Cadenza
André Tezza Consentino
Mestre Lapão,
Agora, depois da tempestade, é tempo para algumas concordâncias
e o momento para desmiudar as nossas diferenças. Ainda bem. O
mundo todo igual é chato e perigoso — verdade das bem simples
e bestas, mas que prego com fervor iluminista. Novamente, para
facilitar a leitura dos nossos fartos ouvintes, provavelmente
tão numerosos quanto os do Boulez, façamos ponto a ponto.
Arte.
Realmente, é melhor não se atrever na área do pênalti. Deixemos
as pedreiras da filosofia para boleiros profissionais. Mas, considere
que o meu atrevimento foi brando. Definição é limitação, sei bem,
mas, definição por exclusão (arte não é só prazer) é uma argumentação,
ainda que singela, completa. Ou melhor, ética. O belo pelo belo
é o bobo pelo bobo, o imperativo da subjetividade kitsch. De outro
modo, se música é só prazer, como diferenciar Bach do Bonde do
Tigrão?
Jazz.
Veja duas coisas. A primeira é que o fato de o jazz ser, hoje,
matéria que reprova em ainda alguns poucos (porém, importantes)
conservatórios era o argumento de outros tios — já também desisti
de achar o jazz erudito. A segunda é que o jazz é a música popular
(ou, ao menos, de origem popular) de grande influência
na arte do século XX e tão somente do século XX. Não estava pensando
nos séculos XVIII ou XIX.
Pequena listagem aleatória — só de aperitivo. Se o jazz é de
interesse de um Matisse, Pollock ou de um Mondrian, se ele está
no cinema do Allen, Altman ou do Malle, na literatura de Cortázar,
Hesse ou de Albee, nas reflexões de Hobsbawn, Sartre ou Eco e
na música de Stravinsky, Shostakovich e Ravel, convenhamos, é
porque ele deve ter tido alguma relevância no século passado.
Blues.
Mestre, do blues tudo nasceu, inclusive o jazz. Mas, veja, dizer
que o rock veio do blues é uma meia verdade, logo, uma meia mentira.
O rock é um blended. Quem teorizou que o rock and roll deve, sim
senhor, ao jazz não fui eu, mas, de um lado, o maior historiador
do século XX, Hobsbawn, e de outro, o maior historiador do jazz,
Lincoln Collier. Um arremate: "o rock é a música jeca misturada
a jazz (a receita certa, porque em todo o mundo há um jeca)"
— se você já tinha teorias sobre a mãe do Argan, suponho indagações
semelhantes para a pobre mãe finada do Paulo Francis.
Lapão, sem o jazz, o rock nem sequer teria bateria. Meu, basta
ouvir In The Mood que você vai encontrar toda a história do rock
and roll. Mas, para não atolarmos em uma discussão estéril, melhor
a reflexão de quem pesquisou o assunto de verdade — não a ladainha
ignorante do Lucio Ribeiro. Observe a absorva o texto do Collier,
raptado de Jazz, A Autêntica Música Americana:
"É muito raro, na história seja do que for, podermos assinalar
um momento exato em que algum grande fenômeno tenha começado.
No caso do rock, no entanto, isso é possível. Foi a criação proposital,
em 1936, de um grupo de Chicago chamado os Harlem Hamfats.(...)
O grupo era um típico exemplo das pequenas orquestras de swing
que tocavam em bares e clubes nos bairros de negros espalhados
por todos os Estados Unidos (...) Os Harlem Hamfats inspiravam-se,
recuando uns poucos anos no tempo, na banda dixieland "evoluída"
do final da década de 1920 e tocaram de um modo que iria ser rotulado
como o "estilo de Chicago": uma pequena orquestra de jazz hot
movido pelo blues, tendo à frente um ou dois trompetes e, freqüentemente,
um vocalista. (...) De longe o mais importante dos seguidores
dos Hamfats foi um grupo dirigido pelo sax-alto Louis Jordan (...)
destacado solista e cantor da banda de Chick Webb de 1936 a 1938
(...) que organizou seu próprio grupo, a que deu o nome de Tympany
Five. O grupo servia-se da receita dos Hamfats, de blues baseado
no jazz (...) Mas a figura-chave foi Bill Haley, que, pelos fins
da década de 1940, andou programando Jordan e outros músicos de
rhythm-and-blues numa pequena estação de rádio em que ele trabalhava.
(...) Milt Grabler, que produziu tanto Jordan quanto Haley, disse:
eles (Haley) tinham um som com a energia dos Tympany Five e
a cor do country and western. Rockabilly era como ficou conhecido
naqueles tempos. (...) Mas não foi só Haley. Chuck Berry declarou
sem rodeios: Identifico-me com Louis Jordan mais do que qualquer
outro artista". Tradução em uma frase: sem jazz, necas de
rock and roll.
Tradição.
Sim, podemos dizer que o Nirvana gravou Leadbelly. Mas, a tradição
a que me referia não era a simples reprodução desta ou daquela
canção — até eu sei que ainda hoje o mundo grava e regrava Beatles
(o que seria um exemplo bem menos repulsivo do que o Nirvana).
