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Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 8/10/2001

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Ainda nos resta o humanismo

O fim da história só interessa à direita

André Tezza Consentino

Em uma de suas últimas entrevistas, o então deputado Aníbal Khury dizia, plenamente satisfeito, que após a queda do muro de Berlim e a derrocada do bloco soviético, não há mais espaço para a oposição esquerda e direita. Era uma voz a mais para engrossar o caldo do polêmico historiador norte-americano Francis Fukuiama - aquele sujeito que nos avisou, alguns anos atrás, que havíamos chegado no fim da história: o capitalismo venceu e a democracia liberal iria eliminar, progressivamente, o comunismo e as ditaduras remanescentes.

Para variar, a história que nos é contada é a dos vencedores. A imagem do comunismo que sobreviveu é simplesmente aquela máquina do terror que acabou beneficiando uma minoria dirigente e implementou um lamentável Estado policial. Tudo isto é verdade. Mas, esta é só uma das verdades possíveis. Também é verdade que o comunismo propiciou uma revolução de educação e saúde sem precedentes para países com enormes distorções de distribuição de capital - até hoje, Cuba, com todos os problemas econômicos, ainda mantém um padrão de desenvolvimento social comparável aos europeus.

O comunismo que encantou a intelectualidade do mundo por quase um século não era a oficialização do terror, evidentemente. É bom lembrar que o projeto de uma sociedade sem conflitos de classes e com uma distribuição justa das riquezas não vem de Marx, mas das entranhas da civilização ocidental, precisamente da filosofia Grega. Era a esperança de um mundo em que os seres humanos deixariam para um segundo plano o individualismo e os valores materiais (e, claro, priorizariam o espírito, a solidariedade e o coletivo) que arrebanhava não os hoje malvados comunistas, mas pessoas de bem - era o sonho de um cristianismo real e sem Cristo. Isto foi apagado da história - talvez esta utopia seja de fato impossível, talvez a essência humana seja incompatível com uma sociedade justa, mas, mesmo que tudo isto seja fato, é bom lembrar o que foi que o triunfo do capitalismo nos trouxe. Porque, capitalistas não são somente os países ricos, mas todo o quinhão da humanidade que passa fome. Se hoje o presidente norte-americano conclama uma guerra do bem X mal, então partimos do princípio que o modelo de civilização que estimula o individualismo, o materialismo e o pragmatismo é a sociedade do bem. Claro, não que o comunismo ou o Taleban sejam a alternativa a isto - mas não há mocinhos nesta guerra.

Com o suposto fim da história, os vencedores querem obscurecer as diferenças entre a esquerda e a direita. Mas, elas ainda existem e são muito nítidas - não mais sob a égide de duas ideologias antagônicas, mas sob a perspectiva do conservadorismo. A direita ainda é a força do poder instituído, ainda é o conforto do progresso, da tecnologia e a depreciação do discurso social. A direita está no poder no Brasil há exatos 501 anos - a observação é de Mino Carta -, mas, da mesma forma que é fascista uma visão que só apreenda o radicalismo da esquerda, também é preciso observar que alguns dos mais brilhantes intelectuais que o Brasil teve e tem são de direita. Se a descrença no discurso social pode ser simplesmente uma atitude de má fé, é bom lembrar que pode ser também uma severa crítica à ingenuidade.

Já a esquerda ainda é a esperança de transformação. A esquerda ainda é a insatisfação, ainda é o desejo de cutucar a ferida do existir. Para a esquerda, esta que sobreviveu na conjuntura atual das pós-utopias, o mundo é um lugar complicado e decadente. Mas, não é esta a visão de esquerda que predomina na indústria cultural - naturalmente de direita, afinal a indústria cultural é a manutenção dos valores instituídos, capitalistas ou não. Qual é a esquerda que está na recente propaganda sobre a venda Copel? Qual é a esquerda que a revista Veja critica ou que aparece no Jornal Nacional? São caricaturas simplistas e maniqueístas - é o discurso do medo, o discurso que entende que a oposição é inculta, perigosa e agressiva, quando sabemos que ainda não existiu no Brasil violência comparável àquela instituída pela direita.

Estas discussões voltam à tona agora que o anti-americanismo brasileiro está em pauta. A reportagem da revista Veja da semana passada nos diz que foram os americanos que salvaram o ocidente da I e da II guerra mundial. Também afirma que o Tio Sam nos salvou do comunismo. E mais: não há, hoje, no mundo, um país mais desenvolvido nas artes e na filosofia. Para a Veja, quem está contra a guerra ao terrorismo, ou é ignorante ou é a favor de Bin Laden. Chave de ouro: quem não gosta dos Estados Unidos é porque tem inveja de seu poder.

Tudo isto me lembra a Veja que adorava o Collor - aquela que estampou em sua capa o então caçador de Marajás. Isto também me lembra a Veja que prioriza assuntos tão importantes quanto as novas formas de operações plásticas ou as revolucionárias dietas alimentares. Isto também me lembra que tenho um amigo que trabalha na Veja e que costuma dizer que a direção da revista esta nas mãos da pior oligarquia paulista. Isto também me lembra que Mino Carta não está mais lá e que temos uma outra revista, agora semanal, muito melhor.

Aliás, foi o Mino Carta quem disse, no último editorial da Carta Capital, que a maioria do povo brasileiro está mais do que certo ao não apoiar a guerra. Ora, guerra contra quem? Qual é o país? Terrorismo é assunto de polícia - um bombardeio ao Afeganistão só vai acirrar ainda mais o fundamentalismo islâmico e, provavelmente, será um fracasso no seu principal propósito. Afirmar que os Estados Unidos estão na liderança das artes e da filosofia chega a soar como piada. É impressionante como um país tão rico é tão pobre em desenvolvimento de espírito. Lembra muito o império romano: um arsenal militar extraordinário, mas, culturalmente, uma cópia barata dos gregos. Curioso é que a cultura americana mais prestigiada e relevante, é justamente aquela que, ou critica duramente o modo de vida do Tio Sam, ou é absolutamente marginalizada: a dramaturgia (Tenesse Williams, Albee, Eugene O'Neill, Arthur Miller), a pintura (todo o action painting), a música (o jazz e Charles Ives) e assim por diante. Francamente, ter inveja dos EUA, só pode ser uma manifestação a favor do militarismo ou do individualismo radical.

Em tempos pós-utópicos, ainda nos resta o humanismo. Ainda nos resta evidenciar que a história está vivinha da silva e ainda é, como sempre foi, absolutamente surpreendente. Que ainda existem bandidos. E que os mocinhos são altamente suspeitos. E que hoje, assim como ontem, ainda é bastante salutar diferenciar a direita e a esquerda.

André Tezza Consentino, 28, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

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