A decadência do silêncio
André Tezza Consentino
Atenção. Este é um comentário breve, pessoal e intransferível.
Incrédulo, ia eu no banco de trás. "Aumenta aí". Na frente, no
banco do passageiro, o editor deste site. Dia frio, domingo lindo,
nenhuma nuvem no céu. Pilotando o bólido, o senhor Christiaan.
O Rogerio, sorriso nos lábios, enfático, pronto para a guerra:
"Aumenta aí, homem". Avançávamos, trânsito trôpego, na Avenida
Batel de 1995. E as pessoas nos olhavam. Desconforto. Testa franzida.
Não tanto pelo volume, que perdia feio para a artilharia certeira
de imensos porta-malas abertos. Mas... Como não, a música alienígena
que desfrutávamos estava incomodando. E muito. Não era reggae.
Nem sertanejo. Nem pagode. Nem axé music. E o Christiaan obedeceu.
Hoje, lembro-me deste episódio com uma pontinha de sentimento
de culpa. É como rebaixar-se ao irracional, render-se à barbárie
- naquele domingo, éramos os próprios escrotinhos do Angeli. Tentem
imaginar a cena: rodando em marcha lenta na Batel, o editor deste
site, olhos semi cerrados, boca aberta, gozando a plenitude dos
prazeres mundanos. Quem, além dele, poderia planejar tamanho incêndio?
Tudo bem, na Batel valia a lei do tumulto - o silêncio era proibido.
Mas, havia certas leis - certamente ouvir A Criação (um tonitruante
oratório do século XVIII, de Franz Haydn), no último volume, não
fazia parte delas. O cara, nosso amado editor, já era iconoclasta
quando criancinha.
Mesma história, outro episódio. Virada do ano 2001. Virada de
século. Eu já havia prometido pra mim mesmo que nunca mais desceria
pra praia em temporada. Mas, sabem como é. Família. Antes a família,
caso único, do que a solidão. Praia em temporada é a combinação
de calor, música ruim e trânsito bêbado - a descrição exata, sem
tirar nem pôr, do inferno. Para alguns transtornos conhecidos,
a gente sabe se preparar. Afinal, com certas técnicas do zen-budismo,
é possível suportar, sem grande males para o cérebro, mais porta-malas
abertos, rojões diários do vizinho e toda a programação musical
do Domingo Legal tocando dia e noite. Ininterrupto. Isto seria
previsível, mas, Deus, a tigrada sabe se superar - tenho que reconhecer.
É preciso um certo talento, uma certa criatividade nata, para
alçar novas fronteiras. Quem poderia imaginar meninas country,
com franjas balangantes nas mangas, botas de cano alto, cintos
reluzentes, chapéus de cowboy, tudo isto à noite, na praia, aos
gritinhos, tomando passes na cerimônia de Iemanjá? Quem poderia
imaginar que o vizinho, um religioso, também levaria o CD do Padre
Marcelo Rossi, pra te acordar bem cedinho?
O silêncio é uma virtude em decadência. As pessoas não o suportam
mais. Reparem como a música (música?) tornou-se a mais popular
das artes. Basta entrar em um supermercado, um elevador ou mesmo
ligar a TV - a música vai estar lá. De fundo. Às vezes inofensiva.
Na maioria das vezes não. Isto não acontece com as outras artes.
Não é toda hora que lemos um livro, entramos em um museu, vamos
ao cinema, assistimos a um espetáculo de teatro ou dança. Mas,
com a música é diferente - diabólico. Para mim, há um certo paradoxismo
nisto - porque ainda que a música seja a mais ubíqua das artes,
ela também é a mais incompreendida.
O maestro alemão Nikolaus Harnoncourt, em seu livro célebre O
Discurso dos Sons, tem uma teoria interessante sobre o caso: nós
desvalorizamos a arte da música. Com a propagação das rádios e
da indústria fonográfica, o que antes do século XX era encantamento,
raro, único, hoje tornou-se corriqueiro, papel de parede, banalidade.
Antes da era industrial, o silêncio, a pausa da semibreve, era
muito mais presente no dia-a-dia do cidadão comum. E, por conseqüência
natural, dava-se muito mais atenção à audição. Imaginem que no
início da tradição da música ocidental, na baixa Idade Média,
só uma pequena parcela do clero medieval sabia o que era uma composição,
uma partitura, um discurso musical mais sofisticado. Durante os
séculos seguintes, quando houve uma inegável popularização da
música, a audição ainda era um fenômeno rarefeito e incomum -
por isto mesmo, prestigiado. Sobre este assunto, o grande maestro
Osvaldo Colarusso costuma contar um causo bastante curioso sobre
Mozart. A história é simples, mas ilustra muito bem as diferenças
entre o ouvinte contemporâneo e o ouvinte do século XVIII: ao
fazer um experimento surpreendente em uma composição, Mozart relatou,
em uma carta para seu pai, que a platéia, no momento de execução
da inovação, aplaudiu. Hoje, seria isto possível? A platéia, em
um concerto de música, reconhecer que o compositor está trazendo
novos horizontes na estética musical de seu tempo? Certamente
que não. Nós somos ouvintes muito diferentes. Para Harnoncourt,
a música deixou de fazer parte do centro da vida do homem ocidental.
No momento em que ela tornou-se onipresente, só a aceitamos como
experiência do conforto, isto é, a decoração - algo que nos sirva
como alternativa ao tédio.
A teoria de Harnoncourt talvez explique a baixa qualidade da
música dos porta-malas ou do Domingo Legal. É um fenômeno complexo,
que no Brasil também envolve o despreparo da nossa imprensa, bem
como a triste situação do nosso sistema de ensino. Uma evidência
incontestável: no Brasil, dois dos poucos momentos em que se estuda
arte nas disciplinas de História do ensino médio são o Renascimento
e a Semana de Arte Moderna de 1922. Curiosamente, em ambos os
casos, a música correspondente é riquíssima - mas, não por acaso,
solenemente ignorada em qualquer colégio brasileiro.
Além de Harnoncourt, outro músico bastante preocupado com a valorização
do silêncio, foi o norte-americano John Cage. Em 1952, Cage compôs
a escandalosa 4'33". É uma peça, bem, em que os músicos ficam
quietinhos, sem fazer absolutamente nada, durante 4 minutos 33
segundos. Há as mais diversas leituras desta obra - comparações
com a página em branco de Mallarmé, ou o quadrado branco sobre
fundo branco de Malévitch e, ainda, a arte dadaísta - mas, o melhor
mesmo é saber das intenções do próprio Cage: ouvir o silêncio,
os sons naturais da platéia, do ambiente. Claro, isto é mais uma
atitude, uma provocação, do que arte propriamente dita. Mas a
provocação é importantíssima.
O silêncio também é importante, para mim. Tão importante quanto
à música. Por isto, fico em Curitiba - o paraíso indizível - durante
o carnaval. Por isto, não vou ao Café do Teatro. Por isto, não
acho que silêncios constrangedores são de fato constrangedores
- a vida industrial e tecnológica já é suficientemente ruidosa
e impaciente. Por isto, como o Lapão, acho bacana os documentários
sobre o pulgão, super silenciosos, da National Geographic. Por
isto, o nome desta coluna é slow food. Por isto, bem, fim. Ssshhh!!!
André Tezza Consentino, 27, é publicitário
e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas
do Jazz", da Educativa FM.