O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 10/07/2001

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Editorial
Lerner e seu bom gosto para escolher quem governa o Paraná

Coluna do Rogerio
Pinochet não vai ser julgado e São Paulo aplaude o coronel Ubiratan. Durma-se com um barulho desses

 

Scherzo

Caetano Waldrigues Galindo

Me invisto eu, agora, dos paramentos hominum puctissimorum, alba dos desvalidos. Tercemo-las! Ou, pra me manter em meu rezisto erudito, to infinity, and beyond! Eia, sus!, coisa e tal. Respondamos ao Andreiuscha, eu e o Ariel, do alto de minha sapiência, de debaixo de meu pudê argumentante. Lavora, caetano, na lida este dia. Aplica-te. Faz uma pouca de esforça-te e sê claro. Pois bem, vamos fazer de conta que estou respondendo uma a uma as afirmações nada dubitantes do meu solo rabiante legente. Quem sabe assim. Begin! The beguine.. the beguine..

Arte R: De arte não me atrevo. Música sei que. Que não é só prazer. Prazer nunca é só prazer, só pra começar. Deixemos claro. Sei merrecas de formas de canon, pouquíssimo de soggeti, mínimos de toni peregrini, quase nada de dodeca, um não sei quê de clusters, dois cheirinhos de campos harmônicos, modos gregorianos, notas alvos, hexafônicas e o diabo. Deixemos claro. Ouço Bach, ouço Schoenberg, ouço Penderecki, Coltrane ou Marsalis (e Robert Johnson, mas aí eu sei um pouco a mais de pentatônicas). Ouço porque todos, e cada um, me deixam molim e vigoroso. Concomi ou sucessiva, tante e mente. Por prazer, meu. Só gozo porque sei. Sei, isso lá sei. Mais prazer por mais saber. A cada pouco mais um pouco mais. (Ficando erótico isso.. Inevitável) Quanto ao resto, nada, jamais, poderá nenhures ficar além de meu pudê raciocinante!

Jazz Conservatório. R: Caro, argumento bobo, de efeito, quer ver: O próprio fato de o jazz estar sendo ensinado em conservatório prova que ele não é a música elevada que eu queria buscar. Tudo o que eu queria, (e se alguém está mesmo lendo isso aqui pode parar por aqui, pois segue agora tudo o que eu queria, naquele texto), naquele texto, era buscar uma forma de música, em algo refinada sob sabe lá meu bleus que pontos de vista, que pudesse ser de fato representativa de seu tempo, em seu tempo, para seu tempo e as pessoas que, irremediavelmente, caro A., fazem parte desse tempo, fazem ser esse tempo. Só isso, mas volto a isso. Eu estive em conservatório, eu estudei música por anos vários dos meus e, justamente por isso, me julgo habilitado a te dizer que não é a música dos músicos a que eu quero defender.

Influência. R: Minha vez de ser durão. A., zinho, dizer que nenhuma outra música popular teve sobre a música erudita, e mesmo sobre a Arte, maior influência do que o jazz é desconhecer, ou fazerdeconta, completamente a história das formas da música erudita do dezoito ou do dezenove. Quanto a história, transformações, tradição, o que o jazz tem de singular, depois dos anos sessenta, é uma evolução muito rápida e múltipla, o que o assemelha à música erudita européia. Consequëntemente, o afasta da música popular e, logo, do tipo de papel que eu queria preenchido. Já história e tradição, A., aí o teu problema não foi afetado, você conhece mesmo muito pouco de música pop. O Nirvana em, 94, gravou Leadbelly, pai do folk-blues. Só um exemplo. E ninguém percebeu. Grava-se Delta Blues até hoje pois, ao contrário do que o povo que não conhece roquenrol possa dizer, conhecendo tudo o que possam de história social ou o quiabão, qualquer um que conheça rock sabe que ele nasce do blues.

