O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 24/09/2001

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De pulchris bonisque

Caetano Waldrigues Galindo

Sobre apenas coisas belas. Coisas boas. Antidose.

Beth Gibbons. Uma. Esqueci-me dela na minha listota de divas particulares no pé do texto sobre a Björk. Não pude me perdoar.

Cantora. Da banda inglesa Portishead. IDM, trance, trip hop; sei lá como os especialistas chamariam aquilo. Pra mim são canções, minha pátria preferida. E belas canções.

Essa moça é a primeira cantora pop que, não hereticamente, vi comparada, logo que surgiu, à mãe Billie Holiday. De todo o direito foi dito.

Cantora impressionante. Muito melancólica. O oposto da Björk; talvez por isso vulgarmente esquecida naquela ocasião. Seria a Lady Day apenas na última fase: voz quebrada, um pouco maneirista, dolorosa. Como ela, não dispõe de uma voz que, de saída, parecesse predispô-la a cantar. Como ela, é mais inteligente, mais musicista do que diva, malabarista. Linda.

Ouçam Numb, Glory Box, e a belíssima e apropriada para os momentos atuais Sour Times, tempos amargos. Ouçam, qualquer um com abertura suficiente para música bonita de todo o tipo.

Luigi Nono. Outra. Homem morto. Talvez o mais difícil e o mais fácil dos grandes músicos da segunda metade do século vinte. Estamos falando do domínio da dita música erudita.

Estou falando apenas do Nono da última fase. A partir dos anos oitenta. Muito silêncio. Muita textura. Muita delicadeza. Música eletrônica. Música acústica. Não importa.

Tudo devotado à apreciação final do som. Ao surgimento e desaparecimento de cada nota, de cada cluster, cada acorde.

Extremamente indicado para todos os que amam música além da música. Antes da música.

Você fica feliz quando está em silêncio e ouve, repentino, o apito de um trem? Você sorri quando dois elevadores chegam ao mesmo tempo em um andar vazio e tocam suas sinetinhas ligeiramente desafinadas? Você derruba um copo e sente o som ecoar bastante tempo? Prazerosamente? O copo caiu porque você estava percutindo a beirada pra ver como era? Divirta-se.

Vinho. Pele. Não sei. Coisas belas e boas. Mediocremente, como deve ser. Analgesia. Por alguns momentos.

LICHTENBERG, 1742-1799.

Aproveito pra começar a divulgar semanalmente algo dos Aforismos do velho Lichtenberg, Georg Christoph. Matemático, filósofo, crítico de arte, corcunda, anglômano e puellarius alemão do final do século dezoito.

Divulgo porque eles são em geral muito bons. E porque o cara, fora da Alemanha - onde é e foi idolatrado por todo o mundo, desde Goethe- continua bem desconhecido.

As traduções serão sempre minhas. E sempre a partir do texto inglês de que disponho. Graças.

Aproveitem.

1.
O grande artifício de se considerar pequenos desvios da verdade como sendo a mesma verdade é ao mesmo tempo a fundação do espírito, onde a coisa toda freqüentemente desmoronaria se devêssemos considerar esses desvios com algum rigor filosófico.

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Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

 

 

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