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Traidores, inversores
edazes,
chusma de tunantes!
Caros
amigos, (as, as), leitores, (as), senhoras, (es), meu devotado (rrotado)
público (ico) fidelíssimo (digno),de confiança (umplicidade!).
Começamos
a rodada de invectivas de hoje por uma série de meras e reles constatações
sobre a língua que, um dia, foi a do bardo de Stratford, cujo nome
nem não me ouso de mencionar.
Pois
que em inglês uma CATHOLIC MASS há-de muito mais provavelmente ser
uma missa católica que uma pasta universal. Da mesma maneira, uma
LETTER YOU WROTE, cabe ser lida, em não havendo fortíssima evidência
que sugira o contrário, como uma carta que escreveste e não uma
letra que traçaste. HOP SCOTCH, como sabem todos os leitores de
Cortázar, é nosso prosaico jogo de amarelinha, e a expressão EVERY
SECOND NIGHT significa noite sim, noite não, e jamais o bissurdão
que seria na grande maioria dos contextos sua traição literal, verbatim.
Peço
perdão se tudo o que consegui até agora foi fazer recordar as aulinhas
da tia Heloíse (Watch my mouth..). Mas o fato é que todo o contrário
do que foi dito como óbvio aí acima encontrei recentemente em uma
única tradução de um livro inglês. E ressalte-se que nem me dei
à pachorra de procurar o original, anoto apenas deslizes tão tremendos
que se expõem por si próprios. Como quando algúem assite a uma MASSA,
recebe uma LETRA a CADA SEGUNDA NOITE e saltita COMO ESCOCÊS.
Ando
há tempos com um prurido cívico e uma consciência de classe querendo
ambos me motivar a escrever para uma editora ou várias reclamando
da empulhação que sofre o indivíduo que apesar de tudo continua
comprando livros e buscando lê-los cá em pindorama. O mesmo livro
a que me refiro acima traz, sem qualquer exagero, catadupas de erros
de revisão: é quase digna de nota a ocasião em que alguma pessoa
aparece citada duas vezes da mesma maneira.
O pobre do dramaturgo irlandês John Synge já teve seu nome grafado
de três formas diferentes e até agora não sei se uma italiana se
chama Caetani ou Castani. Palavras com letras meramente embaralhadas
pululam: coisas como qualuqer (que o inocente do Word insiste em
corrigir sozinho em meu 486). E, pasmo em dizer, acredito que certas
coisas enigmáticas escritas entre parênteses sejam realmente notas
que a senhora dona tradutora (Lya Luft: boues nomina) deixou em
algum momento de seu trabalho e que a anta do revisor (nec nominandum)
teria deixado passar.
Trata-se
de um clássico, editado por uma grande editora (Globo). Livro por
que paguei mais de quarenta reais.
Entregue a uma senhora que não foi capaz de reconhecer que há um
personagem porteiro em Macbeth e que conseqüentemente assigna uma
citação à peça a um inexistente Porter. Revisado por alguém ou alguns
que se permitiram uma desfaçatez que eu ou qualquer de meus alunos
não teríamos com texto algum que revisássemos ou tenhamos revisado.
Sei
que um revisor erudito e atento como o de Saramago em História do
Cerco de Lisboa é uma quimera. Mas acredito poder contar com um
mínimo de respeito de gente que cobra o que cobra pelos livros que
eu e mais uma renca de desocupados continuamos lendo.
E sabem
do que mais? Esse caso nem o pior é..
É apenas o momento em que me decidi a ouvir a voz da razão que roça
minha orelha e andar munido de canetinha pra não esquecer as barbaridades.
Já topei, apenas nesse ano, com pelo menos um caso inequívoco de
uma tradução feita em programa de computador que passou por uma
(porca) revisão pra dar cara de texto de verdade. Em outro livro
de mais de quarenta reais.
A bem
da boa e sã verdade, não acredito tenha havido um livro mais extenso
que tenha lido nesse ano, isento de toda e qualquer gralha de revisão.
Companhia das Letras, Ática, Globo: tudo a mesma merda.
Um
mercado editorial se faz com livros, bons ou maus, bons tradutores,
excelentes revisores e editores com algo na cabeça além de um extrato
bancário.
Ah!
e encadernações que não desmontem. Não se pode brincar com esse
ramo.
Não
se pode desrespeitar os profissionais (antes que meus colegas me
queiram trucidar) com pagamentos ridículos e prazos irreais, que
obviamente prejudicam o resultado final. Mas também, um pouco mais
de decência, de ambas as partes, não há de fazer mal a ninguém.
Ou senão continuamos brincando de editar.
Tenho
dito.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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