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Editorial
A divisão
de jornais em seções e editorias só piora o
nível da informação da imprensa
Coluna do Rogerio
Assembléia
tanta salvar Lerner com mais quatro CPIs chapa-branca
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A amnésia dos guri 10
Caetano
Waldrigues Galindo
Não me lembro se foi em algo referente ao Jazz do Ken Burns, ou
no próprio. O fato é que minha habitualmente manquitolante memória
me diz que ouviu isso e que não tem muito. O Jazz é a música erudita
do nosso tempo. Hmm..
Me parece fato, não no século todo, mas fato, que a música erudita,
no século passado (ô, melancolia..), em nosso tempo, que seja, se
afastou definitivamente do público. Deixou simplesmente de fazer
sentido. Trata-se, cada vez mais, de um circulozinho viciado o que
produz e consome o que se, hoje, poderia chamar música erudita.
São, acredito, muito poucos os não-músicos que conhecem, fruem e
consomem Ligeti, Nono ou Penderecki, pra citar só os favoritos da
casa. E, repare-se, fico aqui falando de gente que tem hoje seus
setenta anos, ou mesmo já seus aninhos de pó. A música mais nova
que isso já é mercadoria em uma feira que não me aceita nem como
convidado. E fecha-se e aperta-se o ciclo..
Quando se diz que o jazz seria nossa música erudita, presume-se
que ele atinja um público aos poucos deixado órfão pelo Entardecer
de um fauno, pela Sagração da primavera, pela Suíte de Schoenberg;
um grupo, absolutamente majoritário, pra o qual o Marteau sans maître,
a Thrénodie, 3'33'', o Prometeu e o Hellikopter nem sequer existiram.
Pois isso não é verdade. Em discussão recente em um fórum no www.allegrobr.com,
o grande André, segundo grande Tezza, dizia, com dadinhos, que o
mercado fonográfico americano vivia ainda menos de jazz que de música
erudita. Isso hoje, por hoje.
A música erudita se afastou de seu possível público (imagino ser
claro que também a tal fatia do mercado não se componha de música
com muito menos de setenta anos de idade); o jazz, como tal, o atinge
ainda menos. Cadê, ergo, nossa música erudita? (aquela, a metafórica).
Deve. Há de haver uma música que preencha, na população culta ou
o que o valha, o espaço que já foi da produção orquestral e, em
condições restritas, do jazz. Há de ter de haver uma música que
seja significativa para mais do que um por cento da população alfabetizada
e que possa ser tratada de música elevada, como queria o velho Villa-Lobos.
Assim como acho que dá pra atribuir uns oitenta por cento das vendas
de música erudita a séculos anteriores ao vinte, duvido que alguém
me faça acreditar que pelo menos metade (muito mais..) da produção
jazzística que se consome não se refere, mais do que a jazz, ao
domínio ubíquo e definitivo da canção do século vinte. A parcela
do jazz, o momento do jazz que, de fato, foi a música elevada significativa,
pertence a algo maior. Eram canções. Canções de extrema qualidade,
transformadas em standards mesmo instrumentais. Canções mesmo não-jazzísticas,
como as Feuilles mortes não cansam de provar.
Metade do Be-bop, que se poderia argumentar ser a coisa menos cancionística
do mundo, foi construída sobre progressões harmônicas de canções
clássicas; só I got rythm gerou uma meia dúzia de temas. Mesmo a
voz jamais tendo estado lá, a estrutura da canção domina. Tome-se
como exemplo Take five de Paul Desmond, gravada pelo quarteto de
Dave Brubeck em um disco, todo instrumental, que, diga-se, vendeu
horrores. Tá tudo lá. Só faltava ter refrão. Se há, se houve um
espaço relevante preenchido por música elaborada, música de qualidade
(dá um medo de dizer isso..) no gosto do século vinte, esse espaço
é, desde o tempo mesmo de Billie Holiday (santa de devoção) e Cole
Porter, desde o tempo em que o Jazz não era música de minoria, a
música dita pop, a casa da canção.
