Ainda nos resta o humanismo
O fim da história só interessa à direita
André Tezza Consentino
Em uma de suas últimas entrevistas, o então deputado Aníbal Khury
dizia, plenamente satisfeito, que após a queda do muro de Berlim
e a derrocada do bloco soviético, não há mais espaço para a oposição
esquerda e direita. Era uma voz a mais para engrossar o caldo
do polêmico historiador norte-americano Francis Fukuiama - aquele
sujeito que nos avisou, alguns anos atrás, que havíamos chegado
no fim da história: o capitalismo venceu e a democracia liberal
iria eliminar, progressivamente, o comunismo e as ditaduras remanescentes.
Para variar, a história que nos é contada é a dos vencedores.
A imagem do comunismo que sobreviveu é simplesmente aquela máquina
do terror que acabou beneficiando uma minoria dirigente e implementou
um lamentável Estado policial. Tudo isto é verdade. Mas, esta
é só uma das verdades possíveis. Também é verdade que o comunismo
propiciou uma revolução de educação e saúde sem precedentes para
países com enormes distorções de distribuição de capital - até
hoje, Cuba, com todos os problemas econômicos, ainda mantém um
padrão de desenvolvimento social comparável aos europeus.
O comunismo que encantou a intelectualidade do mundo por quase
um século não era a oficialização do terror, evidentemente. É
bom lembrar que o projeto de uma sociedade sem conflitos de classes
e com uma distribuição justa das riquezas não vem de Marx, mas
das entranhas da civilização ocidental, precisamente da filosofia
Grega. Era a esperança de um mundo em que os seres humanos deixariam
para um segundo plano o individualismo e os valores materiais
(e, claro, priorizariam o espírito, a solidariedade e o coletivo)
que arrebanhava não os hoje malvados comunistas, mas pessoas de
bem - era o sonho de um cristianismo real e sem Cristo. Isto foi
apagado da história - talvez esta utopia seja de fato impossível,
talvez a essência humana seja incompatível com uma sociedade justa,
mas, mesmo que tudo isto seja fato, é bom lembrar o que foi que
o triunfo do capitalismo nos trouxe. Porque, capitalistas não
são somente os países ricos, mas todo o quinhão da humanidade
que passa fome. Se hoje o presidente norte-americano conclama
uma guerra do bem X mal, então partimos do princípio que o modelo
de civilização que estimula o individualismo, o materialismo e
o pragmatismo é a sociedade do bem. Claro, não que o comunismo
ou o Taleban sejam a alternativa a isto - mas não há mocinhos
nesta guerra.
Com o suposto fim da história, os vencedores querem obscurecer
as diferenças entre a esquerda e a direita. Mas, elas ainda existem
e são muito nítidas - não mais sob a égide de duas ideologias
antagônicas, mas sob a perspectiva do conservadorismo. A direita
ainda é a força do poder instituído, ainda é o conforto do progresso,
da tecnologia e a depreciação do discurso social. A direita está
no poder no Brasil há exatos 501 anos - a observação é de Mino
Carta -, mas, da mesma forma que é fascista uma visão que só apreenda
o radicalismo da esquerda, também é preciso observar que alguns
dos mais brilhantes intelectuais que o Brasil teve e tem são de
direita. Se a descrença no discurso social pode ser simplesmente
uma atitude de má fé, é bom lembrar que pode ser também uma severa
crítica à ingenuidade.
Já a esquerda ainda é a esperança de transformação. A esquerda
ainda é a insatisfação, ainda é o desejo de cutucar a ferida do
existir. Para a esquerda, esta que sobreviveu na conjuntura atual
das pós-utopias, o mundo é um lugar complicado e decadente. Mas,
não é esta a visão de esquerda que predomina na indústria cultural
- naturalmente de direita, afinal a indústria cultural é a manutenção
dos valores instituídos, capitalistas ou não. Qual é a esquerda
que está na recente propaganda sobre a venda Copel? Qual é a esquerda
que a revista Veja critica ou que aparece no Jornal Nacional?
São caricaturas simplistas e maniqueístas - é o discurso do medo,
o discurso que entende que a oposição é inculta, perigosa e agressiva,
quando sabemos que ainda não existiu no Brasil violência comparável
àquela instituída pela direita.
Estas discussões voltam à tona agora que o anti-americanismo
brasileiro está em pauta. A reportagem da revista Veja da semana
passada nos diz que foram os americanos que salvaram o ocidente
da I e da II guerra mundial. Também afirma que o Tio Sam nos salvou
do comunismo. E mais: não há, hoje, no mundo, um país mais desenvolvido
nas artes e na filosofia. Para a Veja, quem está contra a guerra
ao terrorismo, ou é ignorante ou é a favor de Bin Laden. Chave
de ouro: quem não gosta dos Estados Unidos é porque tem inveja
de seu poder.
Tudo isto me lembra a Veja que adorava o Collor - aquela que
estampou em sua capa o então caçador de Marajás. Isto também me
lembra a Veja que prioriza assuntos tão importantes quanto as
novas formas de operações plásticas ou as revolucionárias dietas
alimentares. Isto também me lembra que tenho um amigo que trabalha
na Veja e que costuma dizer que a direção da revista esta nas
mãos da pior oligarquia paulista. Isto também me lembra que Mino
Carta não está mais lá e que temos uma outra revista, agora semanal,
muito melhor.
Aliás, foi o Mino Carta quem disse, no último editorial da Carta
Capital, que a maioria do povo brasileiro está mais do que certo
ao não apoiar a guerra. Ora, guerra contra quem? Qual é o país?
Terrorismo é assunto de polícia - um bombardeio ao Afeganistão
só vai acirrar ainda mais o fundamentalismo islâmico e, provavelmente,
será um fracasso no seu principal propósito. Afirmar que os Estados
Unidos estão na liderança das artes e da filosofia chega a soar
como piada. É impressionante como um país tão rico é tão pobre
em desenvolvimento de espírito. Lembra muito o império romano:
um arsenal militar extraordinário, mas, culturalmente, uma cópia
barata dos gregos. Curioso é que a cultura americana mais prestigiada
e relevante, é justamente aquela que, ou critica duramente o modo
de vida do Tio Sam, ou é absolutamente marginalizada: a dramaturgia
(Tenesse Williams, Albee, Eugene O'Neill, Arthur Miller), a pintura
(todo o action painting), a música (o jazz e Charles Ives) e assim
por diante. Francamente, ter inveja dos EUA, só pode ser uma manifestação
a favor do militarismo ou do individualismo radical.
Em tempos pós-utópicos, ainda nos resta o humanismo. Ainda nos
resta evidenciar que a história está vivinha da silva e ainda
é, como sempre foi, absolutamente surpreendente. Que ainda existem
bandidos. E que os mocinhos são altamente suspeitos. E que hoje,
assim como ontem, ainda é bastante salutar diferenciar a direita
e a esquerda.
André Tezza Consentino, 28, é publicitário
e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas
do Jazz", da Educativa FM.