Slow food
Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 17/09/2001

Home Resenhas Links Sobre E-mail

Artigos anteriores

A decadência do passado

A decadência do silêncio

A propaganda da Benneton

Desmistificando o Oriente

Em defesa de Sebastião Salgado

Lerner estava certo

Cadenza

A polêmica do Radiohead

Leia o artigo original do Lapão

Leia a resposta do André

Leia o terceiro artigo da série

11 Impressões de 11 de setembro

André Tezza Consentino

1. Mal Estar.
Confesso que não deu vontade de escrever nada. Só ficar quieto e descrente do mundo. Bastaria a depressão.

2. Justificativa
Não há relativismo cultural, simpatia pela causa Palestina, antipatia pelos norte-americanos, guerra ideológica ou combate de civilizações que justifique o que aconteceu nos Estados Unidos no último dia 11 de setembro. Tampouco uma vingança à brutalidade gringa justificaria um ato terrorista desta magnitude - é sempre bom lembrar que só em Hiroshima e Nagasaki, estima-se a morte de cerca de 100.000 civis. Uma estupidez que, na época, com a segunda guerra já finda na Europa e com o Japão praticamente de joelhos, serviu exclusivamente como vitrine norte-americana para demonstrar o domínio e a eficácia da bomba nuclear. Era, hoje sabemos, o começo da Guerra Fria.

Claro, também não há patriotismo, orgulho ferido, busca pela justiça, ação exemplar que justifique uma retaliação militar norte-americana a uma nação inteira. Simplesmente porque nenhuma nação assumiu o atentado ou declarou guerra. Um ataque ao Afeganistão, que parece iminente, é um ato covarde. Pior do que isto: é um ato ignorante. O lingüista Noam Chomsky, professor do MIT e um dos mais famosos intelectuais norte-americanos, afirmou para um jornal mexicano (a notícia saiu no IG) que uma declaração de guerra dos Estados Unidos a qualquer país islâmico significaria incitar a fabricação de mártires - tudo o que Osama Bin Laden sempre sonhou.

3. Inútil
O que se pode fazer contra um terrorista subordinado a uma fé religiosa? O que se pode fazer contra alguém que, sob o capote, esconde uma muca de bombas e anseia uma surpresa suicida em um Shopping Center? Não há como se defender do irracional.

Quanto mais violentos forem os ataques norte-americanos, mais ódio, ira e desejo de vingança virá em troca. O fundamentalismo, uma minoria radical, funciona na base do olho por olho, dente por dente. Hoje, esta minoria é ainda insignificante perto do islamismo como um todo - a segunda religião monoteísta do mundo - em geral pacífico, inofensivo e conciliador. Mas, o futuro é incerto.

4. Útil
As únicas medidas que seriam realmente eficazes contra o terrorismo de gente da laia de Osama Bin Laden passam longe das pretensões de gente da laia de George Bush: promover o desenvolvimento do Oriente Médio e buscar um acordo de paz entre e Israel e a Palestina.

5. Liberdade e Orwell
Além das prováveis retaliações militares, virão as prováveis retaliações aos civis. Entrar em um avião, daqui pra frente, pode virar um exercício militar. Um Estado policial está por vir. Não duvido que, nos Estados Unidos, todos serão suspeitos à ordem do Estado, imigrantes ou não. Transformar o mundo em um definitivo 1984, de Orwell, não seria justamente igualar-se ao fundamentalismo islâmico? Não seria instalar um regime de terror semelhante ao das ditaduras? E, o mais importante, funcionaria contra suicidas? Pior. A ladainha que todos estão ouvindo: os Estados Unidos sempre foram o país da liberdade e, agora, deverão rever os direitos individuais do cidadão. Equívoco, como não. Ao contrário do que a imprensa anda afirmando, sinceramente, é deveras difícil concordar que os Estados Unidos são ou foram o país símbolo da liberdade. Não só por causa dos violentíssimos conflitos raciais que ainda assolam os gringos - basta ver um filme do Spike Lee - mas, sobretudo, pela lógica perversa do capital: sem din-din, é bastante complicado fazer qualquer atividade nos Estados Unidos, inclusive ter acesso a um ensino decente. Para mim, países democráticos que dão ampla cobertura a questões tão fundamentais como saúde, leis trabalhistas, previdência e educação, exatamente aquilo que acontece nos países escandinavos ou o Canadá (não por acaso, sempre na frente dos Estados Unidos em qualidade de vida, segundo o ranking da ONU), comportam cidadãos mais livres. E bem mais sofisticados também.

6. O Mal
Além do cerceamento às liberdades individuais, os jornais e, claro, os próprios norte-americanos estão afirmando que estamos na iminência de uma guerra do bem contra o mal. Pergunta: o mal existe? O que é o mal? Para mim, vale uma perspectiva biológica. Há fortes indícios de que temos um instinto de preservação da espécie humana - um instinto inequívoco e poderoso de reprodução. O prazer do sexo, o desejo carnal e as paixões avassaladoras que o digam. Ameaçar a espécie humana, para mim, é biologicamente imoral.