"O jazz faz parte de outros valores". R: Essa é muito boa. Parábola. Em lingüística histórica existe uma coisa feiosa de nome metaplasmo. Um metaplasmo é uma mudança em um som de uma palavra, pra trocar em miúdos. Uma cadeia de metaplasmos é a seqüência de mudanças, por vezes rigidamente ordenadas, que pode, vg, explicar como determinada palavra latina chegou a sua forma portuguesa. Certa vez assisti à exposição de uma bela e longa cadeia de metaplasmos que explicava a forma portuguesa molho, coletivo de chaves. Assimilações, palatalizações, rebaixamentos vocálicos, síncopes, desnasalizações; tudo pra culminar na crase final (a + o) que justificava a pronúncia correta: mólho. Eu, calouro, quietinho, pensava, mais uma assimilação e tava beleza, justificava-se o môlho, pronúncia errada. Esse é o truque da gramática normativa. Aceita-se a mudança até um ponto, depois já é erro. E essa foi também a tua mistificação. Passar do paradigma harmônico para o rítmico é válido e bom e, mais do que isso, justifica a improvisação (cf. Gould, harmonista tarado, e seu desprezo por música improvisada que, contudo, dominava à perfeição). Já deixar o rítmico ou, mais precisamente, sobre ele instaurar a primazia do melódico e, mais característico, da voz e do texto cantado, já é demais, já é heresia. Mas há duas coisas estranhas aí. Uma é que você está cansado de saber que os jazzistas apanham dolorosamente de uma bela parcela dos eruditóides por causa da mesmice harmônica de setenta anos de idade que eles detectam no jazz. Mas aí o argumento da mudança de paradigma é uma beleza.. Outra é que o mesmo jazz, e era essa outra coisa que eu sustentava, viveu de canção, viveu na canção. Mas aí eu te conheço, e isso vem de você. Acho que não encontraria essa resistência pra falar da canção como forma mestra do jazz por parte de outros jazzistas. Jazz cantado não é teu forte mesmo, né..

Pop Clayderman. R: Boa essa. A., Não vinculo qualidade a sucesso de público, muito menos seria essa a essência do meu argumento. Van Gogh, para nós é tão bom quanto possam ser seus quadros. Ele não é melhor porque não foi compreendido em seu tempo, argumento pra lá de batido -a maldita idéia do maldito- que acho que abominamos ambos, nem é pior por isso. Para nós. O meu argumento era mais simplório. Van Gogh, em seu tempo, representou a arte de proa de seu tempo? Não, ele viveu e produziu pra frente, pra nós, o que nós só agradecemos. Mas eu estou preocupado, caro A., não com o abominável, detestável, pai de todos os males, comedor de criancinhas, o sucesso de público, mas sim, confesso, com o grosso da população em cada momento. E é lógico que essa parcela sobre que eu falo é muito maior hoje. Ligeti é significativo? Hoje? Para esse tempo? Mas Chico Buarque é, Rodgers e Hart são. (Curioso você ter esquecido que eu mencionava o Chico Buarque)

"Não é que o público que antes ouvia música erudita hoje esteja ouvindo Radiohead" R(em nome do leitor Caetano Waldrigues Galindo): Ah é?

Arte popular X arte pop. R: essa é uma cadeia de metaplasmos. Radiohead Pop. R: Eu acho Guerra nas Estrelas bem greguinho, sabe? Eles são então tão bons quanto Sófocles?, perguntaria você. Convenhamos, André, responderia eu. O nosso mundo leu aquilo, ouviu séculos de música, continua lendo, continua ouvindo e, agora, vomita cultura pop. Não é melhor, não é nem novo, mas não é desprezível.

Radiohead, especificamente. R: André, você não ouviu os dois discos, se não não falaria em previsibilidade (a menos que você considere resolver um Am em um A/G, numa harmonia predominantemente C, previsível) e, especialmente, não falaria em fast food (a não ser que você tenha sistemáticos problemas digestivos com MacDonald's).

Tecnologia. R: Não, André, não conheço nenhum grande artista plástico que trabalhe com Photoshop. E sabe o que isso quer dizer de nós? Simplesmente que nós não conhecemos os grandes artistas plásticos vivos. André, André.. essa você me deu de bandeja. Os Boulezs que mexem com Photoshop, balas de goma e hímens rompidos de freiras paquistanesas fazem nenhum sentido pra nós, que adoramos Boulez. Essa é a vanguarda deles, esses podem ser os clássicos; pra nós não, não nem sabemos que eles existem, a gente só vai até o Bacon, até o Pollock. Mas música é diferente, porque não há uma corrente em artes plásticas que se equipare à música pop, só o design. Precisamos de música, precisamos de música, precisamos ter algum tipo de música que prencha a necessidade presente, premente, desse tempo, e que o faça com algo sobre o que nós dois possamos teorizar, algum tipo de refinamento, pra que nós continuemos nos separando da massa sebosa. Mas o meu nós é mais amplo que o teu. O meu ouve Cartola, ouve Bessie Smith, Muddy Waters, Billie Holiday (assim na terra como no céu), Chico Buarque, Rodgers e Hart, Ella, Beatles (ouça direito Eleanor Rigby, letra inclusa, e me diga se aquilo é expressão da ignorância da mãe do Argan) e, pasme, Radiohead. Cinco guris mimados, como mimados foi seu Chico Buarque, como mimado foi, e é, o Boulez, como mimados foram e são os Marsalis, como mimada foi a mãe do Argan. Dixi.

 

 

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