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Oblivescenda:
estamos nos esquecendo de boa parte do mundo
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De Coronae Muscis
Caetano
Waldrigues Galindo
1.
Dia desses. Assim, sem mais. Ouço na televisão uma senhora que fala.
Descubro logo depois que ela está na USP, em frente a um pavilhão
qualquer que eu não me lembro qual não. Atrás dela (é noite) projeta-se
luminosa na tal construção uma mosca. Semovente. Tudo fazia parte
de uma grande mostra de arte contemporânea que se organizava na
cidade universitária. A senhora da mosca fazia parte da mostra.
E ela falava, a senhora. Que a mosca, essa só se movia. (E mudava
de cor, se não me engano.) Dizia, a senhora, que o seguinte, mais
ou menos. Que quando você coloca uma mosca sobre algum lugar você
já diz algo sobre o lugar (fina ironia) e que aquela, aquela mosca
particular que ela tinha feito projetar ali, certamente com dinheiro
público, era, além de tudo, dinâmica, o que acrescentava conotações
novas e mais ricas ao comentário meta-entomo-escatológico; havia
cores, havia movimento, havia mudança. Ela explicava.
2.
Dia desses, assim, sem mais, pego do jornal do centro acadêmico
de letras (parabéns a eles, diga-se). Encontro lá uma entrevista
com um poeta. Leio. Maldito eu que parece que não tinha nada de
melhor que fazer. Dizia ele, pasmem, sobre ele. Falava. Explicava.
Exegesificava. Dissecava aquilo que, modestamente, chama sua Obra.
Falava de sua Poética. Discutia sua Estética. Apontava coisas em
seus textos mais recentes que, dizia ele, eram tão complexas ou
tão sutis que ninguém nunca nem não tinha visto não, mas que, dizia
ele, estavam lá.
3.
Eco disse de Joyce algo que, diria eu (chique, andando em boas companhias..)
se aplica a qualquer poema e, mais, a qualquer obra de arte realizada.
Que ele tinha produzido um engenho que, como toda máquina eficaz,
era capaz de resultados muito além daqueles que tivessem movido
seu inventor. Basta o usuário descobrir. E ele pode mesmo jamais
sequer pensar em usá-la para algo que, para o artífice, pareceria
óbvio.
O velho Shakespeare, pela boca do Hamlet, se não me falha aquela
que sói falhar, dizia algo que, diria eu (na melhor das companhias),
se aplica como metáfora a qualquer poema e, mais, a qualquer obra
de arte realizada. Nossos pensamentos são nossos; suas conclusões,
suas consequências já deixam de ser.
4.
Shakespeare e Joyce são bons exemplos. Sempre são.
Um deles viveu bem antes de poder assistir à criação romântica
que é nossa idéia de Artista. O outro era suficientemente inteligente
e pândego para, como Tzara, se apropriar do que havia de melhor
nessa idéia sem, contudo, levá-la a sério. Rindo dela. Tom Sttopard
faz Tzara dizer, em sua peça "Travesties", que a imagem do artista
como um ser especial, dotado de prerrogativas exclusivas e, diria
eu (inevitável..), excludentes, tinha sido a maior e mais brilhante
criação dos artistas. (Essa sempre me parece a diferença fundamental,
por exemplo, entre Joyce e joyceanos de campos e espaços; entre
Shakespeare e boa parte da academia que prolifera sobre seu cadáver
- eles seriam capazes de rir disso tudo, ainda que aproveitassem
muito bem as loas e sobretudo as bocas-livres.)
Difícil imaginar Shakespeare explicando a alguém o que eram as
tais das "palavras, palavras, palavras.." de Hamlet. Bastante improvável
como me parece ouvir Joyce explicando um "crossmess parzzle". E,
quer saber mais, mesmo que fizessem, ou tenham feito, indo contra
tudo o que acabo de dizer, eu relevo. Eles são eles, caraca. Mas
não o sou eu, assim como não é a senhora da mosca e não é nosso
poeta. Com esses eu não tenho piedade nem condescendência. Não fizeram
por merecer.
O que é isso, afinal de contas? Se ninguém vir porra nenhuma na
mosca, a mosca não fez nada; se ninguém encontrar um sentido, ou
um poema escondido dentro de outro poema em um livro, eles simplesmente
não estão lá; não para quem realmente interessa. O autor é o menos
dotado de jurisprudência, o mais alienado do direito de ler, de
interpretar sua própria obra desde o momento em que a dá a público.
Diria o bom-tom que ele polidamente saísse para as coxias e voltasse
só para os aplausos e a boca-livre. Em havendo.
A idéia de que o crítico e o autor poderiam se fundir, que pode
parecer interessante por imbricar a feitura e a reflexão histórica
e teórica, parece ter tido não o efeito talvez desejado: o de expurgar
a possibilidade da crítica "laica"(como essa); mas sim a mais deletéria
conclusão de que morto fica o artista. Temos apenas críticos que
produzem. Como que criam matéria para suas próprias incursões teóricas,
sabe? Mais ou menos como um legista que se tornasse serial killer.
Eles agora produzem.
Eles agora fazem palestras sobre seus próprios trabalhos. Eles
agora dão Workshops. E especialmente, especialmente explicam, pra
um bando de babacas estarrecidos, qual era a profunda "mensagem"
de suas obras, expõem seus truques formais, verbalizam os princípios
estéticos que orientam sua "produção". Minha modesta opinião? Falta
de vergonha. Falta de pudor. Falta de respeito, pelo trabalho que
possam ter executado e, especialmente, pela capacidade de produção
do receptor, o que só pode ser explicado por dois fatos. Um: ninguém,
de fato, se importa. Por quê? Porque dois: esses "artistas" produzem
de fato para si mesmos. O mesmo círculo se lê, se discute, se protege,
se defende, se teoriza. Aí tudo vale. E não devia ser assim.
4.
Frase de efeito? A arte continua me parecendo uma coisa importante
demais pra ser deixada na mão dos "artistas".
Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Letras
na Universidade Federal do Paraná.
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