Em defesa de Sebastião Salgado
André Tezza Consentino
Patrulha ideológica. Já ouviu falar dela? É quase certo que sim.
Durante o regime militar o cineasta Cacá Diegues cunhou esta feliz
expressão — uma crítica ao maniqueísmo e ao simplismo de uma certa
esquerda brasileira dos anos 60 e 70. Quem viveu nesta época sabe
muito bem. Os artistas com tendência marxista recebiam os aplausos
da crítica. Já aqueles que entendiam que arte não era simplesmente
uma questão política, bem, estes foram relegados ao limbo de uma
boa parcela da intelectualidade do país — eram coibidos pela força
da patrulha ideológica.
É curioso refletir a patrulha ideológica hoje em dia — época
em que o marxismo, como projeto político, está em franca decadência.
Se, durante a ditadura militar, um dramaturgo como Vianinha fazia
a cabeça de todo o mundo, hoje ninguém mais tem dúvidas de que
o grande gênio do teatro brasileiro do século XX foi mesmo Nelson
Rodrigues, um artista muito mais próximo da direita e que jamais
achou que o comunismo fosse algo interessante.
Alguns anos atrás, vi uma palestra de Cacá Diegues, aqui mesmo
em Curitiba, com novas idéias sobre os vigias da cultura. Em tempos
de neoliberalismo, segundo o cineasta, vivemos uma nova patrulha
ideológica — chegou a vez da direita se vingar. Trocamos um autoritarismo
crítico por outro, quase o espelho do anterior. Agora é a vez
do politicamente correto, é a vez do elogio à arte de mercado,
de consumo, bem como, a oportunidade certa de artistas picaretas
que são marketeiros de suas próprias obras (belo artigo, Lapão!).
Neste universo, a obra que está vinculada a questões sociais tem
desprestígio imediato, está fadada a avaliações precipitadas e
limitadas conclusões: datada.
É dentro desta nova patrulha ideológica que venho observando
no Brasil (sim, porque isto é bem típico daqui — desprezar profissionais
tupiniquins de primeiro time que fazem sucesso no exterior — foi
assim com Villa-Lobos, Tom Jobim... é assim com Jorge Amado, Hermeto...)
um poderoso arsenal de críticas ao nosso Tião Salgado. Já ouvi
de tudo. Paulo Francis dizia que Tião era monótono, não tinha
a força de Bresson. Arnaldo Jabor anda dizendo que o mundo já
tem consciência da miséria (duvideodó), não precisamos de mais
um artista inútil — útil seria fotografar o poder, os homens que
de fato contribuem para tornar 4/5 do mundo lamentável. Lucia
Guimarães afirma que Salgado não trouxe nenhuma nova linguagem,
nenhuma novidade. Enfim, alguns dos principais jornalistas do
país, em coro, estão dizendo que o Tião é um fotógrado superestimado.
Então vamos queimá-lo vivo, junto com o Hermeto Pascoal.
Ainda que tenha cá minhas muitas dúvidas se a fotografia pode
ser de fato uma arte de verdade, acho que inúmeros equívocos estão
acontecendo por aqui. O primeiro é que Sebastião Salgado não é
um artista. Quem afirma isto, incansável, é ele mesmo. O Tião
é um fotojornalista, seu compromisso é tão somente ilustrar a
verdade factual e, neste tipo de trabalho, ele é o melhor. Do
mundo. Sem discussão.
Ele não sai por aí para ilustrar a beleza dos momentos simples
do cotidiano, como Bresson, nem para tentar transformar a natureza
em obra de arte, como quer Ansell Adams. Não. Tentar comparar
Salgado com Bresson ou Doisneau é tentar comparar um jornalista
com um escritor. Seus críticos se esquecem que foi o Tião, e mais
nenhum outro fotógrafo do mundo, que clicou o momento exato do
atentado ao ex-presidente norte-americano Ronald Reagan, em 1981,
como contratado pela revista Time. Premiado como fotojornalista
— trabalho que Bresson jamais faria.
A obra de Salgado é essencialmente factual, com textos do próprio
Tião, só que um fotojornalismo muito mais sofisticado do que o
feijão com arroz diário das redações — muito provavelmente porque
o lastro cultural de Salgado, um doutor em economia, dá um baile
em muito jornalista por aí. Aliás, tanto é jornalística sua obra,
que Salgado, durante a produção de Êxodos, assinou contrato com
inúmeros jornais do mundo (no Brasil, foi com a Folha de São Paulo)
para uma publicação prévia das fotos. Ora, quem vai fotografar
uma migração, está interessado em um fato — da mesma forma que
um jornalista, e não um escritor, vai em busca de notícias. Mesmo
quando as fotos de Tião são feias, tremidas — como no atentado
ao Reagan — elas são notórias, porque são o registro de
um fato. Registro único. Registro que encantou José Saramago,
Tim Robbins ou todos os prêmios que você possa imaginar de fotografia.
Em tempos que o jornalismo se esquece que existe um continente
chamado África, o registro de Sebastião Salgado é fundamental.
André Tezza Consentino, 27, é publicitário
e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas
do Jazz", da Educativa FM.