Slow food
Carta branca para André Tezza Consentino

23/07/2001

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A polêmica do Radiohead

Leia o artigo original do Lapão

Leia a resposta do André

Leia o terceiro artigo da série

 

Cadenza

André Tezza Consentino

Mestre Lapão,

Agora, depois da tempestade, é tempo para algumas concordâncias e o momento para desmiudar as nossas diferenças. Ainda bem. O mundo todo igual é chato e perigoso — verdade das bem simples e bestas, mas que prego com fervor iluminista. Novamente, para facilitar a leitura dos nossos fartos ouvintes, provavelmente tão numerosos quanto os do Boulez, façamos ponto a ponto.

Arte.
Realmente, é melhor não se atrever na área do pênalti. Deixemos as pedreiras da filosofia para boleiros profissionais. Mas, considere que o meu atrevimento foi brando. Definição é limitação, sei bem, mas, definição por exclusão (arte não é só prazer) é uma argumentação, ainda que singela, completa. Ou melhor, ética. O belo pelo belo é o bobo pelo bobo, o imperativo da subjetividade kitsch. De outro modo, se música é só prazer, como diferenciar Bach do Bonde do Tigrão?

Jazz.
Veja duas coisas. A primeira é que o fato de o jazz ser, hoje, matéria que reprova em ainda alguns poucos (porém, importantes) conservatórios era o argumento de outros tios — já também desisti de achar o jazz erudito. A segunda é que o jazz é a música popular (ou, ao menos, de origem popular) de grande influência na arte do século XX e tão somente do século XX. Não estava pensando nos séculos XVIII ou XIX.

Pequena listagem aleatória — só de aperitivo. Se o jazz é de interesse de um Matisse, Pollock ou de um Mondrian, se ele está no cinema do Allen, Altman ou do Malle, na literatura de Cortázar, Hesse ou de Albee, nas reflexões de Hobsbawn, Sartre ou Eco e na música de Stravinsky, Shostakovich e Ravel, convenhamos, é porque ele deve ter tido alguma relevância no século passado.

Blues.
Mestre, do blues tudo nasceu, inclusive o jazz. Mas, veja, dizer que o rock veio do blues é uma meia verdade, logo, uma meia mentira. O rock é um blended. Quem teorizou que o rock and roll deve, sim senhor, ao jazz não fui eu, mas, de um lado, o maior historiador do século XX, Hobsbawn, e de outro, o maior historiador do jazz, Lincoln Collier. Um arremate: "o rock é a música jeca misturada a jazz (a receita certa, porque em todo o mundo há um jeca)" — se você já tinha teorias sobre a mãe do Argan, suponho indagações semelhantes para a pobre mãe finada do Paulo Francis.

Lapão, sem o jazz, o rock nem sequer teria bateria. Meu, basta ouvir In The Mood que você vai encontrar toda a história do rock and roll. Mas, para não atolarmos em uma discussão estéril, melhor a reflexão de quem pesquisou o assunto de verdade — não a ladainha ignorante do Lucio Ribeiro. Observe a absorva o texto do Collier, raptado de Jazz, A Autêntica Música Americana:

"É muito raro, na história seja do que for, podermos assinalar um momento exato em que algum grande fenômeno tenha começado. No caso do rock, no entanto, isso é possível. Foi a criação proposital, em 1936, de um grupo de Chicago chamado os Harlem Hamfats.(...) O grupo era um típico exemplo das pequenas orquestras de swing que tocavam em bares e clubes nos bairros de negros espalhados por todos os Estados Unidos (...) Os Harlem Hamfats inspiravam-se, recuando uns poucos anos no tempo, na banda dixieland "evoluída" do final da década de 1920 e tocaram de um modo que iria ser rotulado como o "estilo de Chicago": uma pequena orquestra de jazz hot movido pelo blues, tendo à frente um ou dois trompetes e, freqüentemente, um vocalista. (...) De longe o mais importante dos seguidores dos Hamfats foi um grupo dirigido pelo sax-alto Louis Jordan (...) destacado solista e cantor da banda de Chick Webb de 1936 a 1938 (...) que organizou seu próprio grupo, a que deu o nome de Tympany Five. O grupo servia-se da receita dos Hamfats, de blues baseado no jazz (...) Mas a figura-chave foi Bill Haley, que, pelos fins da década de 1940, andou programando Jordan e outros músicos de rhythm-and-blues numa pequena estação de rádio em que ele trabalhava. (...) Milt Grabler, que produziu tanto Jordan quanto Haley, disse: eles (Haley) tinham um som com a energia dos Tympany Five e a cor do country and western. Rockabilly era como ficou conhecido naqueles tempos. (...) Mas não foi só Haley. Chuck Berry declarou sem rodeios: Identifico-me com Louis Jordan mais do que qualquer outro artista". Tradução em uma frase: sem jazz, necas de rock and roll.

