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Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 20/11/2001

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Escândalo duvidoso
Casa dos artistas não é pior nem melhor do que a média da tv brasileira

André Tezza Consentino

Desde a estréia de Casa dos Artistas, nova atração do SBT, um certo frenesi está tomando conta da imprensa brasileira. Em geral, num coro até certo ponto previsível, a ordem é descer a lenha sem dó — um título que saiu no site no. resume bem o tom do discurso: “O antraz do Sílvio Santos”. Pelo o que tenho acompanhado do bafafá, o único a elogiar o programa, numa atitude à la movimento punk, foi o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva, em um texto para a Folha de São Paulo.

Semana passada, fui conferir a grande sensação do SBT — aquela que, só no último domingo, venceu o ibope do Fantástico pela tonitruante diferença de 40 a 26. O programa é muito simples: um pequeno grupo de artistas (todos decadentes, diga-se de passagem) fica preso em uma casa apinhada de câmeras de TV durante semanas a fio. Diariamente, o público vê o que se passa na casa, supostamente ao vivo, e pode mais uma vez se deliciar com a invasão de privacidade — fenômeno que nem é mais novidade na TV, vide No Limite, da Globo, ou Fica Comigo, da MTV. O objetivo é conseguir permanecer na casa e, assim, ganhar uma premiação ao final das transmissões — missão que será cumprida conforme o sucesso ou não de uma votação periódica entre os próprios artistas e mesmo do público para eliminar os participantes.

Por que é horroroso? Segundo a imprensa, porque tem “diálogos” risíveis (Alexandre Frota resumiu o programa para Núbia de Oliveira: "A gente está aqui se resolvendo a nossa vida, a nível de coisa, para não ter mais esse stress"), pornografia light, maniqueísmo banal, pérolas de comportamento e a já citada invasão de privacidade. A única dúvida que tenho é: no que é que isto se difere do “padrão Global” de se fazer televisão?

No Brasil, a lógica do preconceito cultural segue, não raro, a lógica da estratificação e da exclusão social. Um paralelo esclarecedor acontece na música. Segundo um certo senso comum da elite jovem brasileira, a música eletrônica é mais sofisticada, mais inteligente, do que o pagode de programa de auditório, o axé ou o sertanejo massificado. Pensando friamente e exclusivamente no discurso musical, analisando a riqueza dos ritmos ou da harmonia, esta é uma argumentação absolutamente furada e desprovida de qualquer lastro de lógica. Todas estas músicas são igualmente previsíveis, inseridas dentro estruturas massificadas muito similares — a única motivação para que uma seja classificada de superior ou inferior é classe social de seus consumidores.

O SBT sofre deste mesmo tipo de preconceito há muito tempo — se a Globo é a emissora que traduz as ansiedades das classes A e B (ainda que seja líder de audiência em todos os segmentos sociais), o SBT se fez como a canal que quer ser o porta-voz das classes B, C e D (ainda que Casa dos Artistas tenha uma estratificação social de audiência semelhante ao das novelas globais), é uma porta de esperança de todos os pobres que sonham um dia em participar do Show do Milhão. Ora, não há nada de substancialmente diferente entre No Limite — ou mesmo as novelas da Globo — e a Casa dos Artistas, a não ser as manifestações sociais da marca que cada emissora representa. Claro, em televisão, quanto maior o poder aquisitivo da audiência, melhores são as cotas de propaganda, aumentando, em muito, a arrecadação da emissora. Nisto, é óbvio, a Globo dá um banho no SBT: as câmeras são mais modernas, a transmissão é melhor, há dinheiro para contratar melhores figurinistas, diretores de arte, construir cenários mais luxuosos, etc — ninguém duvida de que a Globo é uma emissora mais rica. Só que técnica e dinheiro não se traduzem necessariamente em estética privilegiada e, muito menos, em ética mais refinada. Aliás, falando em ética, há muito mais motivos para se acreditar no bom mocismo do SBT, que se fez às custas daquele que é o maior contribuinte brasileiro, do que na história sinistra da Globo, que cresceu uma barbaridade durante o regime militar e, que, não raro, é acusada de favorecer a pior classe política do país, vide Fernando Collor.

Não quero entrar no mérito sobre os possíveis males que a televisão faz ao Brasil — aliás, honestamente, sempre achei que a indústria cultural, pelo menos no que diz respeito à estética, é absolutamente inofensiva, desde que filtrada com o lastro de uma formação de qualidade. Novelas globais e Casa dos Artistas podem ser puro entretenimento, não são grandes sacrifícios para o desenvolvimento do país. Mas, o preconceito originário da estratificação econômica é algo realmente sombrio, que não se revela somente na avaliação da cultura de massas, mas em uma miríade de esferas sociais, que passa tanto pela normatização da língua portuguesa segundo os critérios das classes privilegiadas quanto na escolha dos candidatos políticos.

André Tezza Consentino, 28, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

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