Dissonância mal-aventurada
Leitura das campanhas da Benetton
André Tezza Consentino
(Este texto foi desenvolvido originalmente para a disciplina
Introdução à leitura, da pós graduação Leituras de Múltiplas Linguagens,
da PUC-PR, sob orientação da professora doutora Marta Morais da
Costa, no início deste ano. Aqui está uma versão muito mais resumida
e menos acadêmica, embora ainda mais quadrada do que o normal
desta coluna.)
1. Introdução
A partir de Treviso, cidade do norte da Itália próxima
de Veneza, o empresário Luciano Benetton construiu um dos mais
impressionantes impérios têxteis do último quarto do século XX
— as cores unidas da Benetton. Em seu ápice, durante os anos 80,
a Benetton edificou, somente nos Estados Unidos, 600 lojas. Seus
pulôveres, camisetas e bermudas eram objeto de desejo em mais
de 150 países. Com investimentos em tecnologia de produção até
então sem precedentes, a Benetton atravessou as diversas crises
econômicas da época a passos largos — os teares automatizados
e os estoques controlados por robôs evidenciavam pioneirismo e
arrojo. Em sua época de ouro, a Benetton praticamente desconhecia
a concorrência.
Mas, não foi só por méritos técnicos ou industriais que a Benetton
consolidou-se como fenômeno industrial do capitalismo contemporâneo.
Aos olhos de seus consumidores e da mídia, a Benetton era menos
uma indústria, menos uma técnica à frente de seus concorrentes
e mais uma tonitruante e provocativa idéia de comunicação. Aidéticos,
genitálias expostas, racismo, sexualidade clerical, crimes de
guerra — menos a iniciativa de Luciano Benetton, mas sim a força
das fotografias publicitárias de Oliviero Toscani construiu um
imaginário ímpar para a marca, motivo de discussões apaixonadas
e leituras das mais diversas e antagônicas. Foi assim durante
18 anos consecutivos (1982-2000), mas hoje os ventos são outros.
Das 600 lojas norte-americanas, hoje restam 150 e as vendas diminuíram
50%. A concorrência da Benetton não só a ultrapassou em tecnologia,
mas em agilidade, preço e participação de mercado. E a conseqüência
de tamanha crise empresarial não poderia ser mais previsível:
a demissão de Toscani e o fim de quase duas décadas de publicidade
agressiva e, supostamente, transgressora.
Agora, à luz de uma guerra aparentemente finda, talvez seja um
momento mais pertinente para uma reflexão sobre as leituras possíveis
daquele que, possivelmente, seja o mais discutido fenômeno publicitário
do fim do século passado. Do otimismo renitente de diversos artistas
militantes da pop arte e seus defensores, passando por uma violentíssima
e, muitas vezes, contraditória crítica da imprensa (que por diversas
vezes censurou os anúncios da marca, em inúmeros cantos do mundo),
chegando ao posicionamento raramente reservado, nem sempre desprovido
de cinismo, da classe publicitária — Toscani provocou um debate
acalorado sobre os limites e o papel da comunicação empresarial
na sociedade de consumo em diversas estratificações artísticas,
profissionais e intelectuais.
As discussões são muitas — diálogo entre e a arte e a publicidade,
ética e estética da comunicação, pluralidade de recepção, ambigüidade
de intenções — e complexas. Apesar de as dificuldades prevalecerem
quando o foco de estudo ainda é por demais recente, na publicidade
da Benetton há uma chave que ilumina qualquer possibilidade de
leitura: o seu fim, o seu fracasso aos olhos do interesse da empresa
e dos valores de mercado.
Afinal, se a idéia das fotos provocantes não era "vender pulôveres",
como alardeou Toscani em todo o mundo em seu livro A Publicidade
É Um Cadáver Que Nos Sorri e se havia de fato uma finalidade
humanista de comunicação, de conscientização social e de questionamento
de preconceitos, por que a Benetton achou por bem abandonar o
discurso dissonante e adotar uma publicidade conservadora, semelhante
às marcas concorrentes?
