Cadê o Jazz?
Free Jazz pode ser um álbum histórico de 1960, um movimento
de vanguarda ou uma irritante campanha de marketing
André Tezza Consentino
Aviso: nesta semana, o colunista está puto. Texto curto e grosso.
Digamos que o leitor goste de música erudita. Digamos que a Philip
Morris, todos os anos, faça um grande evento de música erudita
no Brasil - o Marlboro Classical Music. Digamos que este evento
seja divulgado com grande destaque na mídia, com direito a capa
de caderno de todos os jornais importantes. Digamos que grandes
agências de propaganda gastem rios de dinheiro no marketing do
evento. Milagre? Terra em transe? Não. É uma grande pegadinha
do Faustão minuciosamente orquestrada. Na hora de subir ao palco,
ao invés de conferirmos a entrada da Filarmônica de Viena ou do
Ensemble Intercontemporain, assistimos à invasão de uma corja
de DJs m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s, grupelhos pops moderninhos que
serão esquecidos no ano que vem, a imundice sonora do punk rock,
algum músico obscuro e chato do Zimbábue ou de Gana, enfim, os
bárbaros, a barbárie da modernidade, os Bin Laden da indústria
cultural. E, pasmem, serão chamados, pela nossa imprensa, de músicos
eruditos, de gente fina, sincera e elegante.
Todos os anos isto acontece. Só que ao invés de música erudita,
escolheram como vítima o pobre jazz. Os caras dizem que é um festival
de jazz. Os caras deram o nome de, ô maldade requintada, Free
Jazz. A logomarca dos caras é um saxofone. No site dos caras,
há um dicionário, de A a Z, com termos legítimos do jazz. Mas,
de jazz, aquela música dos pretos que existe, ou melhor, resiste
há mais de um século, não vem quase ninguém. E quem vem ou é um
músico novo, ainda fazendo o nome (sai mais barato) ou então,
o oposto, um músico velho em decadência (sai ainda mais barato).
Este ano não foi diferente. Vejo com tristeza a lista do povo
que vem tocar em outubro. Só dois nomes razoavelmente importantes
- o baterista Chico Hamilton e o saxofonista Phil Woods. O resto
é marketing. O resto é a aquela gente que vai aos concertos de
chuteiras e gravatas, visual modernérrimo, que diz gostar de jazz
- felizmente, temos o Galhardo, o cartunista dos pescoçudos da
Folha de São Paulo, pra tirar sarro desse povinho enjoado e ignorante.
Agora, o pior de tudo é saber que, nas primeiras edições, o Free
Jazz foi de fato um festival de Jazz. Um evento que trazia músicos
de verdade, como Chet Baker, Sonny Rollins, Dizzy Gillespie e
Wynton Marsalis. E o que aconteceu? Segundo a organização, a maioria
dos festivais de jazz do mundo teve que apelar para o pop para
sobreviver. Isto não é verdade - até mesmo no Brasil existe um
excelente evento de jazz, o Chivas, só que, evidentemente, a mídia
não deu a menor bola - a música não era suficientemente ruim para
os jornais se interessarem.
Aliás, nisto vou continuar descendo a lenha sempre. Salvo algumas
exceções, que sinceramente acho que tenho dedos suficientes para
contar, jornalistas não conhecem nada de música além dos limites
do pop. Até a Bravo, uma revista que costumo ver com certa simpatia
(até porque foi a única publicação do país que corajosamente colocou
em suas capas gente como Antônio Meneses, Cláudio Abbado, Luciano
Berio ou, a última, Miles Davis) já cometeu erros absurdos. Na
matéria sobre o Free Jazz do ano passado, a jornalista Regina
Porto, em uma demonstração memorável de alucinação, afirmou que
o movimento Free é esta mistura atual de Rap, Hip Hop e Eletrônico...
Não saber o que foi o Free Jazz tudo bem - ninguém tem a obrigação
de ser um especialista em jazz. Agora, inventar definições com
total desconhecimento de causa, em uma revista com o tamanho e
o preço da Bravo, é simplesmente imperdoável. Meu, Free Jazz foi
um álbum de 1960, idéia de um saxofonista, o polêmico Ornette
Coleman. Neste LP, cuja capa era uma pintura de Jackson Pollock,
dois quartetos de jazz gravaram, simultaneamente, uma improvisação
coletiva de 37 minutos. A música não tinha uma forma previamente
definida e a harmonia, dependendo do solista, freqüentemente era
atonal. O álbum foi tão influente que acabou inaugurando uma nova
corrente do jazz, o Free, que tinha como principais nomes, além
do próprio Coleman, Cecil Taylor, Albert Ayler e o último John
Coltrane. É uma música raivosa (muitas vezes engajada na luta
contra a discriminação racial), difícil, cerebral e vanguardista
- ou seja, absolutamente o oposto do atual Free Jazz Festival.
Mas, não foi só a jornalista da Bravo que disse besteira. Os absurdos
pipocam por todos os lados. No site do evento deste ano, há um
texto magnífico que consegue provar a existência de inúmeras semelhanças
entre o jazz e a música (sic) eletrônica - o oportunismo dos caras
é algo realmente assustador.
Chega, chega, chega. Me recuso a continuar. Troquem o nome desta
josta de festival. Voltem de onde vocês vieram. Deixem as pessoas
que gostam de música em paz. Já fomos suficientemente derrotados.
O mundo é mesmo um lugar inóspito.
André Tezza Consentino, 28, é publicitário
e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas
do Jazz", da Educativa FM.