O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 23/07/2001

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Oblivescenda: estamos nos esquecendo de boa parte do mundo

 

De Coronae Muscis

Caetano Waldrigues Galindo

1.
Dia desses. Assim, sem mais. Ouço na televisão uma senhora que fala.

Descubro logo depois que ela está na USP, em frente a um pavilhão qualquer que eu não me lembro qual não. Atrás dela (é noite) projeta-se luminosa na tal construção uma mosca. Semovente. Tudo fazia parte de uma grande mostra de arte contemporânea que se organizava na cidade universitária. A senhora da mosca fazia parte da mostra.

E ela falava, a senhora. Que a mosca, essa só se movia. (E mudava de cor, se não me engano.) Dizia, a senhora, que o seguinte, mais ou menos. Que quando você coloca uma mosca sobre algum lugar você já diz algo sobre o lugar (fina ironia) e que aquela, aquela mosca particular que ela tinha feito projetar ali, certamente com dinheiro público, era, além de tudo, dinâmica, o que acrescentava conotações novas e mais ricas ao comentário meta-entomo-escatológico; havia cores, havia movimento, havia mudança. Ela explicava.

2.
Dia desses, assim, sem mais, pego do jornal do centro acadêmico de letras (parabéns a eles, diga-se). Encontro lá uma entrevista com um poeta. Leio. Maldito eu que parece que não tinha nada de melhor que fazer. Dizia ele, pasmem, sobre ele. Falava. Explicava. Exegesificava. Dissecava aquilo que, modestamente, chama sua Obra. Falava de sua Poética. Discutia sua Estética. Apontava coisas em seus textos mais recentes que, dizia ele, eram tão complexas ou tão sutis que ninguém nunca nem não tinha visto não, mas que, dizia ele, estavam lá.

3.
Eco disse de Joyce algo que, diria eu (chique, andando em boas companhias..) se aplica a qualquer poema e, mais, a qualquer obra de arte realizada. Que ele tinha produzido um engenho que, como toda máquina eficaz, era capaz de resultados muito além daqueles que tivessem movido seu inventor. Basta o usuário descobrir. E ele pode mesmo jamais sequer pensar em usá-la para algo que, para o artífice, pareceria óbvio.

O velho Shakespeare, pela boca do Hamlet, se não me falha aquela que sói falhar, dizia algo que, diria eu (na melhor das companhias), se aplica como metáfora a qualquer poema e, mais, a qualquer obra de arte realizada. Nossos pensamentos são nossos; suas conclusões, suas consequências já deixam de ser.

4.
Shakespeare e Joyce são bons exemplos. Sempre são.

Um deles viveu bem antes de poder assistir à criação romântica que é nossa idéia de Artista. O outro era suficientemente inteligente e pândego para, como Tzara, se apropriar do que havia de melhor nessa idéia sem, contudo, levá-la a sério. Rindo dela. Tom Sttopard faz Tzara dizer, em sua peça "Travesties", que a imagem do artista como um ser especial, dotado de prerrogativas exclusivas e, diria eu (inevitável..), excludentes, tinha sido a maior e mais brilhante criação dos artistas. (Essa sempre me parece a diferença fundamental, por exemplo, entre Joyce e joyceanos de campos e espaços; entre Shakespeare e boa parte da academia que prolifera sobre seu cadáver - eles seriam capazes de rir disso tudo, ainda que aproveitassem muito bem as loas e sobretudo as bocas-livres.)

Difícil imaginar Shakespeare explicando a alguém o que eram as tais das "palavras, palavras, palavras.." de Hamlet. Bastante improvável como me parece ouvir Joyce explicando um "crossmess parzzle". E, quer saber mais, mesmo que fizessem, ou tenham feito, indo contra tudo o que acabo de dizer, eu relevo. Eles são eles, caraca. Mas não o sou eu, assim como não é a senhora da mosca e não é nosso poeta. Com esses eu não tenho piedade nem condescendência. Não fizeram por merecer.

O que é isso, afinal de contas? Se ninguém vir porra nenhuma na mosca, a mosca não fez nada; se ninguém encontrar um sentido, ou um poema escondido dentro de outro poema em um livro, eles simplesmente não estão lá; não para quem realmente interessa. O autor é o menos dotado de jurisprudência, o mais alienado do direito de ler, de interpretar sua própria obra desde o momento em que a dá a público. Diria o bom-tom que ele polidamente saísse para as coxias e voltasse só para os aplausos e a boca-livre. Em havendo.

A idéia de que o crítico e o autor poderiam se fundir, que pode parecer interessante por imbricar a feitura e a reflexão histórica e teórica, parece ter tido não o efeito talvez desejado: o de expurgar a possibilidade da crítica "laica"(como essa); mas sim a mais deletéria conclusão de que morto fica o artista. Temos apenas críticos que produzem. Como que criam matéria para suas próprias incursões teóricas, sabe? Mais ou menos como um legista que se tornasse serial killer. Eles agora produzem.

Eles agora fazem palestras sobre seus próprios trabalhos. Eles agora dão Workshops. E especialmente, especialmente explicam, pra um bando de babacas estarrecidos, qual era a profunda "mensagem" de suas obras, expõem seus truques formais, verbalizam os princípios estéticos que orientam sua "produção". Minha modesta opinião? Falta de vergonha. Falta de pudor. Falta de respeito, pelo trabalho que possam ter executado e, especialmente, pela capacidade de produção do receptor, o que só pode ser explicado por dois fatos. Um: ninguém, de fato, se importa. Por quê? Porque dois: esses "artistas" produzem de fato para si mesmos. O mesmo círculo se lê, se discute, se protege, se defende, se teoriza. Aí tudo vale. E não devia ser assim.

4.
Frase de efeito? A arte continua me parecendo uma coisa importante demais pra ser deixada na mão dos "artistas".

Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Letras na Universidade Federal do Paraná.

 

 

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