Pode parecer estranho, mas,
antes, antes de tudo, eu queria ser engenheiro. Engenharia
elétrica com ênfase em eletrônica e telecomunicações - taí o
pomposo nome do curso que freqüentei durante sete intermináveis
meses. Possivelmente aquele foi o pior ano da minha vida - o
Cefet, dez anos atrás, foi mesmo uma experiência terrível. É
o tipo de instituição que ganha cinco estrelinhas em todos os
guias de Universidades, mas, se o seu negócio não são os números,
fuja de lá como o diabo foge da cruz. Sinceridade, mesmo que
você tenha jeito para a coisa, não recomendo o Cefet. Hummmm...
O problema é mais complexo do que parece.
Passado, presente. Qualquer engenheiro ou estudante de exatas
sabe o que são as aulas de cálculo integral. É o lastro fundamental
do curso - a pedra em que todas as outras disciplinas se sustentam
- reprove aqui e, pronto, dificilmente o canudo vem em cinco
anos. Só que cálculo, no Cefet, não era simplesmente cálculo.
Cálculo era a disciplina do Pires. E nada poderia ser mais representativo,
a perfeita personificação do Cefet, do que o Pires.
A lenda vinha de longe. Duas turmas inteiras, 100% de reprovação.
Média habitual de, em uma turma de 40, 5 aprovados. Figura grande,
um pouco corpulenta, Pires gostava de usar jeans e camisas mal
passadas, sempre com o bolso do peito vazio - dizia que era
ali que guardava o épsilon, variável da definição de limite.
O problema do Pires não era sua disciplina severa, o épsilon,
suas caspas ou não saber dar aulas. Na época, não sabíamos disso
- não gostávamos dele simplesmente por desejar o diploma da
forma menos estressante possível. Aliás, vale a observação que
quando me dei conta que era um dos piores alunos de cálculo
da minha turma e, estranhamente, o melhor cabra da psicologia
- o único vestígio de ciências humanas da faculdade, uma matéria
absolutamente alienígena dentro do Cefet - entendi que aquele
era o momento certo de pular o muro e fugir logo para a comunicação,
aos 18 anos. Ainda havia tempo disponível.
Pires. O grande problema do Pires não era sua visão absolutamente
equivocada de mundo. Para ele, as únicas duas informações que
precisávamos na vida eram o número do telefone e o endereço
de casa. O resto, dizia todo satisfeito, era facilmente obtido
por demonstração. Assim, em um raciocínio delirante, aprendíamos
que a matemática era supostamente superior à história ou a sociologia
- nada de decorar nomes ou conceitos, só a grandeza da demonstração.
Existe um lado bom de se pensar assim: para a matemática, de
fato, melhor saber demonstrar as fórmulas do que simplesmente
empilhá-las, uma a uma, na memória. Mas, existe um lado terrivelmente
ruim - o Pires, assim como o todo Cefet, era incapaz de perceber
que, sem um mínimo de história ou de sociologia, somos prisioneiros
e vítimas da cultura do presente — sujeitos incapazes de lidar
com a complexidade dos fenômenos que nos cercam. O Cefet sabe
formar, com perfeição, especialistas dos números. São profissionais
que dominam, com espantoso talento, a resolução de uma equação.
Mas, a que preço?
Bem, sobre isto, Darcy Ribeiro costumava contar uma historinha
ótima. Historinha, não, um pequeno mal-estar, uma parábola ácida
que deveria fazer parte de qualquer instituição de ensino. Dizia
ele que, em algum ponto perdido do futuro, a humanidade descobriria
que um grande asteróide atingiria, fulminante, a terra. Os humanos,
cientes de tal tragédia, acabariam se unindo na construção de
uma espaçonave, com o objetivo de colonizar um outro planeta
e, assim, salvar a espécie. O problema é que, como a espaçonave
não era de todo modo espaçosa, poucos sortudos iriam safar-se
do apocalipse e somente alguns eleitos sobreviveriam. No momento
decisivo para o preenchimento da última vaga, a civilização
deveria eleger um entre dois candidatos. Um deles era feirante.
O outro, cientista. Se a decisão coubesse a você, quem se salvaria?
Darcy Ribeiro dizia que valia mais a pena investir no feirante.
Porque um cientista é alguém que sabe quase tudo, uma imensidão
de informação, a cerca de quase nada - o comportamento do elétron.
Já o feirante é alguém que sabe um pouquinho sobre quase tudo
- plantar, consertar a torneira, criar os filhos e, às vezes,
estabelecer uma relação de diálogo com o mundo até mais sofisticada
do que o cientista enclausurado. Claro, há um certo tom de brincadeira
nesta historinha, mas, também uma crítica mordaz a uma das manifestações
mais nocivas da formação cultural e profissional contemporânea:
a ultra-especialização. A parábola de Darcy Ribeiro poderia
muito bem servir de resumo para um dos assuntos prediletos de
um pensador francês cada dia mais imprescindível: Edgar Morin.
Este tema, o seccionar incessante do conhecimento, é a motivação
de vários livros de Morin. Mas, há um, lançado recentemente,
que eu especialmente recomendaria. É o resultado de uma encomenda
do ministério da educação francês com o objetivo de reformar
o ensino: A Cabeça Bem-feita. O título vem de um aforismo de
Montaigne - “Mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça
bem-cheia”. Não é difícil traduzir - mais vale uma cabeça que
saiba interpretar os fenômenos que nos cercam do que simplesmente
acumular ou empilhar a informação especializada. Num mundo em
que, na observação de Morin, uma crise nas bolsas asiáticas
interfere decisivamente no avanço social do Brasil, não é mais
possível isolarmos as partes, não é mais possível focarmos mecanismos
cada vez mais minúsculos de interferência do todo - a economia
tradicional, por exemplo, é um instrumento quase inútil no entendimento
das crises mundiais.
Para Morin, a interdisciplinaridade torna-se a matéria prima
para repensar a reforma e para reformar o pensamento - na medida
em que o pensamento se cindiu em dois pólos aparentemente irreconciliáveis:
de um lado, as ciências humanas, do outro, as ciências naturais
e exatas. O interessante é que, cada um destes pólos tende a
menosprezar o conhecimento que não é de sua alçada. Então, para
o sociólogo, a tecnologia freqüentemente é vista com desconfiança
e, não raro, um simples conjunto de saber abstrato ou ameaçador.
Já para o cientista, o conhecimento humanístico é, como diz
Morin, uma “espécie de ornamento ou luxo estético” - enfim,
uma inutilidade, visão que Pires facilmente corroboraria. Enfim,
o papel do ensino, para Morin, é formar cabeças bem-feitas,
isto é, cabeças que saibam organizar o pensamento, associar
o saber, a ligação em detrimento da separação. Tudo isto, claro,
sem prescindir das faculdades da razão, da arte da argumentação
e da discussão.
Semana que vem continuo com Morin.