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Carta branca para André Tezza Consentino

Última atualização 26/11/2001

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Soluções complexas para um mundo complexo

André Tezza Consentino

Pode parecer estranho, mas, antes, antes de tudo, eu queria ser engenheiro. Engenharia elétrica com ênfase em eletrônica e telecomunicações - taí o pomposo nome do curso que freqüentei durante sete intermináveis meses. Possivelmente aquele foi o pior ano da minha vida - o Cefet, dez anos atrás, foi mesmo uma experiência terrível. É o tipo de instituição que ganha cinco estrelinhas em todos os guias de Universidades, mas, se o seu negócio não são os números, fuja de lá como o diabo foge da cruz. Sinceridade, mesmo que você tenha jeito para a coisa, não recomendo o Cefet. Hummmm... O problema é mais complexo do que parece.

Passado, presente. Qualquer engenheiro ou estudante de exatas sabe o que são as aulas de cálculo integral. É o lastro fundamental do curso - a pedra em que todas as outras disciplinas se sustentam - reprove aqui e, pronto, dificilmente o canudo vem em cinco anos. Só que cálculo, no Cefet, não era simplesmente cálculo. Cálculo era a disciplina do Pires. E nada poderia ser mais representativo, a perfeita personificação do Cefet, do que o Pires.

A lenda vinha de longe. Duas turmas inteiras, 100% de reprovação. Média habitual de, em uma turma de 40, 5 aprovados. Figura grande, um pouco corpulenta, Pires gostava de usar jeans e camisas mal passadas, sempre com o bolso do peito vazio - dizia que era ali que guardava o épsilon, variável da definição de limite. O problema do Pires não era sua disciplina severa, o épsilon, suas caspas ou não saber dar aulas. Na época, não sabíamos disso - não gostávamos dele simplesmente por desejar o diploma da forma menos estressante possível. Aliás, vale a observação que quando me dei conta que era um dos piores alunos de cálculo da minha turma e, estranhamente, o melhor cabra da psicologia - o único vestígio de ciências humanas da faculdade, uma matéria absolutamente alienígena dentro do Cefet - entendi que aquele era o momento certo de pular o muro e fugir logo para a comunicação, aos 18 anos. Ainda havia tempo disponível.

Pires. O grande problema do Pires não era sua visão absolutamente equivocada de mundo. Para ele, as únicas duas informações que precisávamos na vida eram o número do telefone e o endereço de casa. O resto, dizia todo satisfeito, era facilmente obtido por demonstração. Assim, em um raciocínio delirante, aprendíamos que a matemática era supostamente superior à história ou a sociologia - nada de decorar nomes ou conceitos, só a grandeza da demonstração. Existe um lado bom de se pensar assim: para a matemática, de fato, melhor saber demonstrar as fórmulas do que simplesmente empilhá-las, uma a uma, na memória. Mas, existe um lado terrivelmente ruim - o Pires, assim como o todo Cefet, era incapaz de perceber que, sem um mínimo de história ou de sociologia, somos prisioneiros e vítimas da cultura do presente — sujeitos incapazes de lidar com a complexidade dos fenômenos que nos cercam. O Cefet sabe formar, com perfeição, especialistas dos números. São profissionais que dominam, com espantoso talento, a resolução de uma equação. Mas, a que preço?

Bem, sobre isto, Darcy Ribeiro costumava contar uma historinha ótima. Historinha, não, um pequeno mal-estar, uma parábola ácida que deveria fazer parte de qualquer instituição de ensino. Dizia ele que, em algum ponto perdido do futuro, a humanidade descobriria que um grande asteróide atingiria, fulminante, a terra. Os humanos, cientes de tal tragédia, acabariam se unindo na construção de uma espaçonave, com o objetivo de colonizar um outro planeta e, assim, salvar a espécie. O problema é que, como a espaçonave não era de todo modo espaçosa, poucos sortudos iriam safar-se do apocalipse e somente alguns eleitos sobreviveriam. No momento decisivo para o preenchimento da última vaga, a civilização deveria eleger um entre dois candidatos. Um deles era feirante. O outro, cientista. Se a decisão coubesse a você, quem se salvaria?

Darcy Ribeiro dizia que valia mais a pena investir no feirante. Porque um cientista é alguém que sabe quase tudo, uma imensidão de informação, a cerca de quase nada - o comportamento do elétron. Já o feirante é alguém que sabe um pouquinho sobre quase tudo - plantar, consertar a torneira, criar os filhos e, às vezes, estabelecer uma relação de diálogo com o mundo até mais sofisticada do que o cientista enclausurado. Claro, há um certo tom de brincadeira nesta historinha, mas, também uma crítica mordaz a uma das manifestações mais nocivas da formação cultural e profissional contemporânea: a ultra-especialização. A parábola de Darcy Ribeiro poderia muito bem servir de resumo para um dos assuntos prediletos de um pensador francês cada dia mais imprescindível: Edgar Morin.

Este tema, o seccionar incessante do conhecimento, é a motivação de vários livros de Morin. Mas, há um, lançado recentemente, que eu especialmente recomendaria. É o resultado de uma encomenda do ministério da educação francês com o objetivo de reformar o ensino: A Cabeça Bem-feita. O título vem de um aforismo de Montaigne - “Mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia”. Não é difícil traduzir - mais vale uma cabeça que saiba interpretar os fenômenos que nos cercam do que simplesmente acumular ou empilhar a informação especializada. Num mundo em que, na observação de Morin, uma crise nas bolsas asiáticas interfere decisivamente no avanço social do Brasil, não é mais possível isolarmos as partes, não é mais possível focarmos mecanismos cada vez mais minúsculos de interferência do todo - a economia tradicional, por exemplo, é um instrumento quase inútil no entendimento das crises mundiais.

Para Morin, a interdisciplinaridade torna-se a matéria prima para repensar a reforma e para reformar o pensamento - na medida em que o pensamento se cindiu em dois pólos aparentemente irreconciliáveis: de um lado, as ciências humanas, do outro, as ciências naturais e exatas. O interessante é que, cada um destes pólos tende a menosprezar o conhecimento que não é de sua alçada. Então, para o sociólogo, a tecnologia freqüentemente é vista com desconfiança e, não raro, um simples conjunto de saber abstrato ou ameaçador. Já para o cientista, o conhecimento humanístico é, como diz Morin, uma “espécie de ornamento ou luxo estético” - enfim, uma inutilidade, visão que Pires facilmente corroboraria. Enfim, o papel do ensino, para Morin, é formar cabeças bem-feitas, isto é, cabeças que saibam organizar o pensamento, associar o saber, a ligação em detrimento da separação. Tudo isto, claro, sem prescindir das faculdades da razão, da arte da argumentação e da discussão.

Semana que vem continuo com Morin.

André Tezza Consentino, 28, é publicitário e sócio da agência Forward. Produz o "Teclas do Jazz", da Educativa FM.

 

 

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