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Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 12/11/2001

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Até que enfim
Imprensa nacional finalmente descobriu que o Paraná é um celeiro de escândalos

André Tezza Consentino

Uma semana realmente diferente, esta última. O fracasso, pelo menos temporário, da venda da Copel, já é um alento. Mas, melhor, que bela novidade, a imprensa nacional começou a descobrir que, usando as palavras do Bagual, aqui no Paraná se rouba muito, mas muito mais do que no Pará. Chega até a ser constrangedor assistirmos às denúncias de envolvimento do PT com o jogo do bicho no Rio Grande do Sul — as quantias são da ordem de 80.000 reais. Nós, de Curitiba, somos ladrões de primeiro mundo, escondemos mais de 30 milhões de reais na prestação de contas da última campanha municipal.

Aliás, o fato de a Folha de São Paulo ter veiculado o escândalo, por si só já é uma notícia de primeira página. Até porque a imprensa local já havia publicado as denúncias (sem provas tão contundentes, é verdade) — mas, como é comum acontecer por aqui, quando as notícias saem na Folha do Paraná, ou em qualquer outro órgão de imprensa diferente daquele que é o hegemônico, a repercussão acontece somente no interior do Estado, em especial no Norte. Não por acaso, da última vez que teve coragem de visitar a região de Londrina sem qualquer tipo de disfarce, o governador quase foi linchado em público.

Depois da manchete de primeira página da Folha de São Paulo, houve repercussão nacional e os eleitores de Taniguchi diziam em silêncio que, ora, todos políticos do Brasil fazem caixa 2. É uma verdade difícil de ser contestada — e, até o PT, que se supunha austero na defesa da ética, está se embananando em São Paulo e no Rio Grande do Sul com denúncias semelhantes. Aliás, a própria declaração de contas de Vanhoni ao TRE, um pouco mais de 1 milhão de reais, é pra lá de suspeita. Entretanto, o que de fato chama a atenção, no caso de prefeitura de Curitiba, não é a simples existência do caixa 2. No começo do começo, em primeiro lugar, é a fantástica quantia envolvida. Quando a população terá consciência de que campanhas milionárias não são só bonitas e atraentes? Parece óbvio, mas não pareceu óbvio para a maioria dos eleitores que elegeram Taniguchi, que nenhum empresário doa dinheiro por caridade a um político. Cada centavo de uma campanha eleitoral será devolvido posteriormente com juros, correção monetária e vitórias obscuras em licitações, ou então, favorecimentos de impostos. Na época, quem não se lembra, era fácil perceber que se tratava de um empreendimento faraônico — mas isto só era insulto para poucos. Não havia um sinaleiro em Curitiba sem um cabo eleitoral. Nos outdoors, nos postes, na quantidade de camisetas e adesivos, os números de Taniguchi eram assustadores. Como também foi assustadora a cobertura da imprensa local para a eleição — quase uma extensão da programação do PFL no horário eleitoral.

O segundo ponto que chama a atenção nas denúncias é, naturalmente, a sua origem. Desta vez não foram as grosserias de Requião, os barbudos do PT, os estudantes vagabundos, ou toda aquela imagem caricata da oposição que é veiculada sistematicamente na propaganda oficial do Estado — lembrando, sem tirar nem pôr, a estratégia da indústria cultural nazista de desqualificar violentamente qualquer pensamento plural ou diferente. Não, desta vez não foram eles — foi o maior jornal do país, representado por um dos jornalistas mais brilhantes de sua geração, Fernando Rodrigues. E, para completar, segundo a boataria mais do que provável, os documentos não foram fornecidos pela oposição, mas pelo ex-secretário da fazenda de Lerner. A estratégia da Folha de São Paulo, diga-se de passagem, foi brilhante. Uma armadilha fina, na qual o prefeito caiu com uma ingenuidade espantosa. Após a primeira manchete, no dia 6 de novembro, terça-feira, Taniguchi apressou-se em responder grosso, dizendo que tudo não passava de uma manobra da oposição, em especial do senador Roberto Requião. E mais: afirmou que todo o financiamento de sua campanha estava a cargo de um comitê financeiro legalmente constituído, composto por três pessoas. Foi aqui que o prefeito colocou a corda em seu pescoço, na expressão do jornalista da Folha. Porque, o que Taniguchi não sabia e o Brasil inteiro soube no dia seguinte, é que Fernando Rodrigues havia entrevistado Francisco Paladino Júnior, o tesoureiro da campanha do PFL — uma das três pessoas do comitê de Taniguchi. E, a manchete da Folha, na quarta-feira, foi bombástica: “Tesoureiro confirma papéis da campanha do PFL em Curitiba”. Foi uma quarta-feira negra para a situação. Todos os jornais estavam procurando pelo prefeito, que simplesmente sumiu. Como também sumiram toda a tropa de choque do governo e mesmo o governador Jaime Lerner. É uma atitude não muito diferente daqueles criminosos que, quando presos na presença da imprensa, puxam a camisa na altura do rosto, na esperança de esconder a identidade.

É bem provável que, juridicamente, as denúncias não dêem em nada, tendo em vista o enorme poder político do governo no Estado e da prefeitura. Mas, pelo menos o desgaste foi, surpreendentemente, nacional. E serve de alerta, como tantas vezes o Rogerio já disse por aqui, para quem insiste em votar no PFL — alerta que deve novamente ficar vermelho com o crescimento nas intenções de votos em pesquisa de Roseana Sarney.

André Tezza Consentino, 28, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

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