algum mérito desprezível.

Mais. Capra também é brilhante quando disseca, tintim por tintim, como a física clássica de Newton — o mundo regido por um gigantesco relógio suiço — está nas entranhas do devir ocidental desde o século XVII. E, igualmente sábio, quando demonstra que, após o impacto da física quântica, o mecanicismo revelou-se um instrumento impreciso e obsoleto de observação do universo — sua influência sobre a cultura do ocidente, portanto, é um assombroso equívoco.

Até aí tudo bem. Aplausos. Só que Capra queria algo muito mais ambicioso. O título, Ponto de Mutação, já dá uma pista das pretensões do livro. Estaríamos vivendo um momento de transição. Nela, alguns dos valores mais complexos do ocidente, como a razão e a ciência tradicional, estariam em declínio. Por outro lado, a perspectiva oriental de apreensão do mundo, em que não há privilégio das partes isoladas, mas sempre a perspectiva do todo (holismo, de longe, é a palavra preferida de Capra), lugar em que ciência e religião não se distinguem facilmente, estaria não só em ascensão, mas substuindo nossos valores ocidentais.

Para Capra, tudo isto é muito bom — ainda que o livro fale sobre uma suposta crise do ocidente (a crise do mecanicismo), há um pano de fundo otimista, a idéia de que o oriente tem muito mesmo a nos ensinar e que a transição seria bem-vinda. Segundo Capra, uma prova cabal, para defender esta suposta mudança do paradigma ocidental, seria a própria física quântica — a física que abandona a idéia das relações únicas de causa e efeito, que adota o aleatório como argumento científico (arruinando, portanto, o modelo de Newton) e que defende uma natureza ambígua da matéria: partícula e/ou onda. Não é o caso de se esmiuçar estes conceitos, até porque o e-Rogerio não é a Nature Magazine, mas é o caso de se relatar que, para Capra, acredite se quiser, os orientais já sabiam de tudo isto há muito tempo — basta saber interpretar o taoísmo.

Se eu fosse resumir em uma linha, diria que o Ponto de Mutação é mais um esforço para justificar uma possível superioridade da milenar sabedoria oriental. É a defesa de um possível processo de orientalização do mundo contemporâneo. Nem é preciso dizer que Capra tornou-se, injustamente, um dos gurus preferidos daqueles que acreditam que vivemos na chamada Nova Era. É o típico sujeito que faz sucesso na revista Planeta, no Alternativa Saúde ou como curiosidade no Jô Soares. Infelizmente, tornou-se o "filósofo" citado aos quatro ventos por tudo quanto é tipo de embusteiros. E que, naturalmente, é ridicularizado pela comunidade científica ocidental — eleito o picareta do momento até por Stephen Hawkings.

Particularmente, não diria que Capra faz parte do mesmo time dos farsantes da Nova Era, mas diria que ambos cometem um erro comum: desconhecimento de história — aqui está uma lacuna imperdoável de O Ponto de Mutação. O oriente não está no repertório do ocidente — em parte porque o ensino e os meios de comunicação do lado de cá pouco se importam com o lado de lá. Quando se estuda, por exemplo, o renascimento europeu, ignora-se que a Índia vivia um momento de igual florescência cultural — a civilização Moghul, que edificou, entre outros, o Taj Mahal e o Forte de Agra. Ignorar a história do oriente é ignorar que temos exatamente o mesmo processo de civilização: dominação do homem sobre o homem e dominação do homem sobre a natureza. O mundo oriental não é harmonioso, tranqüilo e sereno como os filmes hollywoodianos sugerem. É uma civilização sangrenta, de impérios violentíssimos (como o Mongol — possivelmente o mais terrível império que já existiu), de imensas reviravoltas políticas e de lamentáveis desigualdades sociais — exatamente como acontece por aqui, no ocidente, desde que o mundo é mundo.

As religiões orientais (que alguns preferem chamar de filosofia ou conduta de vida) são igualmente dogmáticas. Em geral, também punem a sexualidade como pressuposto de amadurecimento espiritual (mas sem a culpa e a moral católica, é bem verdade) e são de um machismo odioso — mulher não tem vez em mosteiro budista. Isto, quando não acontece a tagédia do hinduísmo, um modelo eficaz para apaziguar o abismo econômico entre as diversas castas da Índia.

