Edição de 24.6 a 31.6.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Traidores, inversores edazes,
chusma de tunantes!

Caros amigos, (as, as), leitores, (as), senhoras, (es), meu devotado (rrotado) público (ico) fidelíssimo (digno),de confiança (umplicidade!).

Começamos a rodada de invectivas de hoje por uma série de meras e reles constatações sobre a língua que, um dia, foi a do bardo de Stratford, cujo nome nem não me ouso de mencionar.

Pois que em inglês uma CATHOLIC MASS há-de muito mais provavelmente ser uma missa católica que uma pasta universal. Da mesma maneira, uma LETTER YOU WROTE, cabe ser lida, em não havendo fortíssima evidência que sugira o contrário, como uma carta que escreveste e não uma letra que traçaste. HOP SCOTCH, como sabem todos os leitores de Cortázar, é nosso prosaico jogo de amarelinha, e a expressão EVERY SECOND NIGHT significa noite sim, noite não, e jamais o bissurdão que seria na grande maioria dos contextos sua traição literal, verbatim.

Peço perdão se tudo o que consegui até agora foi fazer recordar as aulinhas da tia Heloíse (Watch my mouth..). Mas o fato é que todo o contrário do que foi dito como óbvio aí acima encontrei recentemente em uma única tradução de um livro inglês. E ressalte-se que nem me dei à pachorra de procurar o original, anoto apenas deslizes tão tremendos que se expõem por si próprios. Como quando algúem assite a uma MASSA, recebe uma LETRA a CADA SEGUNDA NOITE e saltita COMO ESCOCÊS.

Ando há tempos com um prurido cívico e uma consciência de classe querendo ambos me motivar a escrever para uma editora ou várias reclamando da empulhação que sofre o indivíduo que apesar de tudo continua comprando livros e buscando lê-los cá em pindorama. O mesmo livro a que me refiro acima traz, sem qualquer exagero, catadupas de erros de revisão: é quase digna de nota a ocasião em que alguma pessoa aparece citada duas vezes da mesma maneira.
O pobre do dramaturgo irlandês John Synge já teve seu nome grafado de três formas diferentes e até agora não sei se uma italiana se chama Caetani ou Castani. Palavras com letras meramente embaralhadas pululam: coisas como qualuqer (que o inocente do Word insiste em corrigir sozinho em meu 486). E, pasmo em dizer, acredito que certas coisas enigmáticas escritas entre parênteses sejam realmente notas que a senhora dona tradutora (Lya Luft: boues nomina) deixou em algum momento de seu trabalho e que a anta do revisor (nec nominandum) teria deixado passar.

Trata-se de um clássico, editado por uma grande editora (Globo). Livro por que paguei mais de quarenta reais.
Entregue a uma senhora que não foi capaz de reconhecer que há um personagem porteiro em Macbeth e que conseqüentemente assigna uma citação à peça a um inexistente Porter. Revisado por alguém ou alguns que se permitiram uma desfaçatez que eu ou qualquer de meus alunos não teríamos com texto algum que revisássemos ou tenhamos revisado.

Sei que um revisor erudito e atento como o de Saramago em História do Cerco de Lisboa é uma quimera. Mas acredito poder contar com um mínimo de respeito de gente que cobra o que cobra pelos livros que eu e mais uma renca de desocupados continuamos lendo.

E sabem do que mais? Esse caso nem o pior é..
É apenas o momento em que me decidi a ouvir a voz da razão que roça minha orelha e andar munido de canetinha pra não esquecer as barbaridades. Já topei, apenas nesse ano, com pelo menos um caso inequívoco de uma tradução feita em programa de computador que passou por uma (porca) revisão pra dar cara de texto de verdade. Em outro livro de mais de quarenta reais.

A bem da boa e sã verdade, não acredito tenha havido um livro mais extenso que tenha lido nesse ano, isento de toda e qualquer gralha de revisão. Companhia das Letras, Ática, Globo: tudo a mesma merda.

Um mercado editorial se faz com livros, bons ou maus, bons tradutores, excelentes revisores e editores com algo na cabeça além de um extrato bancário.

Ah! e encadernações que não desmontem. Não se pode brincar com esse ramo.

Não se pode desrespeitar os profissionais (antes que meus colegas me queiram trucidar) com pagamentos ridículos e prazos irreais, que obviamente prejudicam o resultado final. Mas também, um pouco mais de decência, de ambas as partes, não há de fazer mal a ninguém. Ou senão continuamos brincando de editar.

Tenho dito.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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