2. Semelhanças: a Benetton como
cultura de massa
Antes de refletir sobre os aspectos técnicos e ideológicos em
que a comunicação da Benetton, de fato, foi inovadora e original,
é importante ressaltar os pontos de interseção com a propaganda
conservadora tradicional. As fotos dos anúncios de Toscani, não
raro, exatamente como qualquer fotografia publicitária, de qualquer
marca de vestuário mundial que investe quantias astronômicas em
comunicação, prioriza a plástica e o imaginário da perfeição,
ainda que sob uma ideologia aparentemente diferente — a freira
que docemente beija o clérigo é uma vênus tão artificial, tão
submissa à beleza conhecida e hegemônica dos meios publicitários,
quanto qualquer modelo típica de um anúncio de automóveis ou biquínis.
Tanto a mão do bebê negro quanto a mão branca adulta que a segura
não são mãos quaisquer, mas mãos maquiadas, artificialmente iluminadas,
retratadas com técnicas semelhantes às da publicidade tradicional.
Os bebês da Benetton, sejam brancos ou negros, são perfeitos,
saudáveis e, por que não dizer, felizes. Para seduzir seus leitores,
ainda que Toscani não admita, os anúncios da Benetton não prescindem
de um dos mais conhecidos elementos da publicidade: a realidade
recriada artificialmente sob a égide de uma utopia de felicidade.
Mesmo quando a Benetton utiliza signos em que a plástica da
perfeição e a utopia da felicidade parecem impossíveis, como nos
anúncios que retratam aidéticos ou situações de guerra, as imagens
são épicas, há um glamour da tragédia — enfim, o olhar publicitário
da Benetton, assim como qualquer bem típico da indústria cultural,
como oberva o sempre genial Edgar Morin, é o olhar do espetáculo.
Enquanto fotógrafo, Toscani não compartilha do recorte casual,
imprevisto e humano do cotidiano (na história da fotografia, há
trunfos grandiosos dentro deste paradigma e o exemplo mais célebre,
naturalmente, é Henri Cartier-Bresson) — as imagens da Benetton
são universos meticulosamente construídos, irretocáveis e artificiais.
A técnica precede qualquer possibilidade de artesanato e a visão
da realidade, para Toscani, é indiscutivelmente industrial. Em
um paralelo possível, pode-se dizer que a apreensão de realidade
das fotografias da Benetton é semelhante à natureza dentro dos
limites da impressionante técnica de Ansell Adams ou então à fotografia
habitual do cinema comercial norte-americano.
Os moldes prontos, as formas previsíveis e as leituras estandardizadas
dentro do discurso do prazer e do lazer são elementos comuns de
qualquer bem produzido na era da cultura massificada — claro,
a propaganda também faz parte deste universo, o universo da produção
em série dos bens culturais, das idéias confinadas a uma linha
de montagem. Ainda que no desenvolvimento da cultura de massas
do século XX tenha havido momentos de cisão com estes padrões
estabelecidos, como observou Umberto Eco em Apocalípticos e
Integrados, citando o jazz, as propagandas da Benetton não
fazem parte deste processo — ou pelo menos, deste modelo radical
de marginalização. O rompimento da Benetton existe — e somente
uma análise míope não entenderia assim — mas atua sobre campos
bem menos subversivos. Os limites da atuação de sua comunicação
são os limites de seus resultados práticos, muito nítidos e objetivos,
isto é, a consubstanciação do lucro. E, a partir do momento em
que há o fracasso de resultados, o discurso é imediatamente descartado.
3. Diferenças: comunidades interpretativas
Não é preciso uma pesquisa muito aprofundada para perceber a complexidade
e a diversidade das leituras possíveis da comunicação da Benetton.
