Edição de 18.2 a 25.2.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



O Quinto Movimento de Wynton Marsalis
Sobre Hellbound Highball, quinto movimento de At The Octoroon Balls

Um recorte de um recorte da música contemporânea.

Dentro das muitas peculiaridades do século XX, em que o desenvolvimento artístico alçou novas fronteiras de produção e difusão (a era dos meios de comunicação de massa), recusar o novo muitas vezes não foi simplesmente uma escolha estética, mas adotar um posicionamento passivo frente a então estabelecida indústria cultural e, mais do que isso, assumir a finalidade exclusivamente utilitária da arte. A atitude de músicos de uma nova geração do jazz, como a do trompetista Wynton Marsalis, é especialmente crítica e paradoxal porque inverte a lógica habitual do século: abdicar o novo é comprometer-se com uma postura artística retrógrada, em que o diálogo com o passado sobrepõe-se ao diálogo com o futuro, mas, desta vez, também é seguir um norte criativo livre de vários preceitos da sociedade de consumo - a música de Marsalis é conservadora e exuberante, mas não serve para as rádios ou os clips da MTV. O seu conservadorismo é representativo da ética de seu tempo: o pastiche pós-moderno, a reinvenção e a citação do antigo sem renunciar a complexidade da fonte original, a colagem de linguagens e ainda a porosidade do diálogo entre a cultura erudita e a popular - mas, diferente das resoluções habituais do pós-modernismo (ou, se você não acredita em pós-modernismo, pense em uma certa fatia da cultura dita contemporânea), Wynton rejeita a cultura de massas.

Recusar o novo, para Wynton, é recusar a revolução tecnológica que lastrou a música popular a partir dos anos 70, é recusar simplificações de ritmo e harmonia, é recusar as músicas breves moldadas para a indústria fonográfica, as rádios e os vídeo clips. O quebra-cabeça desta geração é que nos últimos 30 anos, o novo não é a vanguarda estética, mas tecnologia e facilidade de consumo. O discurso inflamado contra o uso da tecnologia e a favor da instrumentação acústica soa inicialmente como uma atitude ingênua, intolerante, evidenciando uma opção um tanto obsessiva pelo passado. Mas aos críticos, Wynton propõe uma questão incômoda: em qual sentido a tecnologia de fato trouxe algo de novo na estruturação da música, senão uma mera possibilidade tímbrica? Com um discurso conservador, antipático e inflexível em defesa da liberdade musical frente aos limites comerciais da produção cultural, Wynton colecionou inúmeras inimizades, dentro e fora do jazz. Mas, por outro lado, o respeito e a magnitude dos admiradores conquistados (que vão de Claudio Abbado a Seiji Ozawa; de Maurice André a Maynard Ferguson; de Twyla Tharp a Garth Fagan) ajudam a cristalizar um posicionamento artístico sustentável, singular e perturbador.

É este posicionamento que dá vida à composição de Hellbound Highball, o quinto movimento de At The Octoroon Balls. Os nomes dos movimentos e da obra por si só já apontam uma postura ideológica: Wynton gosta da tradição. Gosta de comparar a história do jazz com a história da música erudita - até porque sua formação (de um lado as ruas de Nova Orleans, do outro a Julliard School de Nova Iorque) permite isto. Não vê problemas em combinar os grandes nomes do jazz com os grandes da música erudita, a ponto de considerar não Charles Ives, mas Duke Ellington o grande músico norte-americano.

No título da obra, Balls, na antiga Nova Orleans, eram os prostíbulos em que os Creoles escolhiam mulheres Octoroon. Traduzindo os personagens e a ambientação singular da cidade, eram locais em que os homens mulatos (os creoles: cidadãos livres, geralmente miscigenados com sangue francês ou espanhol e que, não raro, estudavam em Paris) escolhiam mulheres mulatas (uma Octoroon: com 1/8 de origem negra e 7/8 de origem branca.). O título da obra expressa a idéia de miscigenação que é própria da história do jazz, mas, mais do que isto: a força sexual da cultura negra. A origem da palavra jazz, como já falei por aqui, é um enigma ainda não totalmente solucionado, mas, que na maioria das teorias possíveis, traduz o desbunde do desejo: jazz poderia ser o ato sexual, poderia ser o perfume de Jassmim que as prostitutas de Nova Orleans usavam ou, ainda, o próprio orgasmo. Hellbound Highball, o quinto movimento da obra, também possibilita várias leituras sexuais a partir de seu nome. Highball é o nome de uma forte bebida alcoólica, mas, também pode ser um neologismo, a soma de high com ball, isto é, um prostíbulo fino, da alta sociedade creole. E, há ainda uma terceira leitura, que é a mais pertinente: highball é um sinal ferroviário que indica que a passagem está livre e o trem pode avançar a todo vapor. Como Hellbound Highball é a descrição musical de um trem, como veremos adiante, a leitura de um sinal ferroviário parece ser a que expressa melhor as intenções de Wynton. Já Hellbound significa algo semelhante a "o inferno como destino". Portanto, Hellbound Highball seria, em uma tradução possível, "Indo para o inferno, a todo vapor".