No caso da Índia, não estou falando com desconhecimento de causa — andei por lá em 1998. Sem exagero algum, ainda não conheci lugar mais triste. Lá, a miséria é soberana. Não há classe média, mas uma brutal população de mendigos (que não pode almejar uma condição social melhor por determinação religiosa) em contraste com uma revoltante casta de poucos marajás que vive encastelada em cenários paradisíacos.

Talvez alguém me acuse de opinião suspeita — afinal, aparentemente, sou um materialista convicto. Mas, o diretor de teatro Antunes Filho, um fã da Índia e do hinduísmo até o dia em que conheceu a Índia e o hinduísmo de carne e osso, declarou em entrevista para a Folha de São Paulo, em 1996: "A Índia... Eu fui com tanto sonho, tanto sonho e eu vi uma coisa pesada. Uma coisa terrível para mim. Além da pobreza. A Índia para mim foi uma decepção, confesso. Esperava uma coisa, sonhava tanta coisa, eu que adoro tanto a mitologia hindu (...) A viagem foi terrível. Como eu fiz uma viagem por baixo mesmo, de conhecer os lugares com o povo, não fui em ônibus com ar condicionado, então foi terrível, como experiência. A miséria me... Eu fiquei mal. (...) Aquela mitologia se tornou uma coisa mais pragmática, muito utilitária. (...) Eu não tenho mais vontade de voltar à Índia"

Na declaração de Antunes há um ponto crucial: a enorme dissonância entre o imaginário ocidental sobre o oriente e a realidade oriental propriamente dita. O oriente é menos mágico, menos fantástico, menos sábio do que o Sheherazade de Korsakov sugere. Não somos tão inferiores assim — ora, nossa sabedoria, nossos gregos (Será que Capra se esqueceu que holismo é uma idéia grega?), também são igualmente milenares. E, em alguns pontos, como o machismo, honestamente, acho que somos uma civilização muito mais sofisticada — pergunte para uma mulher chinesa ou mulçumana se ela gosta da idéia do relativismo cultural.

Para Capra, a superioridade oriental é tamanha, que, por lá, até a física quântica é milenar. É só uma questão de interpretação. Isto cheira a profecias de Nostradamus — são tão terrivelmente ambíguas e obscuras, que se pode deduzir de tudo. Até o fim do mundo, com dia e hora marcados. Para entender melhor o poder da ambigüidade, faço uma sugestão ao leitor. Visite o site http://www.uol.com.br/iching/ É isto mesmo, já é possível consultar o livro das mutações, o I Ching, um clássico da cultura oriental, em versão on-line. Para quem não conhece o I Ching, explico: é uma espécie oráculo, um doutor sabe tudo, pronto para responder qualquer questão a qualquer hora. Mas, quando estiver no site, proponho um desafio. Ao invés de indagar somente uma pergunta, pense em duas ou três. E leia a resposta. O texto é tão suficientemente ambígüo, tão riquíssimo nas metáforas, que é capaz de responder as três. Ou qualquer outra.

Resta ainda desmistificar a orientalização do mundo. Segundo Capra, é um processo irreversível — cada vez mais adotaremos o paradigma do oriente. Bem, é uma teoria que carece de um mínimo de senso de realidade, para dizer o mínimo. Para bem ou para mal, a globalização é, em vários sentidos, o processo de ocidentalização do mundo. Não são os hábitos orientais que estão fazendo a cabeça do ocidente, mas justamente o oposto. Nossa comida, nossa medicina, nossas crenças, nossos filmes, nossa música — em uma invasão sem precedentes e sem paralelos — é que estão conquistando os mercados de lá. É muito difícil aceitar o argumento de Capra sabendo que as grandes potências econômicas do mundo estão no ocidente. Não é uma questão de escolher este ou aquele modelo como o ideal, assim estaria eu cometendo o mesmo erro de Capra, mas de se evidenciar novamente que O Ponto de Mutação carece de lastros de história.

Antes de aceitar teorias fantasiosas sobre o oriente, prefiro admirar o palpável, a simplicidade do dia-a-dia, a sabedoria falível. Se alguns procuram profecias milenares e redenção espiritual, prefiro comer sushi de joelhos, admirar extasiado a arquitetura da Índia do século XVI e caminhar, feliz da vida, no Himalaya do Nepal. Para mim, O Ponto de Mutação é um livro já datado. Envelheceu. Hoje, as pessoas morrem porque não gostam do McDonalds. Sim, há um ponto de mutação no mundo — justamente o inverso das previsões de Capra.

André Tezza Consentino, 27, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

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