Edição de 10.12 a 17.12.2001



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Uma ou duas lições da Bauhaus

O design não é, necessariamente, o obscurecimento da essência

A partir desta semana, os leitores de Nosotros poderão navegar em um novo projeto gráfico. Novas tipias, uma tentativa de logomarca, diagramação mais simples e funcional, outras cores e, quando possível, fotos. Fiz com a Francis toda a reformulação do site - trabalho que não consumiu mais do que duas ou três noites pilotando o Photoshop ou o Dreamweaver. A idéia não era desenvolver uma megaoperação plástica ou ambicionar a vanguarda, mas, simplesmente, deixar o site mais fácil para a leitura e a navegação.

A reformulação faz parte de uma nova fase de Nosotros que se inicia esta semana, com mais colaboradores e ampliação do conteúdo editorial. Para os leitores desconfiados, pra quem acha que maquiagem é frescura, eu mesmo vou questionar - design é importante? Até que ponto o design realmente tem alguma função na sociedade que não simplesmente estimular uma estética vazia e inócua? Revistas, jornais, sites, redes de TV e editoras gastam milhões em comunicação visual - não valeria mais a pena investir na qualidade da informação verbal? No final das contas, você compra literatura pela capa do livro ou pelo autor? O design, no fundo, não é simplesmente o obscurecimento da essência?

São questões mais antigas do que parecem - e bem anteriores ao design da era industrial. Mas, algo é certo por aqui - a busca de um ideal estético, mesmo quando desvinculada de questões metafísicas ou éticas, faz parte da condição humana. E é decididamente universal - está tanto no desejo de ornamento de uma coluna grega quanto na decoração de um templo budista. Não são poucos os que acham que a procura da beleza, do belo, é uma consolação para a inevitabilidade da morte e, por isso, está tão presente na história das civilizações - tanto quanto o mito. Pintamos uma parede, penduramos um quadro, ornamos um móvel, planejamos a arquitetura de um edifício porque assim, ainda que efeito efêmero, aliviamos o peso de nossa existência. Não há nada de muito perigoso nisto - driblar a morte faz parte da natureza humana. O problema é que, depois da revolução industrial, estes valores acabaram ganhando proporções inéditas. E, não raro, motivaram, dentro de uma certa esquerda apocalíptica, um sentimento de aversão a qualquer estética desprovida de senso crítico. Quer ver? Um argumento conhecido: dentro de uma sociedade industrializada, entreter a existência tornou-se um imperativo único. O design acabou se materializando como um artifício - o desejo de um simulacro hedonista da realidade - é a solução técnica que viabiliza a utopia da felicidade consumista. Ou melhor, que viabiliza uma ilusão de felicidade somente para aqueles que têm acesso ao consumo. O discurso do prazer revelou-se de tal forma hegemônico que a própria consciência está agora ameaçada.

Há muita justiça nestes argumentos, mas, esta é uma crítica que precisa ser afinada melhor. Por incrível que pareça, o início do design moderno é absolutamente dissonante do prognóstico da esquerda apocalíptica. Muito pelo contrário - o design surgiu entre pensadores socialistas, mais precisamente de Walter Gropius, o fundador de uma escola com métodos e objetivos revolucionários: a Bauhaus. Aqui começa um dos principais divisores de água do século XX. A idéia de Gropius, ele próprio um arquiteto excepcional, era socializar o artesanato. Era trazer o artesanato para os trilhos da revolução industrial e, assim, reproduzir o belo para todos - realizar a democracia da estética. Para os críticos, que o acusavam da padronização, da massificação da invenção, Gropius respondia que um indivíduo inteligente é capaz de uma leitura original. Para ele, este era o grande desafio da modernidade: a formação de sujeitos capazes de lidar com o plural dentro daquilo que se tornara inevitável com a industrialização - o padrão. A melhor prova de que a Bauhaus não era simplesmente a imposição de um certo modelo massificado (ou a formação de uma sociedade destituída de consciência) é a sua própria história. Fundada em 1919, em Weimar, foi fechada logo em seguida, em 1925, acusada de ideologia aberta. Gropius então a transfere para Dessau. Mas, em 1933, com ascensão de Hitler, a escola foi fechada novamente - afinal, claro, o nazismo não era simplesmente uma idéia de controle de estado, mas também uma inequívoca determinação de imposição estética. A partir de então, a Bauhaus se transfere para Chicago.

Se você quiser ter uma idéia da extensão da revolução da Bauhaus, pense nos móveis das casas. Até o século XIX, os móveis eram pequenos e pesados monumentos, lentamente produzidos e, portanto, caríssimos. Em 1926, com Breuer, um dos expoentes da Bauhaus, surge a poltrona Wassili, a primeira peça desenhada em tubos metálicos. É uma pequena jóia da invenção - uma cadeira simples, não muito diferente destas que encontramos até hoje em todo o mundo. Enfim, artesanato imbuído de estética e para todos. E estética a prova de qualquer dúvida: Paul Klee e Kandinsky foram professores da Bauhaus. Possivelmente o ideal da socialização do artesanato tenha se perdido no design contemporâneo.


Poltrona Wassili.

Possivelmente estejamos mesmo vivendo uma histeria do discurso do prazer. Às vezes, por exemplo, me irrito com o queridinho dos designers contemporâneos - David Carson. Pra quem não nunca ouviu falar (é natural, porque é um nome que só existe dentro de um restrito vocabulário tribal), o trabalho de Carson revolucionou o layout das revistas norte-americanas, notoriamente a Wired. Alguns anos atrás, a revista Trip o contratou para uma reformulação gráfica completa. O estilo do homem é lindo, de fato, e, por incrível que pareça, algumas páginas de Carson fazem parte do acervo do MOMA de Nova Iorque.

Mas, sinceramente, só posso imaginar que quem aprecia incondicionalmente o trabalho Carson não tem muita afinidade com a leitura - o texto é todo sujo, torto, manchado. Os parágrafos não seguem nenhuma lógica e as letras podem desaparecer sem explicação aparente. Vamos dizer assim: se você está interessado em ler, um desprazer para a maioria, o layout pode se tornar um meticuloso exercício de paciência - neste caso, sou chato, o design é o próprio obscurecimento da essência. Enfim, no final das contas, nem 8 ou 80. Sem excessos, sem razão de vida, o design pode servir para o nutrir o espírito humano. Como dizia uma banda que gostei na adolescência - a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte.

André Tezza Consentino, 28 anos, é publicitário e casado com a Fran.


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