O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 28/06/2001

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Ainda Radiohead

Genial. Polêmico. O Lapão na Hiléia segue causando furor na sociedade ilustrada brasileira. Polêmica. O cara meio que só tem um leitor (amadíssimo) e consegue encher justo desse o saco. Cujo! Segue abaixo o imeiou, lucidíssimo, que inveja, claríssimo, que raiva, do grande, como sempre, André Tezza, agora puctissimus hominum. (tipos, é grande.. mas, tipos, vale a pena (e aguardem, ávidos leitores, que eu se me retuerno semana que vem - the popcorner strikes back -)(e não me subestime, andreiuscha))

Allons Caetano, naturalmente, você deve imaginar que não concordo com a suposta genialidade dos guris supostamente 10. Aliás, para ser sincero, sem querer ofender, não concordo com quase nada do que você escreveu. Mas eu acho que te entendo. Porque às vezes a gente tem paixões que estão acima de um mínimo de argumentação racional, de um mínimo de bom senso, ou ainda, de um mínimo de refinamento crítico. É por essas e outras que as pessoas se casam ou então escutam extasiadas, como eu, James Brown. Mas arte não é só prazer ou desprazer você deve concordar comigo- então melhor separar o joio do trigo, ponto por ponto.

Jazz

Jazz é a música erudita do nosso tempo? É verdade, o povo que aparece no Ken Burns defende esta idéia - ainda que muitas vezes de forma implícita. Não é bem uma novidade. Há até argumentações extravagantes, talvez delirantes, como as que comparam as fases do jazz aos períodos clássicos: new orleans/barroco, swing/romantismo, bebop/modernismo, cool/impressionismo... Eu mesmo, durante uma época, acreditava que o jazz era a música erudita não oficializada e em vias de oficialização.

Mas, de qualquer forma, para quem assim quiser, há bons motivos pra se acreditar que o jazz é a música erudita do nosso tempo. Fato: o jazz já está sendo ensinado em conservatório -em boa parte porque o tio Marsalis é diretor artístico do Lincoln Center, um braço da Julliard. Aliás, é bom lembrar, a Lincoln Center Jazz Orchestra, esse ano, tocou peças de Stravinsky, Shostakovich, Ellington e Marsalis. Onde? No Philharmonie -a casa da Filarmônica de Berlim. O regente? Claudio Abbado. Quer mais uma de cair o queixo? Acredite, existe o The Berlin Philharmonic Jazz Group, que não é menos do que a banda de jazz dos músicos da Filarmônica de Berlim.

Fato: nenhuma outra música de origem popular teve tanta influência sobre a arte do século XX (excluindo a arte pop, naturalmente, que como bem disse Argan, não expressa a criatividade do povo e sim a falta de criatividade da massa) quanto o jazz. Aliás, nenhuma outra música de origem popular teve tamanha importância sobre a própria música popular e mesmo erudita do século XX. É bom lembrar que, sem o jazz, os tais guris 10 sequer existiriam.

Fato: nenhuma outra música de origem popular tem uma história com tantas transformações como o jazz. O jazz tem tradição -até hoje se toca a música de New Orleans. O jazz tem uma escola. Tem um método. Isto também é novidade, se pensarmos em música popular. Mas, ainda assim, cada vez me convenço mais de que o jazz não é erudito. Porque cada vez mais acho que a música erudita é um fenômeno tipicamente europeu, com regras um tanto inflexíveis, que seguem uma tradição de séculos - o jazz é por demais exótico, por demais preto, pra se encaixar nessas gavetas.

A tradição da música erudita tem dois grandes pilares: a sua escrita e, em decorrência desta, a sua harmonia. É por causa da escrita, da partitura, que a história musical do ocidente começa na Idade Média e não com os gregos ou romanos. E é por causa do domínio da harmonia e de sua transformação que se fez a luz nestes mais de mil anos de tradição européia. E aí vem a constatação óbvia: a tradição do jazz não vem nem de sua escrita e, muito menos, de sua harmonia.