Quando escrevi tradição, leia-se o conjunto daquele parágrafo:
tradição+escola+método. Estava falando de algo mais complexo:
a construção de uma filosofia, de um modo próprio de se fazer
e de se pensar música — há uma linguagem, única, do jazz. Uma
linguagem que sobrevive há um século e que eu posso aplicar a
qualquer composição, de Beatles a Bach. Isto o pop não inventou,
até porque o pop não é bem uma novidade, mas uma extensão simplificada
da era do swing.
Metaplasmos.
Sua parábola é bela. Mas, minha vez de dizer que há algo estranho
por aqui. Na verdade, estranho não é bem a palavra — injusto
seria mais correto. Primeiro: a gramática normativa é a voz do
poder. É a voz da parcela privilegiada do dimdim. E, meu, na música,
isto não se traduz em Jazz. Nos idos tempos era diferente, mas
hoje a elite, como bem disse o Colarusso, quer mesmo é a Sula
Miranda cantando na beira da piscina. A elite é pop — não duvido
que ouçam Radio Head — e é natural que seja assim, porque hoje,
o que dá grana é o pop. Em segundo lugar, se montei um modelo
capaz de justificar a inteligência do jazz fora do eurocentrismo
e se o pop não se encaixa neste modelo, Lapão, não foi por birra,
não foi por achar que a canção não é a essência do jazz, mas por
princípios mais nobres. O problema do pop não são só questões
de harmonia, melodia ou ritmo. São questões de produção, de imposição,
de marketing — em uma palavra: indústria. Reconheço que o tema
é complexo, sabemos que a música não se classifica em modelos
estanques — só aí, um grande erro dos frankfurtianos. Em linhas
gerais, é possível, faz bem até, separar a música em três padrões
nítidos, nos moldes de Adorno: popular, pop e erudito. Mas, uma
análise mais cuidadosa diria que estes limites são fluidos e indomesticáveis.
Comecemos com Gershwin. Erudito? Popular? Pop? Tom Jobim — seguramente
um músico da era industrial. O homem adorava fazer tema de novela.
E quem vai ter coragem de dizer que Luiza não era genial? Só Adorno.
E o Hermeto? Um menino de Alagoas, música popular com refinamento
de harmonia erudita. E claro, todos exemplos são de propósito,
só para mais uma vez evidenciar algo importante: sem jazz, outro
Gershwin, outro Jobim e outro Hermeto.
Entendo que, para você, Radio Head é como Jobim: música inserida
na cultura de massas e de altíssimo nível. Talvez você tenha mesmo
razão e realmente seja só um preconceito meu — mas, honestamente,
no Radio Head, ouço claramente a cultura estandardizada pela tecnologia
e aparada nos limites da produção industrial. Algo que, sinceramente,
não vejo em Jobim.
Tecnologia.
Lapão, esta eu não dei de bandeja. Claro que sei que a música
erudita usou e abusou da tecnologia durante o século XX. Sabemos
que foi a música erudita quem inventou toda a parafernália eletrônica.
Mas, se você fosse pensar no música erudita realmente essencial
do século passado, o que sobraria? Na primeira metade, você escolheria
Varèse ou Stravinsky? Eimert (quem?) ou os vienenses? Na segunda
metade, meu, o Boulez que ficou foi o do Martelo sem Mestre, não
o do Répons. O Ligeti que arrepia é o do Lux Aeterna, não o computador
tocando piano. E Stockhausen... Bem, há quem goste. Eletrônica,
no universo erudito de hoje, é sinônimo de música datada. Mas
não sou ingênuo. Não estou afirmando que a tecnologia é um empecilho
para a criatividade — estou só fazendo uma constatação honesta
dos fatos. Não duvido que, no futuro, o Pro Tools traga algo realmente
genial, mas, por enquanto, só ouvi formulinhas bobas de guris
que raramente são músicos. Ainda não encontrei nenhuma música
realmente de babar, seja popular ou erudita, que tenha precisado
de tomadas.
Fast Food.
Metáfora perfeita. Existe a sabedoria popular, aquela que faz
a comida mineira, o barreado, a maravilha da culinária japonesa.
Existe a sabedoria erudita, dos chefs franceses e espanhóis. E
existe a fast food — que é uma excelente diversão, possivelmente
necessária, mas experimente almoçar e jantar todo santo dia um
big mac e fale comigo novamente daqui a um ano. Não dá
para eleger a cultura de massas como centro da nossa existência.
The End.
Guris eruditos? Convenhamos, Caetano, não é essa a música que
precisa ser defendida. Dizem que só existem dois tipos de pessoa:
as que amam Roma e as que odeiam Roma. Você, sempre achei, está
no segundo bloco, aliado meu. A cultura pop já está armada até
os dentes. Esta é uma batalha já ganha, basta olhar o que a mídia
reproduz e o que o Lucio Ribeiro escreve. Eu posso ser um preconceituoso
construtivo (achar que Bach é bom, a priori, é puro preconceito),
mas você, por outro lado, é um dadaísta incorrigível. Classificar
Radio Head como música erudita, mestre Lapão, é tentar abrigar
mais um urinol no museu.
André Tezza Consentino, 27, é publicitário
e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas
do Jazz", da Educativa FM.