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Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 1/10/2001

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Cadê o Jazz?

Free Jazz pode ser um álbum histórico de 1960, um movimento de vanguarda ou uma irritante campanha de marketing

André Tezza Consentino

Aviso: nesta semana, o colunista está puto. Texto curto e grosso.

Digamos que o leitor goste de música erudita. Digamos que a Philip Morris, todos os anos, faça um grande evento de música erudita no Brasil - o Marlboro Classical Music. Digamos que este evento seja divulgado com grande destaque na mídia, com direito a capa de caderno de todos os jornais importantes. Digamos que grandes agências de propaganda gastem rios de dinheiro no marketing do evento. Milagre? Terra em transe? Não. É uma grande pegadinha do Faustão minuciosamente orquestrada. Na hora de subir ao palco, ao invés de conferirmos a entrada da Filarmônica de Viena ou do Ensemble Intercontemporain, assistimos à invasão de uma corja de DJs m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s, grupelhos pops moderninhos que serão esquecidos no ano que vem, a imundice sonora do punk rock, algum músico obscuro e chato do Zimbábue ou de Gana, enfim, os bárbaros, a barbárie da modernidade, os Bin Laden da indústria cultural. E, pasmem, serão chamados, pela nossa imprensa, de músicos eruditos, de gente fina, sincera e elegante.

Todos os anos isto acontece. Só que ao invés de música erudita, escolheram como vítima o pobre jazz. Os caras dizem que é um festival de jazz. Os caras deram o nome de, ô maldade requintada, Free Jazz. A logomarca dos caras é um saxofone. No site dos caras, há um dicionário, de A a Z, com termos legítimos do jazz. Mas, de jazz, aquela música dos pretos que existe, ou melhor, resiste há mais de um século, não vem quase ninguém. E quem vem ou é um músico novo, ainda fazendo o nome (sai mais barato) ou então, o oposto, um músico velho em decadência (sai ainda mais barato).

Este ano não foi diferente. Vejo com tristeza a lista do povo que vem tocar em outubro. Só dois nomes razoavelmente importantes - o baterista Chico Hamilton e o saxofonista Phil Woods. O resto é marketing. O resto é a aquela gente que vai aos concertos de chuteiras e gravatas, visual modernérrimo, que diz gostar de jazz - felizmente, temos o Galhardo, o cartunista dos pescoçudos da Folha de São Paulo, pra tirar sarro desse povinho enjoado e ignorante. Agora, o pior de tudo é saber que, nas primeiras edições, o Free Jazz foi de fato um festival de Jazz. Um evento que trazia músicos de verdade, como Chet Baker, Sonny Rollins, Dizzy Gillespie e Wynton Marsalis. E o que aconteceu? Segundo a organização, a maioria dos festivais de jazz do mundo teve que apelar para o pop para sobreviver. Isto não é verdade - até mesmo no Brasil existe um excelente evento de jazz, o Chivas, só que, evidentemente, a mídia não deu a menor bola - a música não era suficientemente ruim para os jornais se interessarem.

Aliás, nisto vou continuar descendo a lenha sempre. Salvo algumas exceções, que sinceramente acho que tenho dedos suficientes para contar, jornalistas não conhecem nada de música além dos limites do pop. Até a Bravo, uma revista que costumo ver com certa simpatia (até porque foi a única publicação do país que corajosamente colocou em suas capas gente como Antônio Meneses, Cláudio Abbado, Luciano Berio ou, a última, Miles Davis) já cometeu erros absurdos. Na matéria sobre o Free Jazz do ano passado, a jornalista Regina Porto, em uma demonstração memorável de alucinação, afirmou que o movimento Free é esta mistura atual de Rap, Hip Hop e Eletrônico... Não saber o que foi o Free Jazz tudo bem - ninguém tem a obrigação de ser um especialista em jazz. Agora, inventar definições com total desconhecimento de causa, em uma revista com o tamanho e o preço da Bravo, é simplesmente imperdoável. Meu, Free Jazz foi um álbum de 1960, idéia de um saxofonista, o polêmico Ornette Coleman. Neste LP, cuja capa era uma pintura de Jackson Pollock, dois quartetos de jazz gravaram, simultaneamente, uma improvisação coletiva de 37 minutos. A música não tinha uma forma previamente definida e a harmonia, dependendo do solista, freqüentemente era atonal. O álbum foi tão influente que acabou inaugurando uma nova corrente do jazz, o Free, que tinha como principais nomes, além do próprio Coleman, Cecil Taylor, Albert Ayler e o último John Coltrane. É uma música raivosa (muitas vezes engajada na luta contra a discriminação racial), difícil, cerebral e vanguardista - ou seja, absolutamente o oposto do atual Free Jazz Festival. Mas, não foi só a jornalista da Bravo que disse besteira. Os absurdos pipocam por todos os lados. No site do evento deste ano, há um texto magnífico que consegue provar a existência de inúmeras semelhanças entre o jazz e a música (sic) eletrônica - o oportunismo dos caras é algo realmente assustador.

Chega, chega, chega. Me recuso a continuar. Troquem o nome desta josta de festival. Voltem de onde vocês vieram. Deixem as pessoas que gostam de música em paz. Já fomos suficientemente derrotados.

O mundo é mesmo um lugar inóspito.

André Tezza Consentino, 28, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

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