Uma semana realmente diferente,
esta última. O fracasso, pelo menos temporário, da venda
da Copel, já é um alento. Mas, melhor, que bela novidade, a
imprensa nacional começou a descobrir que, usando as palavras
do Bagual, aqui no Paraná se rouba muito, mas muito mais do
que no Pará. Chega até a ser constrangedor assistirmos às denúncias
de envolvimento do PT com o jogo do bicho no Rio Grande do Sul
— as quantias são da ordem de 80.000 reais. Nós, de Curitiba,
somos ladrões de primeiro mundo, escondemos mais de 30 milhões
de reais na prestação de contas da última campanha municipal.
Aliás, o fato de a Folha de São Paulo ter veiculado o escândalo,
por si só já é uma notícia de primeira página. Até porque a
imprensa local já havia publicado as denúncias (sem provas tão
contundentes, é verdade) — mas, como é comum acontecer por aqui,
quando as notícias saem na Folha do Paraná, ou em qualquer outro
órgão de imprensa diferente daquele que é o hegemônico, a repercussão
acontece somente no interior do Estado, em especial no Norte.
Não por acaso, da última vez que teve coragem de visitar a região
de Londrina sem qualquer tipo de disfarce, o governador quase
foi linchado em público.
Depois da manchete de primeira página da Folha de São Paulo,
houve repercussão nacional e os eleitores de Taniguchi diziam
em silêncio que, ora, todos políticos do Brasil fazem caixa
2. É uma verdade difícil de ser contestada — e, até o PT, que
se supunha austero na defesa da ética, está se embananando em
São Paulo e no Rio Grande do Sul com denúncias semelhantes.
Aliás, a própria declaração de contas de Vanhoni ao TRE, um
pouco mais de 1 milhão de reais, é pra lá de suspeita. Entretanto,
o que de fato chama a atenção, no caso de prefeitura de Curitiba,
não é a simples existência do caixa 2. No começo do começo,
em primeiro lugar, é a fantástica quantia envolvida. Quando
a população terá consciência de que campanhas milionárias não
são só bonitas e atraentes? Parece óbvio, mas não pareceu óbvio
para a maioria dos eleitores que elegeram Taniguchi, que nenhum
empresário doa dinheiro por caridade a um político. Cada centavo
de uma campanha eleitoral será devolvido posteriormente com
juros, correção monetária e vitórias obscuras em licitações,
ou então, favorecimentos de impostos. Na época, quem não se
lembra, era fácil perceber que se tratava de um empreendimento
faraônico — mas isto só era insulto para poucos. Não havia um
sinaleiro em Curitiba sem um cabo eleitoral. Nos outdoors, nos
postes, na quantidade de camisetas e adesivos, os números de
Taniguchi eram assustadores. Como também foi assustadora a cobertura
da imprensa local para a eleição — quase uma extensão da programação
do PFL no horário eleitoral.
O segundo ponto que chama a atenção nas denúncias é, naturalmente,
a sua origem. Desta vez não foram as grosserias de Requião,
os barbudos do PT, os estudantes vagabundos, ou toda aquela
imagem caricata da oposição que é veiculada sistematicamente
na propaganda oficial do Estado — lembrando, sem tirar nem pôr,
a estratégia da indústria cultural nazista de desqualificar
violentamente qualquer pensamento plural ou diferente. Não,
desta vez não foram eles — foi o maior jornal do país, representado
por um dos jornalistas mais brilhantes de sua geração, Fernando
Rodrigues. E, para completar, segundo a boataria mais do que
provável, os documentos não foram fornecidos pela oposição,
mas pelo ex-secretário da fazenda de Lerner. A estratégia da
Folha de São Paulo, diga-se de passagem, foi brilhante. Uma
armadilha fina, na qual o prefeito caiu com uma ingenuidade
espantosa. Após a primeira manchete, no dia 6 de novembro, terça-feira,
Taniguchi apressou-se em responder grosso, dizendo que tudo
não passava de uma manobra da oposição, em especial do senador
Roberto Requião. E mais: afirmou que todo o financiamento de
sua campanha estava a cargo de um comitê financeiro legalmente
constituído, composto por três pessoas. Foi aqui que o prefeito
colocou a corda em seu pescoço, na expressão do jornalista da
Folha. Porque, o que Taniguchi não sabia e o Brasil inteiro
soube no dia seguinte, é que Fernando Rodrigues havia entrevistado
Francisco Paladino Júnior, o tesoureiro da campanha do
PFL — uma das três pessoas do comitê de Taniguchi. E, a manchete
da Folha, na quarta-feira, foi bombástica: “Tesoureiro confirma
papéis da campanha do PFL em Curitiba”. Foi uma quarta-feira
negra para a situação. Todos os jornais estavam procurando pelo
prefeito, que simplesmente sumiu. Como também sumiram toda a
tropa de choque do governo e mesmo o governador Jaime Lerner.
É uma atitude não muito diferente daqueles criminosos que, quando
presos na presença da imprensa, puxam a camisa na altura do
rosto, na esperança de esconder a identidade.
É bem provável que, juridicamente, as denúncias não dêem em
nada, tendo em vista o enorme poder político do governo no Estado
e da prefeitura. Mas, pelo menos o desgaste foi, surpreendentemente,
nacional. E serve de alerta, como tantas vezes o Rogerio já
disse por aqui, para quem insiste em votar no PFL — alerta que
deve novamente ficar vermelho com o crescimento nas intenções
de votos em pesquisa de Roseana Sarney.