O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 12/08/2001

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Beatus sensu lato

Caetano Waldrigues Galindo

Um anjo me soprou, devagar e permanentemente, me induzindo a ressonância.

E hoje eu acredito.

Acima de qualquer coisa. Antes de qualquer coisa. Ou depois de vistas todas elas. Eu sou um músico, no sentido que o vulgo dá à palavra. Já volto a isso.

Esse ano completa vinte anos em que me envolvi, de alguma maneira, com a prática de música. Prática, porque mesmo antes disso tive a sorte imensa de ser filho de um cara que me fez passar a infância ouvindo música muito boa, tive a sorte imensa de ter um radinho a pilha que carregava no bolso de meu macacão desde minusculinho, tive a sorte imensa de ter uma mãe que usou seu primeiro salário pra me comprar um violão.

Toco sempre que posso, sofro por não. Preciso. Necessidades. Preciso dar aulas, preciso tocar, preciso de anjos.

Inflamei uns tendões da mão esquerda há dez anos, por estudo de técnica meio psicótico e mal guiado. Parei de brincar que tinha capacidade de ser profissional há oito. Mas, hoje, sou mais músico que qualquer outra coisa. Não se passa impunemente por qualquer contato verdadeiro com a prática musical. Isso muda você pro resto da tua vida. Teu modo de ouvir o mundo, teu modo de pensar as coisas, nada fica igual.

A música não é a única coisa. Acho que xadrez é assim, acho que matemática. Acho que no fundo qualquer coisa que você faça longamente e apaixonadamente é assim. Mas ninguém me tira da cabeça que música é mais bonito. Ninguém me tira da cabeça o fato de que, como li uma vez, bem novinho, esses três campos que citei são a praça única dos meninos prodigiosos. Parecem ir além da prática racional. Uma criança, aparentemente, pode nascer pronta pra isso. O que não impede qualquer um de nós de entrar no brinquedo.

Música, também, é mais fácil de fazer longamente, e apaixonadamente. Ela pode te acompanhar durante toda uma vida, como mulher, amante, ou filha, como homem, como filho. Ela nunca te larga. Ela está, ou pode estar, somente na tua cabeça. Música independe de suporte. A música só existe em você e, de certa forma, pra você.

*

Me sinto como Moretti em Aprile. Todos precisam saber disso. Preciso contar ao mundo.

Dêem isso a si mesmos e a suas crianças. Minha filha de quatro anos tem um violão desde os dois. Criemos um mundo de músicos em sentido amplo, e duvido que não saia melhor que esse de agora.

*

(
Os músicos, de fato, costumam, curiosamente, usar a palavra como um supremo elogio. Já ouvi, por exemplo, Marco Pereira, que de amador não tem absolutamente nada, dizer que tinha armado certas delicadezas harmônicas em sua versão do Frevo do Gismonti e que o Gismonti, claro, tinha percebido e comentado com ele. O cara, afinal, era "músico", dizia ele, pleno de admiração.

Esses, os de-fato, por vezes sofrem muito. Crianças-prodígios sofrem muito. Música stricto sensu é dolorosa. Quem já presenciou o ambiente de um conservatório sabe que há poucos lugares mais competitivos ou menos amistosos. Músicos não são (ao menos não todos) seres especiais, mas estão em contato com o sublime como, acredito, só talvez religiosos e matemáticos possam estar. E sabem disso. E se engalfinham por um lugar mais próximo dele e do reconhecimento dessa posição. E apanham muito e muito dolorosamente, dos outros e do monstro que tentam dominar, e que é imenso.

*

Eu não valho nada. Minha opinião não vale nada. Mas vocês podem acreditar em mim, pra economizar o tempo de espera por um anjo que lhes diga o mesmo. Esses às vezes demoram uma vida.

Sejamos músicos em sentido irrestrito. Sejamos muito mais felizes, lato sensu.

Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

 

 

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