Para mim, Caetano, ouso discordar, mas a tradição e a história do jazz vem da improvisação e do ritmo -não vem da canção. Parece-me uma heresia, por exemplo, atrelar a novidade ou a beleza do BeBop às suas origens nesta ou naquela canção. O BeBop fez história porque inventou um novo ritmo e um nova forma de improvisar - em formatos tão radicais que permitiram que seus discípulos, como Ornette Coleman ou o último John Coltrane, construíssem um mundo absolutamente incompatível com o universo da canção.

A história do jazz sempre foi esta: brincar com a invenção do ritmo e do improviso - esta é a única possibilidade de se costurar o jazz por inteiro, do início aos dias de hoje. A canção era secundária a ponto de o jazz prescindir dela - e, sim, diferente de você, para mim o jazz sem público e sem canção, o jazz de muito Coltrane, de muito Mingus e de muito Dolphy é tão maravilhoso quanto o de Armstrong ou de Ellington. Normalmente, quando se defende que o jazz é a música erudita do nosso tempo, o que está se buscando é um status intelectual, um status de sofisticação artística que, a princípio, o jazz não teria.

De certa forma, esta busca é uma reação ao ostracismo intelectual e ao calvário racista pelo qual o jazz passou e continua passando nos Estados Unidos. Mas, acho que o atestado de comprovação de qualidade não precisa, ou melhor, não deve ser intermediado pelo ideal europeu de arte. Até porque, se assim fosse, o jazz seria mesmo uma música de segunda categoria: sem escrita e sem nenhuma contribuição relevante de harmonia. O jazz faz parte de outros valores. Da mesma forma que Pollock, Cage, Hermeto, Garcia Márquez, só para citar alguns, o jazz tem outro sabor, outro tempero, outra sabedoria. E desenvolveu uma história suficientemente inteligente e complexa para, inclusive, fazer o caminho de volta: influenciar a música e a arte européias contemporâneas. Não precisamos do eurocentrismo para legitimar a genialidade do jazz. Para mim, a improvisação já é algo suficientemente magnífico.

Pop

Caetano, ouso mais uma vez discordar - a única vez que Beethoven foi pop, foi quando Richard Clayderman gravou a quinta sinfonia. Com direito a bateria e baixo de teclado Cassio. Mas isto não é Beethoven -isto é Clayderman. Afirmar que Beethoven tenha sido pop é um equívoco em qualquer sentido: tanto no sentido de que Beethoven nunca foi um músico de sucesso popular, quanto no sentido de que Beethoven não faz parte da arte produzida durante a sociedade industrial, a sociedade da proliferação dos meios de comunicação de massa.

Falar que a música erudita contemporânea está divorciada do público deu margem a muitos equívocos e o primeiro é achar que, na época de Beethoven, as pessoas o escutavam na mesma quantidade que hoje nós escutamos os Beatles. A história da música, neste sentido, é semelhante à história da literatura: quanto mais pra trás, mais restrita, mais elitizada, mais inacessível. Com a massificação da cultura do século XX (no caso da música: invenção da indústria fonográfica, das rádios, da bestialidade da MTV e, mais recentemente, do Mp3), uma certa "arte" chegou a grande parcela da população que antes nem sequer desconfiava o que isto era. Mas não sem um preço caro: adequar a produção artística aos moldes da sociedade industrial -aí apareceram aberrações como a versão de três minutos, de Clayderman, da quinta de Beethoven.

Claro, isto é uma mão de duas vias, não só de cima para baixo. O público, por outro lado, deseja Clayderman. E assim deseja por motivos diversos e complexos -seja pela própria influência do mercado, seja pelo fracasso do sistema de ensino quando o assunto é reflexão, seja por motivos ainda obscuros. Convém lembrar que, no caso do sistema de ensino, há uma novidade no século XX - a sua difusão. Foi só a partir deste século que a maioria da população do mundo teve acesso a informações tão básicas quanto, por exemplo, a alfabetização...

Crise da música erudita? O que está acontecendo é que a pequena parcela que dialoga com a música erudita (nos Estados Unidos, esta parcela é de 15%, contando aí, lógico, a parte mais comercial do fenômeno, como os Três Tenores), parcela que jamais foi suficientemente grande para sugerir que a música erudita tenha sido realmente pop algum dia, hoje, está preferindo a música do passado, e não a produção do presente. Esta é a crise.