Tradição.
Sim, podemos dizer que o Nirvana gravou Leadbelly. Mas, a tradição a que me referia não era a simples reprodução desta ou daquela canção — até eu sei que ainda hoje o mundo grava e regrava Beatles (o que seria um exemplo bem menos repulsivo do que o Nirvana). Quando escrevi tradição, leia-se o conjunto daquele parágrafo: tradição+escola+método. Estava falando de algo mais complexo: a construção de uma filosofia, de um modo próprio de se fazer e de se pensar música — há uma linguagem, única, do jazz. Uma linguagem que sobrevive há um século e que eu posso aplicar a qualquer composição, de Beatles a Bach. Isto o pop não inventou, até porque o pop não é bem uma novidade, mas uma extensão simplificada da era do swing.

Metaplasmos.
Sua parábola é bela. Mas, minha vez de dizer que há algo estranho por aqui. Na verdade, estranho não é bem a palavra — injusto seria mais correto. Primeiro: a gramática normativa é a voz do poder. É a voz da parcela privilegiada do dimdim. E, meu, na música, isto não se traduz em Jazz. Nos idos tempos era diferente, mas hoje a elite, como bem disse o Colarusso, quer mesmo é a Sula Miranda cantando na beira da piscina. A elite é pop — não duvido que ouçam Radio Head — e é natural que seja assim, porque hoje, o que dá grana é o pop. Em segundo lugar, se montei um modelo capaz de justificar a inteligência do jazz fora do eurocentrismo e se o pop não se encaixa neste modelo, Lapão, não foi por birra, não foi por achar que a canção não é a essência do jazz, mas por princípios mais nobres. O problema do pop não são só questões de harmonia, melodia ou ritmo. São questões de produção, de imposição, de marketing — em uma palavra: indústria. Reconheço que o tema é complexo, sabemos que a música não se classifica em modelos estanques — só aí, um grande erro dos frankfurtianos. Em linhas gerais, é possível, faz bem até, separar a música em três padrões nítidos, nos moldes de Adorno: popular, pop e erudito. Mas, uma análise mais cuidadosa diria que estes limites são fluidos e indomesticáveis. Comecemos com Gershwin. Erudito? Popular? Pop? Tom Jobim — seguramente um músico da era industrial. O homem adorava fazer tema de novela. E quem vai ter coragem de dizer que Luiza não era genial? Só Adorno. E o Hermeto? Um menino de Alagoas, música popular com refinamento de harmonia erudita. E claro, todos exemplos são de propósito, só para mais uma vez evidenciar algo importante: sem jazz, outro Gershwin, outro Jobim e outro Hermeto.

Entendo que, para você, Radio Head é como Jobim: música inserida na cultura de massas e de altíssimo nível. Talvez você tenha mesmo razão e realmente seja só um preconceito meu — mas, honestamente, no Radio Head, ouço claramente a cultura estandardizada pela tecnologia e aparada nos limites da produção industrial. Algo que, sinceramente, não vejo em Jobim.

Tecnologia.
Lapão, esta eu não dei de bandeja. Claro que sei que a música erudita usou e abusou da tecnologia durante o século XX. Sabemos que foi a música erudita quem inventou toda a parafernália eletrônica. Mas, se você fosse pensar no música erudita realmente essencial do século passado, o que sobraria? Na primeira metade, você escolheria Varèse ou Stravinsky? Eimert (quem?) ou os vienenses? Na segunda metade, meu, o Boulez que ficou foi o do Martelo sem Mestre, não o do Répons. O Ligeti que arrepia é o do Lux Aeterna, não o computador tocando piano. E Stockhausen... Bem, há quem goste. Eletrônica, no universo erudito de hoje, é sinônimo de música datada. Mas não sou ingênuo. Não estou afirmando que a tecnologia é um empecilho para a criatividade — estou só fazendo uma constatação honesta dos fatos. Não duvido que, no futuro, o Pro Tools traga algo realmente genial, mas, por enquanto, só ouvi formulinhas bobas de guris que raramente são músicos. Ainda não encontrei nenhuma música realmente de babar, seja popular ou erudita, que tenha precisado de tomadas.

Fast Food.
Metáfora perfeita. Existe a sabedoria popular, aquela que faz a comida mineira, o barreado, a maravilha da culinária japonesa. Existe a sabedoria erudita, dos chefs franceses e espanhóis. E existe a fast food — que é uma excelente diversão, possivelmente necessária, mas experimente almoçar e jantar todo santo dia um big mac e fale comigo novamente daqui a um ano. Não dá para eleger a cultura de massas como centro da nossa existência.

The End.
Guris eruditos? Convenhamos, Caetano, não é essa a música que precisa ser defendida. Dizem que só existem dois tipos de pessoa: as que amam Roma e as que odeiam Roma. Você, sempre achei, está no segundo bloco, aliado meu. A cultura pop já está armada até os dentes. Esta é uma batalha já ganha, basta olhar o que a mídia reproduz e o que o Lucio Ribeiro escreve. Eu posso ser um preconceituoso construtivo (achar que Bach é bom, a priori, é puro preconceito), mas você, por outro lado, é um dadaísta incorrigível. Classificar Radio Head como música erudita, mestre Lapão, é tentar abrigar mais um urinol no museu.

André Tezza Consentino, 27, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

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