Após os anos 80, em que as leituras da cultura de massa basicamente
se restringiam aos efeitos de manipulação, há uma visível transformação
nos modelos interpretativos, no sentido de validar a pluralidade
e de abranger uma maior complexidade do fenômeno mass media,
evitando soluções maniqueístas e dicotômicas.
Uma primeira análise diria que o leitor modelo da Benetton é
o consumidor padrão de seus produtos, isto é, um leitor jovem,
de alto poder aquisitivo e de formação cultural sofisticada. Há
varios argumentos que justificariam esta tese: a escolha dos veículos
para os anúncios (com estratificação sócio econômica bastante
nítida), o preço do produto, a sofisticação ideológica de sua
comunicação, entre outros. É este leitor/consumidor quem financia
toda a comunicação da empresa — de forma análoga a qualquer campanha
publicitária da sociedade de consumo. Esta análise inicial não
é equivocada, mas é incompleta. Como afirmou o publicitário Alexandre
Gama, o público-alvo prioritário da campanha eram os jornalistas
— seriam eles que, mesmo que inconscientemente, acabariam por
amplificar os efeitos dos anúncios.
Há alguns dados que endossam uma busca intencional pelo leitor
jornalista. Durante os lançamentos das campanhas publicitárias,
Oliviero Toscani e Luciano Benetton viajaram por todos os países
em que a Benetton estava presente organizando debates sobre a
polêmica dos anúncios. E, não por coincidência, sempre a maior
parcela do público convidado, invariavelmente, era constituída
de jornalistas.
Não há dúvidas de que a imprensa amplificou a potência do discurso
de Toscani — seja por proibi-los, seja por criticá-los, seja por
elogiá-los. Também não há dúvidas de que as matérias da imprensa
são, em última instância, um eficaz mecanismo de fortalecimento
de marca — com uma vantagem assombrosa: são gratuitos. Este é
um caso típico em que, mesmo não atendendo as expectativas interpretativas
do autor, o leitor acaba por promover a função utilitarista do
discurso publicitário. De qualquer forma, não foi a imprensa quem
criou a marca Benetton, mas diferenciais de comunicação que são
intrínsecos das imagens de Toscani e de suas diversas interpretações
possíveis. Na época, a leitura da imprensa que prevaleceu, foi
o desconforto, a crítica e até mesmo a censura. Aparentemente,
há uma contradição nesta leitura, porque a imprensa, salvo as
exceções patrocinadas pelo Estado ou então as iniciativas privadas
de mecenas contemporâneos, não existe sem publicidade. É nesse
sentido que os defensores da Benetton, não sem uma ponta de razão,
argumentam que se um jornal publica fotos de guerra, de aidéticos,
tal qual as campanhas da Benetton, e se essas imagens são também
patrocinadas e estão ao lado, em última instância, de anúncios
de empresas privadas que desejam o lucro — então o discurso da
Benetton não é tão distante assim da ideologia tradicional dos
mass media. Mas, naturalmente, o discurso dos jornais e
revistas é mais plural e democrático que o discurso dos anunciantes.
Em um mesmo jornal, opiniões diversas e antagônicas convivem com
uma freqüência absolutamente inexistente na comunicação publicitária
— a ponto, inclusive, de a imprensa censurar um anúncio que a
princípio lhe daria lucro.
Em sua defesa, Toscani argumenta um sentido ideológico para seus
anúncios — uma alternativa à publicidade tradicional, com questionamentos
de diversos preceitos morais e conseqüentes discussões éticas
e estéticas sobre o papel da comunicação. Há ainda um sentido
mais pretensioso, que evidencia intenções de intertextualidade
e que transparece na medida em que Toscani narra a aceitação das
campanhas da Benetton entre curadores e museus: a publicidade
como arte.