Não é que o público que antes ouvia música erudita hoje esteja ouvindo Radiohead. Não, o público, sempre restrito, que na época de Mozart ouvia Mozart, que na época de Beethoven ouvia Beethoven, que na época de Brahms ouvia Brahms, hoje, não ouve Ligeti ou Boulez, mas Mozart, Beethoven ou Brahms. Esta é a crise. Não vou me arriscar sobre o porquê da existência dessa crise.

Mas não preciso - o que me importa e o que está mais do que óbvio na minha argumentação, Caetano, é que, para que uma obra de arte seja genial, o sucesso de público é absolutamente secundário. Aliás, "sucesso de público" é uma invenção doséculo XX, bem típica dos marketeiros, esta gente desmiolada que conheço bem. A essência do seu argumento é este vínculo entre qualidade da arte e sucesso de público que, honestamente, abomino -parece que, para você, Beethoven foi o grande músico de sua época porque vendia bem. O pop é a grande música da nossa época porque vende bem. O jazz só foi a grande música de sua época quando vendia bem.

Então devo aceitar que Van Gogh era um péssimo pintor porque não conseguiu vender um quadro quando era vivo? Porque não tinha sucesso de público? Haendel e Telemman fizeram muito mais sucesso comercial do que Bach em sua época -então devo concluir que eram músicos melhores? Essa associação é absurda e perigosa. O fato de a música erudita contemporânea não ter público não a desmerece nem a desqualifica. O mesmo argumento vale para o jazz.

E o mesmo argumento também vale para a própria arte popular de verdade (não a arte pop, que é algo muito diferente), que não precisa de marketeiros, nem de Pro Tools, nem de sites cools e nem de vídeo clipes transados -gente, gente de verdade, como Cartola, ou Bessie Smith, por exemplo. Não os guris mimados do Radiohead. Aí você argumentaria, mas o jazz foi pop! Alto lá. O jazz que foi de fato pop, que vendeu horrores, foi o jazz branco da era do swing. Mas admito que a cultura pop também tem suas complexidades, não sou tão radical quanto Adorno.

Durante o desenvolvimento da cultura de massas do século XX, houve momentos de cisão com os padrões estabelecidos e, indiscutivelmente, como observa Umberto Eco, existiram e existem bens culturais que, ainda que originários de estruturas massificadas, transformaram-se em obras de arte autênticas, caminhando com as próprias pernas, independente do humor dos valores políticos ou econômicos -o jazz (o exemplo é do próprio Eco) é uma evidência notável desta possibilidade de transgressão, manisfestando-se como música de massa durante os anos 30 e ocupando, hoje, um registro marginalizado de rádios e televisões, preenchendo uma fatia de mercado menor que a da música erudita. Mas isto é um assunto longo, para uma outra hora.

Radiohead

Há quem ache que Guerra nas Estrelas é uma obra de arte com profundidade narrativa semelhante à da mitologia grega. Há quem ache que Moebius é um artista plástico tão poderoso quanto Picasso. Há quem leia Jô Soares como um autêntico escritor brasileiro. E há quem vislumbre o Radiohead como a música erudita do nosso tempo. Mas eu não. Entendo a arte pop como entretenimento, como lazer, como diversão. Da mesma forma que você acha que o Radiohead o máximo, também adoro Spielberg -mas sou o primeiro a apontar as limitações de E.T. ou Tubarão.

Você enumera uma porção de argumentos em defesa da sofisticação do Radiohead, mas, convenhamos, Caetano, da mesma forma que Indiana Jones sempre vence no final (por mais que Spielberg domine a técnica ou os Pro Tools próprios do cinema...) a música do Radio Head é previsível, é fast food, e, pra mim, honestamente, é chata pra cacete. "Música erudita do nosso tempo" é um delírio. Tentei ouvir Ok Computer mais de uma vez, mas não consegui. Lá estão os três minutinhos de sempre, o refrãozinho que volta no final e o que é pior: a estandardização da cultura tecnológica. Pro Tools em música é o mesmo que o Photoshop em artes plásticas. Você conhece algum grande artista plástico que use o Photoshop? Eu também não -só deu caca. Só suporto a música pop quando ela é reinventada na linguagem do jazz.

Leia o artigo original do Lapão

 

 

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