7. Outra guerra
Mas, há outras imoralidades. Os principais portais de Internet do mundo, no dia 11, entraram em colapso. O número de acessos foi recorde. E a guerra de audiência foi igualmente inédita. Neste mundinho mesquinho, chega a ser revoltante a mensagem que Nizan Guanaes, publicitário, manda-chuva do Internet Grátis, deixou para seus internautas: o IG é o campeão.

Campeão porque, devido a uma suposta tecnologia superior (não divulgada), não entrou em colapso durante os atentados. Ora, em primeiro lugar, o IG só não entrou em colapso porque obviamente não teve o mesmo número de acessos que o UOL ou a CNN. Em segundo lugar, existe alguma coisa para se festejar? Alguém teria coragem de festejar algum ganho de campeonato? O IG teve. E a Gazeta também, é bom lembrar da propaganda triunfal da edição extra.

8. Imprensa
Há um dado realmente positivo, pelo menos do ponto de vista jornalístico, observável depois dos atentados da semana passada: a busca pela história, pelo passado, pela informação mais sólida. O motivo é simples - o jornalismo tradicional fracassaria. Não dá pra simplesmente escrever o feijão com arroz: "Aconteceu, nesta terça-feira, o maior atentado da história dos Estados Unidos...". É preciso algo além do aqui e agora, porque um ataque com esta magnitude tem causas mais profundas e mais antigas. É preciso uma informação mais consistente. E mais convincente.

Honestamente, nunca vi tantos professores de história dando tantas entrevistas para os meios de comunicação brasileiros. Da CBN à Folha de São Paulo, do No aos Jornais Globais, estavam lá alguns profissionais que a maior parte do povo brasileiro nem sabia que existia. Pessoas que são mais úteis e esclarecedoras do que quase todos (se não todos) os acéfalos que a mídia privilegia.

E é bom que historiadores estejam ali para arejar verdades duras. A começar pela ascensão de Osama Bin Laden. Patrocínio: Estados Unidos. Também é bom ouvir, de gente decente, a confirmação de que a Guerra Santa não é uma invenção islâmica do século XX, mas um artifício utilizado pela própria Igreja Católica durante as cruzadas. Matar em nome de Deus ou Alá não é bem uma novidade. E, lógico, o que parece mais importante no momento: islâmico é diferente de radical, diferente de árabe, diferente de fundamentalismo. Qualquer afirmação em contrário é preconceituosa, ignorante e intolerante.

Como já afirmei por aqui, o passado liberta.

9. História
A maior parte da mídia, tarefa de casa, foi atrás da história do Afeganistão - mesmo que ainda não existam provas concretas de que Osama Bin Laden seja de fato o idealizador dos atentados. Para mim, a história do Afeganistão é circunstancial. Mais importante, e muito menos explorada pelo noticiário da semana, são as origens do fundamentalismo islâmico. Bem, aqui está a minha tarefa de casa particular.

Não faz tanto tempo assim. Foi em 1979, com a derrubada do Xá do Irã, Reza Pahlavi e a ascensão do aiatolá Ruholá Khomeini. Segundo o historiador Eric Hobsbawn (devo confessar: o velhinho é meu ídolo), a revolução foi a maior da década de 70 e uma das grandes transformações sociais de todo o século XX. Foi mais do que isto, mas fiquemos com a voz de Hobsbawn: "quase todos os fenômenos reconhecidos como revolucionários até aquela data tinham seguido a tradição, a ideologia e, em geral, o vocabulário da revolução ocidental desde 1789; mais precisamente: de algum tipo de esquerda secular, sobretudo socialista ou comunista. A esquerda tradicional esteve de fato presente e ativa no Irã, e sua parte na derrubada do xá, por exemplo, com as greves operárias, longe esteve de ser insignificante. Contudo, foi quase imediatamente eliminada pelo novo regime. A Revolução Iraniana foi a primeira feita e ganha sob uma bandeira de fundamentalismo religioso, e a substituir o velho regime por uma teocracia populista, cujo programa professo era um retorno ao século VII d.C., ou antes, já que estamos num ambiente islâmico, à situação após a Hégira, quando se escreveu o Corão".

Dois detalhes ainda bastante pertinentes. O primeiro é que o Irã sofreu a revolução de Khomeini justamente na época em que promovia uma modernização sem precedentes. Tanto do lado industrial (mal administrada, e que acabou levando para o êxodo rural, o desemprego e a inflação) quanto do lado cultural (melhoria das condições das mulheres, alfabetização em massa, desenvolvimento de uma classe estudantil, operária e intelectual). Em ambos os casos, a modernização fortaleceu o fundamentalismo, arraigado em tradições culturais e industriais contrárias às do xá.

O segundo detalhe é que, após a morte de Khomeini, em 1989, o Irã foi gradualmente se afastando do fundamentalismo. Hoje em dia, o país é muito mais tranqüilo do que o Afeganistão ou o Paquistão e caminha novamente para o desenvolvimento cultural. Mulheres já podem jogar futebol no Irã. Parece pouco, mas é bastante.

