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De pulchris bonisque
Caetano Waldrigues Galindo
Sobre apenas coisas belas. Coisas boas. Antidose.
Beth Gibbons. Uma. Esqueci-me dela na minha listota
de divas particulares no pé do texto sobre a Björk. Não pude me
perdoar.
Cantora. Da banda inglesa Portishead. IDM, trance,
trip hop; sei lá como os especialistas chamariam aquilo. Pra mim
são canções, minha pátria preferida. E belas canções.
Essa moça é a primeira cantora pop que, não hereticamente,
vi comparada, logo que surgiu, à mãe Billie Holiday. De todo o direito
foi dito.
Cantora impressionante. Muito melancólica. O oposto
da Björk; talvez por isso vulgarmente esquecida naquela ocasião.
Seria a Lady Day apenas na última fase: voz quebrada, um pouco maneirista,
dolorosa. Como ela, não dispõe de uma voz que, de saída, parecesse
predispô-la a cantar. Como ela, é mais inteligente, mais musicista
do que diva, malabarista. Linda.
Ouçam Numb, Glory Box, e a belíssima
e apropriada para os momentos atuais Sour Times, tempos amargos.
Ouçam, qualquer um com abertura suficiente para música bonita de
todo o tipo.
Luigi Nono. Outra. Homem morto. Talvez o mais difícil
e o mais fácil dos grandes músicos da segunda metade do século vinte.
Estamos falando do domínio da dita música erudita.
Estou falando apenas do Nono da última fase. A partir
dos anos oitenta. Muito silêncio. Muita textura. Muita delicadeza.
Música eletrônica. Música acústica. Não importa.
Tudo devotado à apreciação final do som. Ao surgimento
e desaparecimento de cada nota, de cada cluster, cada acorde.
Extremamente indicado para todos os que amam música
além da música. Antes da música.
Você fica feliz quando está em silêncio e ouve, repentino,
o apito de um trem? Você sorri quando dois elevadores chegam ao
mesmo tempo em um andar vazio e tocam suas sinetinhas ligeiramente
desafinadas? Você derruba um copo e sente o som ecoar bastante tempo?
Prazerosamente? O copo caiu porque você estava percutindo a beirada
pra ver como era? Divirta-se.
Vinho. Pele. Não sei. Coisas belas e boas. Mediocremente,
como deve ser. Analgesia. Por alguns momentos.
LICHTENBERG, 1742-1799.
Aproveito pra começar a divulgar semanalmente algo
dos Aforismos do velho Lichtenberg, Georg Christoph. Matemático,
filósofo, crítico de arte, corcunda, anglômano e puellarius
alemão do final do século dezoito.
Divulgo porque eles são em geral muito bons. E porque
o cara, fora da Alemanha - onde é e foi idolatrado por todo o mundo,
desde Goethe- continua bem desconhecido.
As traduções serão sempre minhas. E sempre a partir
do texto inglês de que disponho. Graças.
Aproveitem.
1.
O grande artifício de se considerar pequenos desvios da
verdade como sendo a mesma verdade é ao mesmo tempo a fundação do
espírito, onde a coisa toda freqüentemente desmoronaria se
devêssemos considerar esses desvios com algum rigor filosófico.
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Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia
Românica e língua portuguesa na Universidade Federal
do Paraná.
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