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Editorial
Lerner e seu bom
gosto para escolher quem governa o Paraná
Coluna do Rogerio
Pinochet
não vai ser julgado e São Paulo aplaude o coronel
Ubiratan. Durma-se com um barulho desses
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Scherzo
Caetano Waldrigues Galindo
Me invisto eu, agora, dos paramentos hominum puctissimorum, alba
dos desvalidos. Tercemo-las! Ou, pra me manter em meu rezisto erudito,
to infinity, and beyond! Eia, sus!, coisa e tal. Respondamos ao
Andreiuscha, eu e o Ariel, do alto de minha sapiência, de debaixo
de meu pudê argumentante. Lavora, caetano, na lida este dia. Aplica-te.
Faz uma pouca de esforça-te e sê claro. Pois bem, vamos fazer de
conta que estou respondendo uma a uma as afirmações nada dubitantes
do meu solo rabiante legente. Quem sabe assim. Begin! The beguine..
the beguine..
Arte R: De arte não me atrevo. Música sei que. Que não é só prazer.
Prazer nunca é só prazer, só pra começar. Deixemos claro. Sei merrecas
de formas de canon, pouquíssimo de soggeti, mínimos de toni peregrini,
quase nada de dodeca, um não sei quê de clusters, dois cheirinhos
de campos harmônicos, modos gregorianos, notas alvos, hexafônicas
e o diabo. Deixemos claro. Ouço Bach, ouço Schoenberg, ouço Penderecki,
Coltrane ou Marsalis (e Robert Johnson, mas aí eu sei um pouco a
mais de pentatônicas). Ouço porque todos, e cada um, me deixam molim
e vigoroso. Concomi ou sucessiva, tante e mente. Por prazer, meu.
Só gozo porque sei. Sei, isso lá sei. Mais prazer por mais saber.
A cada pouco mais um pouco mais. (Ficando erótico isso.. Inevitável)
Quanto ao resto, nada, jamais, poderá nenhures ficar além de meu
pudê raciocinante!
Jazz Conservatório. R: Caro, argumento bobo, de efeito, quer ver:
O próprio fato de o jazz estar sendo ensinado em conservatório prova
que ele não é a música elevada que eu queria buscar. Tudo o que
eu queria, (e se alguém está mesmo lendo isso aqui pode parar por
aqui, pois segue agora tudo o que eu queria, naquele texto), naquele
texto, era buscar uma forma de música, em algo refinada sob sabe
lá meu bleus que pontos de vista, que pudesse ser de fato representativa
de seu tempo, em seu tempo, para seu tempo e as pessoas que, irremediavelmente,
caro A., fazem parte desse tempo, fazem ser esse tempo. Só isso,
mas volto a isso. Eu estive em conservatório, eu estudei música
por anos vários dos meus e, justamente por isso, me julgo habilitado
a te dizer que não é a música dos músicos a que eu quero defender.
Influência. R: Minha vez de ser durão. A., zinho, dizer que nenhuma
outra música popular teve sobre a música erudita, e mesmo sobre
a Arte, maior influência do que o jazz é desconhecer, ou fazerdeconta,
completamente a história das formas da música erudita do dezoito
ou do dezenove. Quanto a história, transformações, tradição, o que
o jazz tem de singular, depois dos anos sessenta, é uma evolução
muito rápida e múltipla, o que o assemelha à música erudita européia.
Consequëntemente, o afasta da música popular e, logo, do tipo de
papel que eu queria preenchido. Já história e tradição, A., aí o
teu problema não foi afetado, você conhece mesmo muito pouco de
música pop. O Nirvana em, 94, gravou Leadbelly, pai do folk-blues.
Só um exemplo. E ninguém percebeu. Grava-se Delta Blues até hoje
pois, ao contrário do que o povo que não conhece roquenrol possa
dizer, conhecendo tudo o que possam de história social ou o quiabão,
qualquer um que conheça rock sabe que ele nasce do blues.
"O jazz faz parte de outros valores". R: Essa é muito boa. Parábola.
Em lingüística histórica existe uma coisa feiosa de nome metaplasmo.
Um metaplasmo é uma mudança em um som de uma palavra, pra trocar
em miúdos. Uma cadeia de metaplasmos é a seqüência de mudanças,
por vezes rigidamente ordenadas, que pode, vg, explicar como determinada
palavra latina chegou a sua forma portuguesa. Certa vez assisti
à exposição de uma bela e longa cadeia de metaplasmos que explicava
a forma portuguesa molho, coletivo de chaves. Assimilações, palatalizações,
rebaixamentos vocálicos, síncopes, desnasalizações; tudo pra culminar
na crase final (a + o) que justificava a pronúncia correta: mólho.