Há inúmeros elementos genuinamente jazzísticos em Hellbound Highball. A utilização da escala do blues, saltos trôpegos e surpreendentes do ritmo, utilização descompromissada do humor, e, ainda, a busca de uma linguagem própria, "suja", da instrumentação. Mas, mais do que questões meramente formais, o que salta aos ouvidos, em uma primeira instância, é o tema de Hellbound Highball: a viagem de uma maria-fumaça. Este é um tema clássico do blues, que também foi largamente explorado pelo jazz e mesmo por Wynton Marsalis (conferir a interpretação de Happy Go Lucky Local, uma das composições mais divertidas de Duke Ellington). Como é sabido, de um lado, o blues, somado ao ragtime às orquestras militares, é a fonte maior do início do jazz. Por outro lado, a imagem do trem reforça toda a temática sexual que está presente em Octoroon Balls: o apelo dionisíaco e a própria sonoridade cambaleante de um trem enunciam o ato sexual. Mas, apesar de todos estes pilares presentes na composição, pilares que sustentam uma história oficializada e tradicionalista do jazz, há algo de estranho em Hellbound Highball. Em primeiro lugar, não há improvisação. Toda a música é escrita, está em partitura, como manda a tradição erudita européia. E, o mais surpreendente: Octoroon Balls é o quarteto de cordas número 1 de Wynton Marsalis - Hellbound Highball é seu quinto movimento.

Wynton Marsalis não é o primeiro jazzista a compor para esta formação. Mas, possivelmente, é o primeiro a inserir elementos genuinamente jazzísticos a ela. E é aqui que algumas questões se estabelecem. Qual é a motivação para uma aproximação com a música erudita? Por que Marsalis, um músico já plenamente situado dentro da historiografia do jazz, também procura o reconhecimento inventivo da erudição branca, européia? São questões complexas, mas que, de certa forma, desenham um contorno assustador e imprescindível dentro da cultura negra americana: o racismo.

Foi dentro de um quadro de exclusão racial que o jazz se desenvolveu. E o pior: os negros assistiram de camarote à sacralização branca - a cultura européia se apropriou do jazz para torná-lo uma música supostamente superior e aceita dentro do discurso oficial da cultura. Durante quase todo o século XX, a música negra foi desprezada pelos conservatórios norte-americanos, ainda que lá se ensinasse Gershwin ou as peças jazzísticas de Stravinsky, Ravel, Bernstein ou Shostakovitch. Este paradoxo, que claramente aponta para uma exclusão da cultura popular protagonizada pelo academicismo dominante, está presente em toda as Américas.

Só no final do século XX o jazz passou a freqüentar a academia. Em grande parte, por influência decisiva de Marsalis. Não só pela sua formação e seus méritos como músico erudito, mas, sobretudo, por lecionar no Lincoln Center, um dos braços do principal conservatório norte-americano: a Julliard School. At the Octoroon Balls é uma peça que, sem sigilo algum, está afirmando que a cultura negra não quer ser domesticada por compositores brancos, na tradição européia, e dar a eles os méritos do cânone. É uma voz que, explicitamente, prova que os negros podem lidar com qualquer linguagem - inclusive aquela que prevaleceu nos livros de história da música ao longo dos séculos. Assim, o quarteto de cordas de Wynton Marsalis é um protesto - há algo de injusto e, presumidamente racista, na exclusão dos méritos negros e na defesa unilateral de músicos eruditos que amaram o jazz (e, sem dúvida, amaram esta manifestação mais do que outra na música popular do século XX) e, com ele, fizeram algumas das peças mais importantes do cânone musical do século.

Duke Ellington, bem como Wynton Marsalis, não desconfiam do talento de Gershwin - mas, desconfiam da hierarquização de Gershwin e do jazz em benefício do primeiro. At the Octoroon Balls, composição de 1995, gravada pelo Orion String Quartet em 1998, não é a primeira, nem a última atitude de jazzistas buscando reconhecimento intelectual - resquício dos tempos em que o racismo foi hegemônico na cultura da América. O próprio Wynton lançou em 1998 a composição A Fiddler's Tale, uma homenagem para A História do Soldado, uma das mais conhecidas peças de Stravinsky influenciadas pelo jazz. São tentativas de diálogo com a tradição européia, que existem no jazz desde o seu início e tiveram alguns de seus melhores momentos com Duke Ellington. No quarteto de cordas de Wynton, este diálogo não fica restrito à instrumentação, mas, também aos fundamentos percussivos inspirados na obra de Bartók. Mas, ainda que uma divisão da crítica erudita não veja grandes novidades neste quarteto de cordas, porque seria justamente uma extensão das obras de Bartók, o que fica patente é a originalidade possível desta obra - originalidade típica dos tempos pós-modernos, de pastiches, citações e mistura de gêneros. At The Octoroon Balls só poderia ser uma peça de Bartók se este tivesse nascido às margens do Mississipi.

Dentro das novas possibilidades de linguagens e troca de linguagens próprias do século XX, uma nova história da música faz-se necessária - fato já apontado por inúmeros intelectuais que abraçaram o fenômeno musical livre dos dogmas de uma única cultura, de um único ferramental de crítica. Nestas novas possibilidades, o posicionamento de Adorno não é descartável, porque mesmo dentro de uma perspectiva plural, há nuances qualitativas, posicionamentos mais ou menos utilitaristas e comerciais frente a um mercado hoje inexorável. Hoje, já se observa com naturalidade que o mercado e a cultura de massas não são simplesmente uma baliza nivelando a mediocridade, mas também novas possibilidades de fruição e criação estética que a própria música dita erudita se aproveita. E dentro destas novas possibilidades ainda há espaço para originalidade na arte.

Escute um trecho de Hellbound Highball, em Windows Media Player.

André Tezza Consentino, 28 anos, é publicitário e casado com a Fran.

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