Ainda assim, foi lá que a idéia de uma teocracia islâmica contemporânea nasceu - e se espalhou por todo o Oriente Médio.

10. Nostradamus
Mais histórias. Digo, estória. Deu na CBN. Em Curitiba, houve filas em várias locadoras. Nossos compatrícios procuravam por Independece Day, Nova Iorque Sitiada e... As Profecias de Nostradamus.

A fé em Nostradamus é algo realmente impressionante, para não dizer assustador. Desde 1999, já foram três centúrias que falharam - três profecias de fim de mundo que não se realizaram. No início, veio o primeiro fim do mundo, que levou muita gente ao suicídio, no grande eclipse total do sol, em 1999. Possivelmente, desde os tempos anteriores à era cristã, o mundo não ficava tão aterrorizado com um fenômeno astronômico tão simples. Depois, claro, a virada do ano 2000, o segundo fim do mundo. Não tivemos o Bug do milênio, os mísseis soviéticos não foram lançados acidentalmente, nenhum asteróide caiu na terra. Nada aconteceu, absolutamente nada. Será que agora, depois do ataque aos EUA, a vaca vai pro Brejo? Risível foi ler no IG o que astrólogos profissionais (sic) advertiram: estão abusando de Nostradamus! Estão distorcendo profecias e alterando datas para que o Nostradamus tenha razão!

Não bastasse o fato de sequer haver evidências de que Nostradamus realmente existiu, não bastasse o fato de que as tais centúrias são obscuras, ambíguas e dão margem a todo o tipo de leitura (a ponto de três datas de fim de mundo diferentes terem aparecido em apenas três anos), ainda há quem acredite no homem.

Quando o mundo na terra acabar, seja agora, por intermédio de uma improvável guerra nuclear, seja daqui a alguns milhões de anos, quando o sol, inevitável, esfriar, tenha certeza de que vai ter algum místico de plantão para dizer que Nostradamus estava certo.

Neste ponto sou duríssimo. O misticismo barato não é inofensivo. O misticismo que leva pessoas ao suicídio não é algo bacaninha. E o mais grave: o substrato deste misticismo é o mesmo do fundamentalismo islâmico: a negação da razão.

11. O sono da razão
"Refletir sobre essas complexas relações entre leitor e história, ficção e vida, pode constituir uma forma de terapia contra o sono da razão que gera monstros".

A frase é de Umberto Eco. Está em um belíssimo ensaio humanista, o sexto passeio do livro Seis Passeios pelo Bosque da Ficção. Em resumo, neste texto Umberto Eco revela como uma série de equívocos de interpretação de textos originalmente ficcionais transformou-se em um pesadelo justamente porque foram entendidos como reais. O conteúdo? Uma cronologia complexa e labiríntica, mas que, na essência, aponta para uma suposta infiltração judaica em várias organizações secretas com o objetivo de dominação de mundo. Estes textos chegaram nas mãos de Hitler. E foram entendidos como reais. Como diz Eco, o resto trágico da história todos nós sabemos. É um relato espantoso, surpreendente e fundamental.

Mas, o sexto passeio não trata somente das relações assombrosas entre ficção e realidade. Mas, também, daquilo que a ficção, em especial a literatura, tem de mais belo quando contrastada com a realidade. Mais uma palhinha: "é fácil entender porque a ficção nos fascina tanto. Ela nos proporciona a oportunidade de utilizar infinitamente nossas faculdades para perceber o mundo e reconstituir o passado. A ficção tem a mesma função dos jogos. Brincando as crianças aprendem a viver, porque simulam situações em que poderão se encontrar como adultos. E é por meio da ficção que nós, adultos, exercitamos nossa capacidade de estruturar nossa experiência passada e presente". Pode-se acusar Eco, talvez, de uma visão reducionista da literatura. Mas, ainda que não seja a única, este é um modelo plausível de se embriagar com a literatura. E, fundamental, é um modelo lírico. Este é o Umberto Eco que realmente gosto. Um homem engajado na luta humanista. Para ele, não podemos ser tolerantes com a intolerância, porque a segunda excluiu, necessariamente, a primeira. Quando afirma que a reflexão sobre a literatura pode ser uma forma eficaz contra o sono da razão, penso naqueles que até agora parecem ser os dois grandes protagonistas da história de terror que estamos vivendo. Tanto George Bush quanto Osama Bin Laden são homens iletrados. Toscos. Caipiras de seu tempo e espaço.

Claro, não à ingenuidade. A arte não salva os homens da insanidade - muitas vezes, aliás, é o caminho mais curto para a morte. Mas... A arte é o bem mais precioso que nós inventamos. O melhor da essência humana. Como disse Diogo Mainardi, em um breve ensaio na Veja, ler livros deixa os homens mais enfraquecidos, mais covardes e mais sensíveis. Talvez seja precisamente isto que falte aos nossos protagonistas.

André Tezza Consentino, 28, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1