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A polêmica do Radiohead
Leia o artigo original do Lapão
Leia a resposta do André
Leia o terceiro artigo da série
Editorial
Lerner e seu bom
gosto para escolher quem governa o Paraná
Coluna do Rogerio
Pinochet
não vai ser julgado e São Paulo aplaude o coronel
Ubiratan. Durma-se com um barulho desses
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Obliviscenda
Caetano Waldrigues Galindo
ok. De novo Ruanda. O velho Mainardi escreveu na Veja, semana que
foi. Dizia, entre outras coisas, que eram realmente o seu assunto,
lá dele, coisas mesmas que dissemos eu e meu irmão, não tem nem
tanto tempo assim. Dizia que, recentemente, tinha ficado sabendo
do massacre de oitocentos mil Tutsis em 94; recentemente do fato
de que os europeus tiveram tudo nas mãos, antes e durante, para
evitar, para parar o massacre, que em cem dias dizimou a população
de Ruanda.
Dizia que recentemente tinha ficado sabendo que, antes, durante,
a europa, o mundo civilizado, tinham gerado e fomentado a chacina
de quase um milhão de pessoas, que a frança teria vendido armas
ao governo Hutu enquanto se organizava, e enquanto se executava,
o morticínio oficializado e institucionalizado de todo um povo.
Basicamente as mesmas coisas que vimos, eu e meu irmão, no livro
do Gourevitch que, acho, ainda está lá na sessão de resenhas dessa
página, pra onde envio os quaisquer leitores, então. Estava chocado
ele, parecia. Ficamos chocados ambos. Putos. Muito putos. Tinha
gente que não agüentava mais a gente falando de Ruanda, meus alunos
ouviram resenha do livro; teve gente que teve de agüentar os irmão
Galindo desmontados, descompostos por causa de um livro (um livro
pode mudar tudo, você tem razão).
Vejam lá a resenha. Leiam o livro. Precisam.
Todo o mundo. Por quê? Porque o assunto da digressão de hoje é o
mundo, todo o mundo. Todo o mundo. É o principal assunto do livro,
principal conclusão. Oitenta e cinco por cento. Não sei nada quase
de economias e tenho péssima memória pra dados pontuais, essa é
a pasta do meu irmão. Mas não consigo esquecer, até por ter ouvido
mais de uma vez, Sebastião Salgado falando que seu trabalho tratava,
em alguma medida, de dar rosto, de dar voz a oitenta e cinco por
cento da humanidade, dado que, pelo acima, não contesto.
Oitenta e cinco por cento da humanidade que foram deixados para
trás pelo progresso, pela revolução tecnológica. Oitenta e cinco
por cento de um mundo que não conheceu o século vinte, de que podemos
e vivemos a falar com tanta empáfia, com tanto orgulho, oitenta
e cinco por cento de uma humanidade que não faz parte do mundo.
Continuamos falando de história, de política, de arte, de música
pop, de jazz, continuamos assistindo a programas gastronômicos na
televisão, continuamos dando espaço para que importantes pessoas
dêem, e façam sabidas de milhares, suas importantes contribuições
para a compreensão do homem contemporâneo, para a análise dos tormentos
que afligem o homem na sociedade de massa. Fazemos brilhantes análises
redatando o século vinte que, repito, não aconteceu, em grande medida,
para quinze em cada vinte pessoas. Continuamos fechando os olhos
para quinze pessoas em cada vinte.
Meu irmão continua catando notícias, migalhando informação nas
maiores agências de notícias do mundo pra tentar saber o que está
realmente acontecendo de terrível na Nigéria. Mas a Nigéria não
é a Alemanha. Lembremos Miterrand: O genocídio nesses países não
é uma coisa tão séria. Economia, saúde, direitos humanos, cultura,
história. Em cada assunto vamos esquecendo a África, a Ásia, pretos,
amarelos, mulheres, crianças, e seguimos falando do mundo e seguimos
interpretando a humanidade seguimos analisando o homem contemporâneo,
jogando tudo o que pudesse ser de fato relevante pra debaixo do
tapete.
Sou filho de Hamlet como quase somos todos nós, sou filho de Iago
como todos nós, sou êmulo da Arte da Fuga, não sou xiita, não vou
falar sobre a inutilidade da reflexão ou da cultura européia, branca
e masculina que me pariu, ainda que ruço e americano. Mas Strattford
e Eisenach deram dois monstros à luz. Monstros como há muitos, embora
nenhum como esses. Mas eu não sou um deles. Você não é um deles.
Por que é que nos julgamos mais afeitos, mais inclinados a viver
esse mundo, sublime, que a viver o mundo do mundo que fingimos não
exista.
Que direito eu tenho, que direito tem você? Que direito eu tenho
de comer mais do que o que me falte, de ler e estudar filologia
românica, que direito de escrever e receber dinheiro pra escrever
sobre o futuro verbal do romeno, sobre o santo do Agostinho, que
nem merecia ser citado em um texto de emputecimento. Que direito
tem qualquer um de nós de negar como pertencentes a um passado medíocre
idéias de segregação racial, sexual, baseadas na pretensa superioridade
de um ou outro sobre o outro?, negar como bons cidadãos esclarecidos
do mundo civilizado (supremo eufemismo), e continuar aceitando tácita
e corrompidamente que quinze em cada vinte de nós são qualitativamente
mercedores apenas de exclusão. Mas agora, que vá isso a seu lugar.
Obliviscenda, as coisas que devem ser esquecidas. Eu tenho de aplicar
uma prova final de filologia românica para dezoito alunos, formandos,
futuros professores, nobres tarefas. Sigo eu fazendo de conta aqui.
Virem-se.
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