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Uma ou duas lições da
Bauhaus O design não é, necessariamente, o obscurecimento da
essência
A partir desta semana, os leitores de Nosotros poderão
navegar em um novo projeto gráfico. Novas tipias, uma tentativa de
logomarca, diagramação mais simples e funcional, outras cores e,
quando possível, fotos. Fiz com a Francis toda a reformulação do
site - trabalho que não consumiu mais do que duas ou três noites
pilotando o Photoshop ou o Dreamweaver. A idéia não era desenvolver
uma megaoperação plástica ou ambicionar a vanguarda, mas,
simplesmente, deixar o site mais fácil para a leitura e a navegação.
A reformulação faz parte de uma nova fase de Nosotros que se
inicia esta semana, com mais colaboradores e ampliação do conteúdo
editorial. Para os leitores desconfiados, pra quem acha que
maquiagem é frescura, eu mesmo vou questionar - design é importante?
Até que ponto o design realmente tem alguma função na sociedade que
não simplesmente estimular uma estética vazia e inócua? Revistas,
jornais, sites, redes de TV e editoras gastam milhões em comunicação
visual - não valeria mais a pena investir na qualidade da informação
verbal? No final das contas, você compra literatura pela capa do
livro ou pelo autor? O design, no fundo, não é simplesmente o
obscurecimento da essência?
São questões mais antigas do que parecem - e bem anteriores ao
design da era industrial. Mas, algo é certo por aqui - a busca de um
ideal estético, mesmo quando desvinculada de questões metafísicas ou
éticas, faz parte da condição humana. E é decididamente universal -
está tanto no desejo de ornamento de uma coluna grega quanto na
decoração de um templo budista. Não são poucos os que acham que a
procura da beleza, do belo, é uma consolação para a inevitabilidade
da morte e, por isso, está tão presente na história das civilizações
- tanto quanto o mito. Pintamos uma parede, penduramos um quadro,
ornamos um móvel, planejamos a arquitetura de um edifício porque
assim, ainda que efeito efêmero, aliviamos o peso de nossa
existência. Não há nada de muito perigoso nisto - driblar a morte
faz parte da natureza humana. O problema é que, depois da revolução
industrial, estes valores acabaram ganhando proporções inéditas. E,
não raro, motivaram, dentro de uma certa esquerda apocalíptica, um
sentimento de aversão a qualquer estética desprovida de senso
crítico. Quer ver? Um argumento conhecido: dentro de uma sociedade
industrializada, entreter a existência tornou-se um imperativo
único. O design acabou se materializando como um artifício - o
desejo de um simulacro hedonista da realidade - é a solução técnica
que viabiliza a utopia da felicidade consumista. Ou melhor, que
viabiliza uma ilusão de felicidade somente para aqueles que têm
acesso ao consumo. O discurso do prazer revelou-se de tal forma
hegemônico que a própria consciência está agora ameaçada.
Há muita justiça nestes argumentos, mas, esta é uma crítica que
precisa ser afinada melhor. Por incrível que pareça, o início do
design moderno é absolutamente dissonante do prognóstico da esquerda
apocalíptica. Muito pelo contrário - o design surgiu entre
pensadores socialistas, mais precisamente de Walter Gropius, o
fundador de uma escola com métodos e objetivos revolucionários: a
Bauhaus. Aqui começa um dos principais divisores de água do século
XX. A idéia de Gropius, ele próprio um arquiteto excepcional, era
socializar o artesanato. Era trazer o artesanato para os trilhos da
revolução industrial e, assim, reproduzir o belo para todos -
realizar a democracia da estética. Para os críticos, que o acusavam
da padronização, da massificação da invenção, Gropius respondia que
um indivíduo inteligente é capaz de uma leitura original. Para ele,
este era o grande desafio da modernidade: a formação de sujeitos
capazes de lidar com o plural dentro daquilo que se tornara
inevitável com a industrialização - o padrão. A melhor prova de que
a Bauhaus não era simplesmente a imposição de um certo modelo
massificado (ou a formação de uma sociedade destituída de
consciência) é a sua própria história. Fundada em 1919, em Weimar,
foi fechada logo em seguida, em 1925, acusada de ideologia aberta.
Gropius então a transfere para Dessau. Mas, em 1933, com ascensão de
Hitler, a escola foi fechada novamente - afinal, claro, o nazismo
não era simplesmente uma idéia de controle de estado, mas também uma
inequívoca determinação de imposição estética. A partir de então, a
Bauhaus se transfere para Chicago.
Se você quiser ter uma idéia da extensão da revolução da Bauhaus,
pense nos móveis das casas. Até o século XIX, os móveis eram
pequenos e pesados monumentos, lentamente produzidos e, portanto,
caríssimos. Em 1926, com Breuer, um dos expoentes da Bauhaus, surge
a poltrona Wassili, a primeira peça desenhada em tubos metálicos. É
uma pequena jóia da invenção - uma cadeira simples, não muito
diferente destas que encontramos até hoje em todo o mundo. Enfim,
artesanato imbuído de estética e para todos. E estética a prova de
qualquer dúvida: Paul Klee e Kandinsky foram professores da Bauhaus.
Possivelmente o ideal da socialização do artesanato tenha se perdido
no design contemporâneo.

Poltrona
Wassili.
Possivelmente estejamos mesmo vivendo uma histeria do discurso do
prazer. Às vezes, por exemplo, me irrito com o queridinho dos
designers contemporâneos - David Carson. Pra quem não nunca ouviu
falar (é natural, porque é um nome que só existe dentro de um
restrito vocabulário tribal), o trabalho de Carson revolucionou o
layout das revistas norte-americanas, notoriamente a Wired. Alguns
anos atrás, a revista Trip o contratou para uma reformulação gráfica
completa. O estilo do homem é lindo, de fato, e, por incrível que
pareça, algumas páginas de Carson fazem parte do acervo do MOMA de
Nova Iorque.
Mas, sinceramente, só posso imaginar que quem aprecia
incondicionalmente o trabalho Carson não tem muita afinidade com a
leitura - o texto é todo sujo, torto, manchado. Os parágrafos não
seguem nenhuma lógica e as letras podem desaparecer sem explicação
aparente. Vamos dizer assim: se você está interessado em ler, um
desprazer para a maioria, o layout pode se tornar um meticuloso
exercício de paciência - neste caso, sou chato, o design é o próprio
obscurecimento da essência. Enfim, no final das contas, nem 8 ou 80.
Sem excessos, sem razão de vida, o design pode servir para o nutrir
o espírito humano. Como dizia uma banda que gostei na adolescência -
a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte.
André
Tezza Consentino, 28 anos, é publicitário e casado com a
Fran.
[email protected]
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