Edição de 18.2 a 25.2.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



O Free Jazz está de volta?
Lista do The New York Times com os melhores
CDs de 2001 aposta na vanguarda do jazz

Todos os anos, os críticos de música do The New York Times, tal qual os jornais tupiniquins, publicam aquela famosa listinha, talvez inútil, dos 10 melhores CDs do ano. Para os jazzófilos, a atenção fica por contar das escolhas de Ben Ratliff, que é uma espécie de Zuza Homem de Mello dos gringos, isto é, o crítico que fica encarregado de avaliar os caminhos do jazz contemporâneo. Bem, na listinha de Ratliff também constam alguns nomes fora do circuito habitual do jazz, como o blues de Buddy Guy, com o CD Sweet Tea, ou então Brazilian Duos, de uma tal de Luciana Souza (é brazuca, alguém aí já ouviu falar?), que, segundo o jornal norte-americano, é “uma coletânea modesta e brilhante de duetos voz-violão em canções brasileiras. Souza tem uma voz de alto, sensível e calibrada, e os arranjos são requintados”.

Mas, o que é realmente surpreendente são os discos de jazz que o homem elegeu. Com a ajuda de um tio meu que acabou se tornando fanático por MP3 e as diabruras do Audio Galaxy, consegui, sem ter que desembolsar os tradicionais 50 pila dos CDs importados, ouvir praticamente toda a seleção de Ratliff. E, se as conclusões do homem puderem se configurar como tendência, não é exagero dizer que o jazz conservador, que dominou a cena jazzística dos anos 80 e 90, está com os dias contados. Em miúdos: é o fim da hegemonia do modo Marsalis de se fazer música, ainda que, justiça seja feita, a obra de Wynton, mesmo conservadora, provavelmente será lembrada como a melhor que o jazz produziu no fim do século XX — principalmente bem no finalzinho dos anos 90, quando álbuns como The Marcíac Suíte e os 7 extraordinários CDs de Live at the Village Vanguard se consagraram como autênticas obras-primas.

A música que Ratliff escolheu desafia rótulos, mas, indiscutivelmente o que mais se aproxima de um, por exemplo, O’Neal’s Porch, do baixista William Parker, é o Free Jazz dos anos 60. Comecemos então por Parker, baixista da nova geração do jazz nova-iorquino e compositor de temas furiosos e complexos, dignos do que o melhor Free Jazz produziu. Atenção, crianças, não é música para se ouvir no café da manhã. O’Neal’s Porch tem formação diferente, sem piano, com trompete, sax, baixo e bateria. Lembra muito o Out to Lunch de Dolphy, clássico da vanguarda do anos 60, mas sem o vibrafone de Bobby Hutcherson que dava uma doçura especial ao álbum. Aqui, nada é muito doce, tudo é muito cru e cerebral.

Outro eleito da lista é o pianista Jason Moran. Moran é bem mais comportado que Parker, mas, não se engane, o que parece ser um lirismo, logo se transforma em melodias e harmonias complicadas, imprevisíveis — não é música de decoração. Como diz Ratliff, Moran é um subversivo harmonicamente correto. Companheiro de Moran em alguns álbuns é o saxofonista, este um pouco mais conhecido, Greg Osby, outro escolhido. Osby é meio como Branford Marsalis, tem um raio de atuação que vai de Sting a Stravinsky, às vezes sem muita distinção ou pudor, muitas vezes sem muito brilho, às vezes indiscutivelmente surpreendente e brilhante. O álbum de Osby que entrou para lista foi “Symbols of a Light”, com orquestra de cordas — o que sempre é um perigo —, e não é nada excepcional. Também é um álbum mais tranquilo que o habitual de Osby.

Alguma puta velha? Duas. A primeira é Charlie Haden, com o álbum Nocturne, com boleros cubanos e mexicanos, acompanhados pelo super pianista Gonzalo Rubalcaba. Muito easy listening, sem o carisma de músicos cubanos como os do Buena Vista Social Club, este é um álbum bem chatinho. É o mais comportado de toda a lista de Ratliff.

O segundo jazzista medalhão da lista é o pianista Keith Jarrett, com o álbum Inside Out, gravado ao vivo em Londres. É mais um disco do Keith Jarrett Trio, com o baterista Jack DeJohnette e o baixista Gary Peacock. Sem nenhuma dúvida, este é o disco mais experimental que o trio já lançou em todos os seus 25 anos de existência. Com exceção de uma faixa, When I Fall in Love, nada de standards, só improvisações não ensaiadas — mas infinitamente mais cerebrais do que as experiências anteriores do trio com vôos livres, como Changeless ou Changes.

Não li o encarte do CD (esta é a maldição do Audio Galaxy: necas de encarte), mas por intermédio de uma crítica do No., soube que Jarrett desce a lenha em Wynton Marsalis e Ken Burns. A crítica a Ken Burns, o diretor da série jazz que o GNT passou recentemente aqui no Brasil, é compreensível. Burns simplesmente ignorou todo o jazz dos anos 70, com tudo o que ele tinha de ruim (o fusion) e tudo o que ele tinha de bom (a ECM, gravadora de Jarrett). A visão de Burns, neste caso absolutamente idêntica à de Wynton, é a de que o jazz dos anos 70 não preservou características fundamentais das suas origens, sobretudo o blues. Assim, tudo que se produziu no jazz dos anos 70 e também boa parte dos anos 60 (em especial o free) foi absolutamente ignorado pelo documentário — o que é imperdoável, porque, na verdade, o blues não é um componente fundamental do jazz desde o Bebop.

Bem, vale também dizer que Jarrett é uma diva escandalosa, e, como vaidade não é propriamente rara na música, a chiadeira do pianista tem motivos menos nobres. Por fim, a crítica de Jarrett a Wynton diz respeito à forma. Marsalis, talvez por ser músico erudito também, preza muito pela forma — pense, por exemplo, no papel da forma sonata na música erudita. Na história do jazz de Wynton, novamente, o free e a ECM ficam de fora, porque não respeitam formas fundamentais do jazz. Daí vem toda a fama de conservadorismo de Wynton. E daí, talvez, também o que poderá justificar o possível crepúsculo de Marsalis.

André Tezza Consentino, 28 anos, é publicitário e casado com a Fran.

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