O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 10/07/2001

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Editorial
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Obliviscenda

Caetano Waldrigues Galindo

ok. De novo Ruanda. O velho Mainardi escreveu na Veja, semana que foi. Dizia, entre outras coisas, que eram realmente o seu assunto, lá dele, coisas mesmas que dissemos eu e meu irmão, não tem nem tanto tempo assim. Dizia que, recentemente, tinha ficado sabendo do massacre de oitocentos mil Tutsis em 94; recentemente do fato de que os europeus tiveram tudo nas mãos, antes e durante, para evitar, para parar o massacre, que em cem dias dizimou a população de Ruanda.

Dizia que recentemente tinha ficado sabendo que, antes, durante, a europa, o mundo civilizado, tinham gerado e fomentado a chacina de quase um milhão de pessoas, que a frança teria vendido armas ao governo Hutu enquanto se organizava, e enquanto se executava, o morticínio oficializado e institucionalizado de todo um povo.

Basicamente as mesmas coisas que vimos, eu e meu irmão, no livro do Gourevitch que, acho, ainda está lá na sessão de resenhas dessa página, pra onde envio os quaisquer leitores, então. Estava chocado ele, parecia. Ficamos chocados ambos. Putos. Muito putos. Tinha gente que não agüentava mais a gente falando de Ruanda, meus alunos ouviram resenha do livro; teve gente que teve de agüentar os irmão Galindo desmontados, descompostos por causa de um livro (um livro pode mudar tudo, você tem razão).

Vejam lá a resenha. Leiam o livro. Precisam. Todo o mundo. Por quê? Porque o assunto da digressão de hoje é o mundo, todo o mundo. Todo o mundo. É o principal assunto do livro, principal conclusão. Oitenta e cinco por cento. Não sei nada quase de economias e tenho péssima memória pra dados pontuais, essa é a pasta do meu irmão. Mas não consigo esquecer, até por ter ouvido mais de uma vez, Sebastião Salgado falando que seu trabalho tratava, em alguma medida, de dar rosto, de dar voz a oitenta e cinco por cento da humanidade, dado que, pelo acima, não contesto.

Oitenta e cinco por cento da humanidade que foram deixados para trás pelo progresso, pela revolução tecnológica. Oitenta e cinco por cento de um mundo que não conheceu o século vinte, de que podemos e vivemos a falar com tanta empáfia, com tanto orgulho, oitenta e cinco por cento de uma humanidade que não faz parte do mundo.

Continuamos falando de história, de política, de arte, de música pop, de jazz, continuamos assistindo a programas gastronômicos na televisão, continuamos dando espaço para que importantes pessoas dêem, e façam sabidas de milhares, suas importantes contribuições para a compreensão do homem contemporâneo, para a análise dos tormentos que afligem o homem na sociedade de massa. Fazemos brilhantes análises redatando o século vinte que, repito, não aconteceu, em grande medida, para quinze em cada vinte pessoas. Continuamos fechando os olhos para quinze pessoas em cada vinte.

Meu irmão continua catando notícias, migalhando informação nas maiores agências de notícias do mundo pra tentar saber o que está realmente acontecendo de terrível na Nigéria. Mas a Nigéria não é a Alemanha. Lembremos Miterrand: O genocídio nesses países não é uma coisa tão séria. Economia, saúde, direitos humanos, cultura, história. Em cada assunto vamos esquecendo a África, a Ásia, pretos, amarelos, mulheres, crianças, e seguimos falando do mundo e seguimos interpretando a humanidade seguimos analisando o homem contemporâneo, jogando tudo o que pudesse ser de fato relevante pra debaixo do tapete.

Sou filho de Hamlet como quase somos todos nós, sou filho de Iago como todos nós, sou êmulo da Arte da Fuga, não sou xiita, não vou falar sobre a inutilidade da reflexão ou da cultura européia, branca e masculina que me pariu, ainda que ruço e americano. Mas Strattford e Eisenach deram dois monstros à luz. Monstros como há muitos, embora nenhum como esses. Mas eu não sou um deles. Você não é um deles. Por que é que nos julgamos mais afeitos, mais inclinados a viver esse mundo, sublime, que a viver o mundo do mundo que fingimos não exista.

Que direito eu tenho, que direito tem você? Que direito eu tenho de comer mais do que o que me falte, de ler e estudar filologia românica, que direito de escrever e receber dinheiro pra escrever sobre o futuro verbal do romeno, sobre o santo do Agostinho, que nem merecia ser citado em um texto de emputecimento. Que direito tem qualquer um de nós de negar como pertencentes a um passado medíocre idéias de segregação racial, sexual, baseadas na pretensa superioridade de um ou outro sobre o outro?, negar como bons cidadãos esclarecidos do mundo civilizado (supremo eufemismo), e continuar aceitando tácita e corrompidamente que quinze em cada vinte de nós são qualitativamente mercedores apenas de exclusão. Mas agora, que vá isso a seu lugar.

Obliviscenda, as coisas que devem ser esquecidas. Eu tenho de aplicar uma prova final de filologia românica para dezoito alunos, formandos, futuros professores, nobres tarefas. Sigo eu fazendo de conta aqui. Virem-se.

 

 

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