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O Free Jazz está de volta?
Lista do The New York Times com os melhores
CDs de 2001 aposta na vanguarda do jazz
Todos os anos, os críticos de música do The New York Times, tal
qual os jornais tupiniquins, publicam aquela famosa listinha, talvez
inútil, dos 10 melhores CDs do ano. Para os jazzófilos, a atenção
fica por contar das escolhas de Ben Ratliff, que é uma espécie de
Zuza Homem de Mello dos gringos, isto é, o crítico que fica encarregado
de avaliar os caminhos do jazz contemporâneo. Bem, na listinha de
Ratliff também constam alguns nomes fora do circuito habitual do
jazz, como o blues de Buddy Guy, com o CD Sweet Tea, ou então Brazilian
Duos, de uma tal de Luciana Souza (é brazuca, alguém aí já ouviu
falar?), que, segundo o jornal norte-americano, é “uma coletânea
modesta e brilhante de duetos voz-violão em canções brasileiras.
Souza tem uma voz de alto, sensível e calibrada, e os arranjos são
requintados”.
Mas, o que é realmente surpreendente são os discos de jazz que
o homem elegeu. Com a ajuda de um tio meu que acabou se tornando
fanático por MP3 e as diabruras do Audio Galaxy, consegui, sem ter
que desembolsar os tradicionais 50 pila dos CDs importados, ouvir
praticamente toda a seleção de Ratliff. E, se as conclusões do homem
puderem se configurar como tendência, não é exagero dizer que o
jazz conservador, que dominou a cena jazzística dos anos 80 e 90,
está com os dias contados. Em miúdos: é o fim da hegemonia do modo
Marsalis de se fazer música, ainda que, justiça seja feita, a obra
de Wynton, mesmo conservadora, provavelmente será lembrada como
a melhor que o jazz produziu no fim do século XX — principalmente
bem no finalzinho dos anos 90, quando álbuns como The Marcíac Suíte
e os 7 extraordinários CDs de Live at the Village Vanguard se consagraram
como autênticas obras-primas.
A música que Ratliff escolheu desafia rótulos, mas, indiscutivelmente
o que mais se aproxima de um, por exemplo, O’Neal’s Porch, do baixista
William Parker, é o Free Jazz dos anos 60. Comecemos então por Parker,
baixista da nova geração do jazz nova-iorquino e compositor de temas
furiosos e complexos, dignos do que o melhor Free Jazz produziu.
Atenção, crianças, não é música para se ouvir no café da manhã.
O’Neal’s Porch tem formação diferente, sem piano, com trompete,
sax, baixo e bateria. Lembra muito o Out to Lunch de Dolphy, clássico
da vanguarda do anos 60, mas sem o vibrafone de Bobby Hutcherson
que dava uma doçura especial ao álbum. Aqui, nada é muito doce,
tudo é muito cru e cerebral.
Outro eleito da lista é o pianista Jason Moran. Moran é bem mais
comportado que Parker, mas, não se engane, o que parece ser um lirismo,
logo se transforma em melodias e harmonias complicadas, imprevisíveis
— não é música de decoração. Como diz Ratliff, Moran é um subversivo
harmonicamente correto. Companheiro de Moran em alguns álbuns é
o saxofonista, este um pouco mais conhecido, Greg Osby, outro escolhido.
Osby é meio como Branford Marsalis, tem um raio de atuação que vai
de Sting a Stravinsky, às vezes sem muita distinção ou pudor, muitas
vezes sem muito brilho, às vezes indiscutivelmente surpreendente
e brilhante. O álbum de Osby que entrou para lista foi “Symbols
of a Light”, com orquestra de cordas — o que sempre é um perigo
—, e não é nada excepcional. Também é um álbum mais tranquilo que
o habitual de Osby.
Alguma puta velha? Duas. A primeira é Charlie Haden, com o álbum
Nocturne, com boleros cubanos e mexicanos, acompanhados pelo super
pianista Gonzalo Rubalcaba. Muito easy listening, sem o carisma
de músicos cubanos como os do Buena Vista Social Club, este é um
álbum bem chatinho. É o mais comportado de toda a lista de Ratliff.
O segundo jazzista medalhão da lista é o pianista Keith Jarrett,
com o álbum Inside Out, gravado ao vivo em Londres. É mais um disco
do Keith Jarrett Trio, com o baterista Jack DeJohnette e o baixista
Gary Peacock. Sem nenhuma dúvida, este é o disco mais experimental
que o trio já lançou em todos os seus 25 anos de existência. Com
exceção de uma faixa, When I Fall in Love, nada de standards, só
improvisações não ensaiadas — mas infinitamente mais cerebrais do
que as experiências anteriores do trio com vôos livres, como Changeless
ou Changes.
Não li o encarte do CD (esta é a maldição do Audio Galaxy: necas
de encarte), mas por intermédio de uma crítica do No., soube que
Jarrett desce a lenha em Wynton Marsalis e Ken Burns. A crítica
a Ken Burns, o diretor da série jazz que o GNT passou recentemente
aqui no Brasil, é compreensível. Burns simplesmente ignorou todo
o jazz dos anos 70, com tudo o que ele tinha de ruim (o fusion)
e tudo o que ele tinha de bom (a ECM, gravadora de Jarrett). A visão
de Burns, neste caso absolutamente idêntica à de Wynton, é a de
que o jazz dos anos 70 não preservou características fundamentais
das suas origens, sobretudo o blues. Assim, tudo que se produziu
no jazz dos anos 70 e também boa parte dos anos 60 (em especial
o free) foi absolutamente ignorado pelo documentário — o que é imperdoável,
porque, na verdade, o blues não é um componente fundamental do jazz
desde o Bebop.
Bem, vale também dizer que Jarrett é uma diva escandalosa, e, como
vaidade não é propriamente rara na música, a chiadeira do pianista
tem motivos menos nobres. Por fim, a crítica de Jarrett a Wynton
diz respeito à forma. Marsalis, talvez por ser músico erudito também,
preza muito pela forma — pense, por exemplo, no papel da forma sonata
na música erudita. Na história do jazz de Wynton, novamente, o free
e a ECM ficam de fora, porque não respeitam formas fundamentais
do jazz. Daí vem toda a fama de conservadorismo de Wynton. E daí,
talvez, também o que poderá justificar o possível crepúsculo de
Marsalis.
André
Tezza Consentino, 28 anos, é publicitário e casado com a Fran.
[email protected]
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