O jazz só foi a música erudita do nosso tempo enquanto tinha muito
pouco de erudito, embora de refinado pudesse. Contradictio. O jazz
só foi a música erudita do nosso tempo enquanto foi pop refinado,
erudito muito pouco. A música do nosso tempo, ponto, é a música
pop. A música elevada relevante do nosso tempo há de dever de ser
uma variante elevada dessa música. Brasileiros estão cansados de
saber disso. Produzimos canção de qualidade tem décadas.
O problema desse domínio é que, por eminentemente popular, produz
pouca ruptura. Muita reforma, mas pouca ruptura. E aí talvez o estatuto
de música erudita possível seja questionado. Trata-se de uma estrutura
muito simples, de poucos e singelos elementos, que no entanto permanecem
essencialmente os mesmos desde o final do dezenove. Falta vanguarda,
hard edge. (E por vanguarda, possibilidade central de qualquer arte
erudita, me refiro idiossincraticamente não apenas ao novo, mas
apenas a momentos em que, mesmo que nada surja de inédito, uma intenção
destrutiva construtiva se instala, acompanhada de uma meta-reflexão
que reconheça a história para reiniciá-la. Chique..) Much ado..
Tudo isso pra falar de um disco, ou dois. Amnesiac e Kid A, por
ordem de palatabilidade. Lançados em um intervalo de oito meses,
oriundos de apenas uma sessão de gravação do Radiohead, a banda
inglesa que decidiu de tempos pra cá que ia interromper seu caminho,
já bastante inovador, pra virar do avesso seu próprio passado. Ok
computer, o terceiro dos caras, e segundo deles a encabeçar listinhas
de melhores de todos os tempos, soava muito novo e era horrivelmente
bom, mas a prova de que algo de brusco, uma cesura, aconteceu com
Kid A, o quarto, e sua seqüência, Amnesiac, é que ele hoje soa,
pra mim, datado, datado.. E Ok computer tem quatro anos.
Nunca, depois dos sacros rapazes liverpoolianos, eu vi alguém -banda
ou músicos de mpb- andar tanto em menos de dez anos; do indie meio
pós-punk de Pablo Honey até os ruídos incompreensíveis de Push/Pulk
revolving doors, de Amnesiac. Eles decidiram conscientemente revisar
o conceito de canção. Revisar a estrutura da canção, revisar alguns
de seus elementos constituintes: tonalidade, tempo, unidade, primazia
da voz, compreensibilidade (sintática e fonética) da letra.. e fizeram
isso escrevendo belas canções. Somaram clusters harmônicos pesados
de quartos de tons a melodias de voz e violão, escreveram canções
sem pulso, ou que desmentem o próprio pulso, reviraram loops de
voz sobre baterias improvisadas, jogaram tudo em pro-tools, aceleraram
e detiveram a prosódia na tela do Mac, desfiguraram a voz do canto,
aboliram refrões, pontes, primeira e segunda parte, enfiaram
delicadas harmonias terrivelmente familiares a um brasileiro atento
em canções ligeiramente surreais de estrutura quase normal e, quase
ironia, escreveram algo que -como disse um jornalista inglês- é
ao mesmo tempo a coisa mais normal e mais filha da puta dos dois
discos: Living in a glass house, sobre uma cozinha e um naipe de
metais absolutamente New Orleans, completamente marching band, e
repetindo, em parte, a harmonia de Sobre todas as coisas.
O Radiohead definitivamente não escreveria dois compassos do que
faz sem Debussy, sem Ravel, sem Stravinsky, sem Stockhausen ou,
preferência tanto deles como minha, sem Penderecki. Mas o problema
é que Beethoven era pop. E Chico Buarque e Radiohead é que são a
música elevada significativa do nosso tempo. A vanguarda pode estar
calada em conservatórios. Luigi Nono vai um dia atingir o silêncio.
Mas uma vanguarda, setenta anos talvez teoricamente atrasada, mas
viva, pode estar viva na mão de milhões de pessoas. Pode-se consumir,
e muito, música de qualidade, música, de alguma forma, elevada do
ramerrão.
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