Slow food
Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 27/08/2001

Home Resenhas Links Sobre E-mail

Artigos anteriores

A propaganda da Benneton

Desmistificando o Oriente

Em defesa de Sebastião Salgado

Lerner estava certo

Cadenza

A polêmica do Radiohead

Leia o artigo original do Lapão

Leia a resposta do André

Leia o terceiro artigo da série

 

A decadência do silêncio

André Tezza Consentino

Atenção. Este é um comentário breve, pessoal e intransferível.

Incrédulo, ia eu no banco de trás. "Aumenta aí". Na frente, no banco do passageiro, o editor deste site. Dia frio, domingo lindo, nenhuma nuvem no céu. Pilotando o bólido, o senhor Christiaan. O Rogerio, sorriso nos lábios, enfático, pronto para a guerra: "Aumenta aí, homem". Avançávamos, trânsito trôpego, na Avenida Batel de 1995. E as pessoas nos olhavam. Desconforto. Testa franzida. Não tanto pelo volume, que perdia feio para a artilharia certeira de imensos porta-malas abertos. Mas... Como não, a música alienígena que desfrutávamos estava incomodando. E muito. Não era reggae. Nem sertanejo. Nem pagode. Nem axé music. E o Christiaan obedeceu.

Hoje, lembro-me deste episódio com uma pontinha de sentimento de culpa. É como rebaixar-se ao irracional, render-se à barbárie - naquele domingo, éramos os próprios escrotinhos do Angeli. Tentem imaginar a cena: rodando em marcha lenta na Batel, o editor deste site, olhos semi cerrados, boca aberta, gozando a plenitude dos prazeres mundanos. Quem, além dele, poderia planejar tamanho incêndio? Tudo bem, na Batel valia a lei do tumulto - o silêncio era proibido. Mas, havia certas leis - certamente ouvir A Criação (um tonitruante oratório do século XVIII, de Franz Haydn), no último volume, não fazia parte delas. O cara, nosso amado editor, já era iconoclasta quando criancinha.

Mesma história, outro episódio. Virada do ano 2001. Virada de século. Eu já havia prometido pra mim mesmo que nunca mais desceria pra praia em temporada. Mas, sabem como é. Família. Antes a família, caso único, do que a solidão. Praia em temporada é a combinação de calor, música ruim e trânsito bêbado - a descrição exata, sem tirar nem pôr, do inferno. Para alguns transtornos conhecidos, a gente sabe se preparar. Afinal, com certas técnicas do zen-budismo, é possível suportar, sem grande males para o cérebro, mais porta-malas abertos, rojões diários do vizinho e toda a programação musical do Domingo Legal tocando dia e noite. Ininterrupto. Isto seria previsível, mas, Deus, a tigrada sabe se superar - tenho que reconhecer. É preciso um certo talento, uma certa criatividade nata, para alçar novas fronteiras. Quem poderia imaginar meninas country, com franjas balangantes nas mangas, botas de cano alto, cintos reluzentes, chapéus de cowboy, tudo isto à noite, na praia, aos gritinhos, tomando passes na cerimônia de Iemanjá? Quem poderia imaginar que o vizinho, um religioso, também levaria o CD do Padre Marcelo Rossi, pra te acordar bem cedinho?

O silêncio é uma virtude em decadência. As pessoas não o suportam mais. Reparem como a música (música?) tornou-se a mais popular das artes. Basta entrar em um supermercado, um elevador ou mesmo ligar a TV - a música vai estar lá. De fundo. Às vezes inofensiva. Na maioria das vezes não. Isto não acontece com as outras artes. Não é toda hora que lemos um livro, entramos em um museu, vamos ao cinema, assistimos a um espetáculo de teatro ou dança. Mas, com a música é diferente - diabólico. Para mim, há um certo paradoxismo nisto - porque ainda que a música seja a mais ubíqua das artes, ela também é a mais incompreendida.

O maestro alemão Nikolaus Harnoncourt, em seu livro célebre O Discurso dos Sons, tem uma teoria interessante sobre o caso: nós desvalorizamos a arte da música. Com a propagação das rádios e da indústria fonográfica, o que antes do século XX era encantamento, raro, único, hoje tornou-se corriqueiro, papel de parede, banalidade. Antes da era industrial, o silêncio, a pausa da semibreve, era muito mais presente no dia-a-dia do cidadão comum. E, por conseqüência natural, dava-se muito mais atenção à audição. Imaginem que no início da tradição da música ocidental, na baixa Idade Média, só uma pequena parcela do clero medieval sabia o que era uma composição, uma partitura, um discurso musical mais sofisticado. Durante os séculos seguintes, quando houve uma inegável popularização da música, a audição ainda era um fenômeno rarefeito e incomum - por isto mesmo, prestigiado. Sobre este assunto, o grande maestro Osvaldo Colarusso costuma contar um causo bastante curioso sobre Mozart. A história é simples, mas ilustra muito bem as diferenças entre o ouvinte contemporâneo e o ouvinte do século XVIII: ao fazer um experimento surpreendente em uma composição, Mozart relatou, em uma carta para seu pai, que a platéia, no momento de execução da inovação, aplaudiu. Hoje, seria isto possível? A platéia, em um concerto de música, reconhecer que o compositor está trazendo novos horizontes na estética musical de seu tempo? Certamente que não. Nós somos ouvintes muito diferentes. Para Harnoncourt, a música deixou de fazer parte do centro da vida do homem ocidental. No momento em que ela tornou-se onipresente, só a aceitamos como experiência do conforto, isto é, a decoração - algo que nos sirva como alternativa ao tédio.

A teoria de Harnoncourt talvez explique a baixa qualidade da música dos porta-malas ou do Domingo Legal. É um fenômeno complexo, que no Brasil também envolve o despreparo da nossa imprensa, bem como a triste situação do nosso sistema de ensino. Uma evidência incontestável: no Brasil, dois dos poucos momentos em que se estuda arte nas disciplinas de História do ensino médio são o Renascimento e a Semana de Arte Moderna de 1922. Curiosamente, em ambos os casos, a música correspondente é riquíssima - mas, não por acaso, solenemente ignorada em qualquer colégio brasileiro.

Além de Harnoncourt, outro músico bastante preocupado com a valorização do silêncio, foi o norte-americano John Cage. Em 1952, Cage compôs a escandalosa 4'33". É uma peça, bem, em que os músicos ficam quietinhos, sem fazer absolutamente nada, durante 4 minutos 33 segundos. Há as mais diversas leituras desta obra - comparações com a página em branco de Mallarmé, ou o quadrado branco sobre fundo branco de Malévitch e, ainda, a arte dadaísta - mas, o melhor mesmo é saber das intenções do próprio Cage: ouvir o silêncio, os sons naturais da platéia, do ambiente. Claro, isto é mais uma atitude, uma provocação, do que arte propriamente dita. Mas a provocação é importantíssima.

O silêncio também é importante, para mim. Tão importante quanto à música. Por isto, fico em Curitiba - o paraíso indizível - durante o carnaval. Por isto, não vou ao Café do Teatro. Por isto, não acho que silêncios constrangedores são de fato constrangedores - a vida industrial e tecnológica já é suficientemente ruidosa e impaciente. Por isto, como o Lapão, acho bacana os documentários sobre o pulgão, super silenciosos, da National Geographic. Por isto, o nome desta coluna é slow food. Por isto, bem, fim. Ssshhh!!!

André Tezza Consentino, 27, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1