Desde a estréia de Casa dos
Artistas, nova atração do SBT, um certo frenesi está
tomando conta da imprensa brasileira. Em geral, num coro até
certo ponto previsível, a ordem é descer a lenha sem dó — um
título que saiu no site no. resume bem o tom do discurso: “O
antraz do Sílvio Santos”. Pelo o que tenho acompanhado do bafafá,
o único a elogiar o programa, numa atitude à la movimento punk,
foi o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva, em um texto
para a Folha de São Paulo.
Semana passada, fui conferir a grande sensação do SBT — aquela
que, só no último domingo, venceu o ibope do Fantástico pela
tonitruante diferença de 40 a 26. O programa é muito simples:
um pequeno grupo de artistas (todos decadentes, diga-se de passagem)
fica preso em uma casa apinhada de câmeras de TV durante semanas
a fio. Diariamente, o público vê o que se passa na casa, supostamente
ao vivo, e pode mais uma vez se deliciar com a invasão de privacidade
— fenômeno que nem é mais novidade na TV, vide No Limite, da
Globo, ou Fica Comigo, da MTV. O objetivo é conseguir permanecer
na casa e, assim, ganhar uma premiação ao final das transmissões
— missão que será cumprida conforme o sucesso ou não de uma
votação periódica entre os próprios artistas e mesmo do público
para eliminar os participantes.
Por que é horroroso? Segundo a imprensa, porque tem “diálogos”
risíveis (Alexandre Frota resumiu o programa para Núbia de Oliveira:
"A gente está aqui se resolvendo a nossa vida, a nível de coisa,
para não ter mais esse stress"), pornografia light, maniqueísmo
banal, pérolas de comportamento e a já citada invasão de privacidade.
A única dúvida que tenho é: no que é que isto se difere do “padrão
Global” de se fazer televisão?
No Brasil, a lógica do preconceito cultural segue, não raro,
a lógica da estratificação e da exclusão social. Um paralelo
esclarecedor acontece na música. Segundo um certo senso comum
da elite jovem brasileira, a música eletrônica é mais sofisticada,
mais inteligente, do que o pagode de programa de auditório,
o axé ou o sertanejo massificado. Pensando friamente e exclusivamente
no discurso musical, analisando a riqueza dos ritmos ou da harmonia,
esta é uma argumentação absolutamente furada e desprovida de
qualquer lastro de lógica. Todas estas músicas são igualmente
previsíveis, inseridas dentro estruturas massificadas muito
similares — a única motivação para que uma seja classificada
de superior ou inferior é classe social de seus consumidores.
O SBT sofre deste mesmo tipo de preconceito há muito tempo
— se a Globo é a emissora que traduz as ansiedades das classes
A e B (ainda que seja líder de audiência em todos os segmentos
sociais), o SBT se fez como a canal que quer ser o porta-voz
das classes B, C e D (ainda que Casa dos Artistas tenha uma
estratificação social de audiência semelhante ao das novelas
globais), é uma porta de esperança de todos os pobres que sonham
um dia em participar do Show do Milhão. Ora, não há nada de
substancialmente diferente entre No Limite — ou mesmo as novelas
da Globo — e a Casa dos Artistas, a não ser as manifestações
sociais da marca que cada emissora representa. Claro, em televisão,
quanto maior o poder aquisitivo da audiência, melhores são as
cotas de propaganda, aumentando, em muito, a arrecadação da
emissora. Nisto, é óbvio, a Globo dá um banho no SBT: as câmeras
são mais modernas, a transmissão é melhor, há dinheiro para
contratar melhores figurinistas, diretores de arte, construir
cenários mais luxuosos, etc — ninguém duvida de que a Globo
é uma emissora mais rica. Só que técnica e dinheiro não se traduzem
necessariamente em estética privilegiada e, muito menos, em
ética mais refinada. Aliás, falando em ética, há muito mais
motivos para se acreditar no bom mocismo do SBT, que se fez
às custas daquele que é o maior contribuinte brasileiro, do
que na história sinistra da Globo, que cresceu uma barbaridade
durante o regime militar e, que, não raro, é acusada de favorecer
a pior classe política do país, vide Fernando Collor.
Não quero entrar no mérito sobre os possíveis males que a televisão
faz ao Brasil — aliás, honestamente, sempre achei que a indústria
cultural, pelo menos no que diz respeito à estética, é absolutamente
inofensiva, desde que filtrada com o lastro de uma formação
de qualidade. Novelas globais e Casa dos Artistas podem ser
puro entretenimento, não são grandes sacrifícios para o desenvolvimento
do país. Mas, o preconceito originário da estratificação econômica
é algo realmente sombrio, que não se revela somente na avaliação
da cultura de massas, mas em uma miríade de esferas sociais,
que passa tanto pela normatização da língua portuguesa segundo
os critérios das classes privilegiadas quanto na escolha dos
candidatos políticos.