Na dimensão estética e nas interseções com a arte, as opiniões
de Toscani devem ser tomadas com mais reserva. Em um sentido crítico,
as únicas manifestações artísticas que dialogaram com a publicidade
e tiveram repercussão acadêmica relevante foram, em uma primeira
instância, Toulouse-Lautrec (mas em um contexto bastante peculiar,
anterior aos mass media e ao modelo industrial de publicidade)
e, posteriormente, a pop arte. Naturalmente, se existe alguma
possibilidade de diálogo entre as cores unidas da Benetton e a
arte, esta possibilidade se restringe aos limites da pop arte.
Afinal, como oberva Argan, na pop arte há uma dissonância radical
entre os elementos constitutivos da obra (originários da própria
cultura de massas) e a sua função narrativa de criticá-los. Nesta
acepção, a lata de sopa Campbell de Warhol, para citar um exemplo
entre inúmeros, perde seu valor de crítica e acaba por oficializar
a cultura de massas. No mesmo caminho, é mais fácil e lúcido conceber
a suposta obra de Toscani dentro de padrões de oficialização do
discurso da cultura de massas e a da sociedade de consumo do que
propriamente uma ruptura revolucionária e alternativa de valores.
Por fim, resta a leitura dos companheiros de classe, os publicitários.
Em uma atividade tão conservadora quanto a publicidade, seria
natural que qualquer iniciativa de mudança ou tentativa de vanguarda
fosse entendida com desconfiança. Aqui, as críticas corrosivas
de Toscani foram recebidas como sinal de guerra e, não raro, cristalizaram
argumentações superficiais e preconceituosas. O interessante é
que, dentro da perspectiva atual, de abondono das campanhas de
Toscani na medida em que elas se mostraram pouco eficientes, fica
claro que o discurso não era tão transgressor assim e que havia
mais semelhanças com a propaganda tradicional do que se supunha.
Afinal, a propaganda é sempre uma extensão da ideologia industrial
de sua época — seja capitalista ou não. Uma propaganda genuinamente
transgressora romperia com esta extensão a ponto de questionar
valores intrínsecos desta ideologia — e isto a Benetton não fez.
Depois das leituras maniqueístas dos 60 e 70, que apreendiam
o discurso publicitário em um paralelo muito semelhante ao Big
Brother de Orwell — leitura que era reforçada pelo próprio discurso
dos publicitários, no momento em que defendiam a propaganda dentro
de uma abordagem técnico-científica da ação humana, semelhante
ao cientificismo do século XVIII, levando a imensos equívocos
de atuação (como a propaganda subliminar) — hoje, leituras menos
simplistas de comportamento de consumo já fazem parte não só dos
registros acadêmicos, mas do ferramental prático de alguns poucos
profissionais de comunicação e aí estão todos os méritos da Benetton.
É bem verdade que em certos nichos, nomeadamente, na administração,
os mesmo equívocos persistem de forma mais assombrosa, sobretudo
na literatura disponível sobre marketing. E a interpretação míope
da comunidade publicitária, em parte, é conseqüência disto.
Alguns dos conceitos mais caros e transformadores do século XX
(física quântica, teorias de recepção, informação e semiótica,
teoria do caos, perspectiva interdisciplinar do conhecimento,
etc.), mesmo hoje, ainda são rarefeitos na atuação prática da
publicidade e na administração. Qualquer leitor minimamente informado
sobre os horizontes teóricos inaugurados no século XX se surpreenderia
com tentativas de se estabelecer padrões mecanicistas, de causa
e efeito, do comportamento humano — mas o marketing e a publicidade
ainda são desta maneira, basta averiguar qual é a referência preferida
não só de profissionais, mas também por inúmeros acadêmicos da
área: Philip Kotler. Enquanto este padrão prevalecer, iniciativas
como a da Benetton serão interpretadas, pelo leitor publicitário,
com um instrumental obsoleto e inadequado. Cem anos depois, o
leitor publicitário ainda espera pela chegada do século XX.
André Tezza Consentino, 27, é publicitário
e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas
do Jazz", da Educativa FM.