Eu, calouro, quietinho, pensava, mais uma assimilação e tava beleza,
justificava-se o môlho, pronúncia errada. Esse é o truque da gramática
normativa. Aceita-se a mudança até um ponto, depois já é erro. E
essa foi também a tua mistificação. Passar do paradigma harmônico
para o rítmico é válido e bom e, mais do que isso, justifica a improvisação
(cf. Gould, harmonista tarado, e seu desprezo por música improvisada
que, contudo, dominava à perfeição). Já deixar o rítmico ou, mais
precisamente, sobre ele instaurar a primazia do melódico e, mais
característico, da voz e do texto cantado, já é demais, já é heresia.
Mas há duas coisas estranhas aí. Uma é que você está cansado de
saber que os jazzistas apanham dolorosamente de uma bela parcela
dos eruditóides por causa da mesmice harmônica de setenta anos de
idade que eles detectam no jazz. Mas aí o argumento da mudança de
paradigma é uma beleza.. Outra é que o mesmo jazz, e era essa outra
coisa que eu sustentava, viveu de canção, viveu na canção. Mas aí
eu te conheço, e isso vem de você. Acho que não encontraria essa
resistência pra falar da canção como forma mestra do jazz por parte
de outros jazzistas. Jazz cantado não é teu forte mesmo, né..
Pop Clayderman. R: Boa essa. A., Não vinculo qualidade a sucesso
de público, muito menos seria essa a essência do meu argumento.
Van Gogh, para nós é tão bom quanto possam ser seus quadros. Ele
não é melhor porque não foi compreendido em seu tempo, argumento
pra lá de batido -a maldita idéia do maldito- que acho que abominamos
ambos, nem é pior por isso. Para nós. O meu argumento era mais simplório.
Van Gogh, em seu tempo, representou a arte de proa de seu tempo?
Não, ele viveu e produziu pra frente, pra nós, o que nós só agradecemos.
Mas eu estou preocupado, caro A., não com o abominável, detestável,
pai de todos os males, comedor de criancinhas, o sucesso de público,
mas sim, confesso, com o grosso da população em cada momento. E
é lógico que essa parcela sobre que eu falo é muito maior hoje.
Ligeti é significativo? Hoje? Para esse tempo? Mas Chico Buarque
é, Rodgers e Hart são. (Curioso você ter esquecido que eu mencionava
o Chico Buarque)
"Não é que o público que antes ouvia música erudita hoje esteja
ouvindo Radiohead" R(em nome do leitor Caetano Waldrigues Galindo):
Ah é?
Arte popular X arte pop. R: essa é uma cadeia de metaplasmos. Radiohead
Pop. R: Eu acho Guerra nas Estrelas bem greguinho, sabe? Eles são
então tão bons quanto Sófocles?, perguntaria você. Convenhamos,
André, responderia eu. O nosso mundo leu aquilo, ouviu séculos de
música, continua lendo, continua ouvindo e, agora, vomita cultura
pop. Não é melhor, não é nem novo, mas não é desprezível.
Radiohead, especificamente. R: André, você não ouviu os dois discos,
se não não falaria em previsibilidade (a menos que você considere
resolver um Am em um A/G, numa harmonia predominantemente C, previsível)
e, especialmente, não falaria em fast food (a não ser que você tenha
sistemáticos problemas digestivos com MacDonald's).
Tecnologia. R: Não, André, não conheço nenhum grande artista plástico
que trabalhe com Photoshop. E sabe o que isso quer dizer de nós?
Simplesmente que nós não conhecemos os grandes artistas plásticos
vivos. André, André.. essa você me deu de bandeja. Os Boulezs que
mexem com Photoshop, balas de goma e hímens rompidos de freiras
paquistanesas fazem nenhum sentido pra nós, que adoramos Boulez.
Essa é a vanguarda deles, esses podem ser os clássicos; pra nós
não, não nem sabemos que eles existem, a gente só vai até o Bacon,
até o Pollock. Mas música é diferente, porque não há uma corrente
em artes plásticas que se equipare à música pop, só o design. Precisamos
de música, precisamos de música, precisamos ter algum tipo de música
que prencha a necessidade presente, premente, desse tempo, e que
o faça com algo sobre o que nós dois possamos teorizar, algum tipo
de refinamento, pra que nós continuemos nos separando da massa sebosa.
Mas o meu nós é mais amplo que o teu. O meu ouve Cartola, ouve Bessie
Smith, Muddy Waters, Billie Holiday (assim na terra como no céu),
Chico Buarque, Rodgers e Hart, Ella, Beatles (ouça direito Eleanor
Rigby, letra inclusa, e me diga se aquilo é expressão da ignorância
da mãe do Argan) e, pasme, Radiohead. Cinco guris mimados, como
mimados foi seu Chico Buarque, como mimado foi, e é, o Boulez, como
mimados foram e são os Marsalis, como mimada foi a mãe do Argan.
Dixi.
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