O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 30/07/2001

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Aureae Mediocritates

Caetano Waldrigues Galindo

1.
Augusto de Campos é um tradutor de uma estirpe que deve contar com uma meia dúzia de uns três ou quatro quenenques pelo mundo. O cara é fodíssimo.

Anthony Burgess, buscando redefinir o jogo verbal de Joyce no Finnegans Wake -que ultrapassava o trocadilho, a paronomásia e mesmo o Porte-manteau de Carroll - afetava dúvida e terminava por declarar que a palavra que ele buscava para caracterizar/iconizar o processo era uma palavra como.. não.. era a própria palavra. Jabberwocky!

O Jaguadarte com que Augusto de Campos traduz o dito poema sempre me pareceu um conceito igualmente poderoso, auto-explicativo, para a área da tradução.

O homem é foda. Ele traduziu o Wreck of the Deutschland, poema que eu, e qualquer pessoa de bom-senso, só não julgava intraduzível porque nada é. Só que tem certas coisas que é melhor não tentar, para bem e seguridade do autor, da obra, do leitor e da saúde pública do tradutor. E o safado traduziu com uma competência de dar raiva.

Meu principal sentimento lendo oitenta por cento das traduções dele que já pude ler foi sempre a raiva. Filho da puta. Até ele mexer com o Wreck, aí virou inveja mesmo das mais consumadas. O poema é lindo, duríssimo, difícil, impossível. Lindo, acima de tudo. E, traduzido, continua difícil, continua estranho; duro. Mas continua lindo.

2.
Mas.

O título desse texto faz referência a duas mediocridades tidas por áureas, e até agora só se falou do que de veramente áureo. Hmm..

Uma é minha. (Brilhantíssima.) Simplesmente adorar que as coisas e especialmente as pessoas que as produzam sejam bem quadradinhas adoráveis ou detestáveis. Pretas ou brancas. Deve de ser trauma de gente ruça. Por exemplo. Adoraria banir tudo o que o dito movimento concretista produziu na história da literatura brasileira. Assim. De cambulhada. É assim que eu gosto, sabe? Burro a não mais poder..

E, sabe o que mais, realmente não teria dificuldade em fazê-lo olhando toda a poesia que, até hoje, conheci de Pignataris, Haroldos e Augustos, Chamies e quetais. E quejandos! Mas aí vem o filho da puta e me resolve traduzir coisas lindas, traduzir coisas difíceis e mantê-las lindas em muito bom português versado. Isso me incomoda barbaridade. Ter de ficar abrindo ressalvas. Apesares de quês.

Então, do alto da minha mediocridade, resolvo me conscientizar de que só a minha é que mesmo existe, e que deve de ser ela a fonte de todos os males que observo.

Aí me refestelo. O senhor Haroldo, o irmão mais bobo do translator maximus, me publica, na folha de São Paulo, um POEMA INÉDITO. Poema inédito de HAROLDO DE CAMPOS merece ser publicado no maior jornal do Brasil, afinal de contas.

Se nego, terminantemente neguinha, a republicar aqui a coprorragia do senhor Campos. Quem quiser que vá lá ver. Cês confiam em mim? Era de dar dó de rúim. Infantilóide em trocadilhos, simplório no que se pretendia crítica social, ou econômica. Banal, banal e bobo..

Aí me refestelo (gente pequena funciona assim, caso vocês não saibam), com a mediocridade observada no mundo exterior a meu umbigo gordo.

Como é que um senhor de alguma idade e bastantes leituras e vernizes escreve uma porcaria daquela? Como é que um INTELECTUAL, um POETA, se resolve a, depois de, em um acesso qualquer, eventualmente cometer aquilo, dar-lhe voz imediata, sem nem mesmo o benefício da dúvida no fundo, bem no fundo, da gaveta? Como é que o maior jornal do Brasil dá espaço pra que esse senhor publique a merda que bem entender? E publicar em boxzinho destacado, texto marginal (como não poderia deixar de ser) explicando recursos sutilíssimos mesmo de tipografia, e, cúmulo das desgraças, cúmulo da hilaridade, foto do referido senhor em meio a sua biblioteca (mais ou menos como aqueles advogados posando em frente a uma bela coleção de livros de lombada igual) e, pasmem, senhores leitores, cajado na mão! Uma pose que já lhe é clássica, e que misteriosamente não pode deixar de me evocar claras ligações com o maior de nossos ESCRITORES, o senhor cavaleiro da ordem da pena rombuda Paulo Coelho de Alencastro e Guimarães.

Afinal de contas?
Que literatura é essa que aceita há décadas a empulhação de ver auto-criada, auto-gerida e, em grande medida, auto-imposta, uma elite literária? Que inexistente literatura é essa em que neguinho pode passar décadas publicando porcaria, sendo lido pelas suas comadres, citando e citado entre seus comparsas e assumir ares de guru de gerações? E ganhar o merecido espaço! Que meleca é essa de se fazer de marginália incorporando o mainstream como poucos?

Como é que pode alguém escrever um texto com tanta pergunta retórica?

Perguntas. Dúvidas que não querem calar.

Qué certeza?, toma duas.

Eu continuo vendo mediocridades em torno de mim o suficiente pra que eu continue me achando ishpértu (Apesar da porra do jaguadarte. A felicidade nunca é completa..). E, como esse texto todo deixa sobejissimimante claríssimo pacas pra dedéu, continuo eu mesmo incapaz de escapar da minha, pinguis, mediocritas.

Triste, né?

Alguém aí?

Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia Românica na Universidade Federal do Paraná.

 

 

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