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O dia do foda-se
Caetano Waldrigues Galindo
"Faz hoje nove anos que se pode festar
Essa efeméride jóia que nos faz bolir
E até regozijar"
Noel Rosa
Amigos, romanos, peões de boiadeiro!
Comemora-se, nessa semana que entra depois desta, ou em que entramos
nós - dependendo muito de de onde vem ela e de pra onde vamos nós
- e comemora-se agora pela primeira vez em rede nacional, o nono
Dia Universal do Foda-se.
Instituído em um ensolarado vinte e quatro de Agosto do já distante
deitado de lado na cinza dos anos ano de 1992 - outra década, outro
século, outro proparoxítono! -, dia de véspera do dia do dia do
soldado (o que de por si só já havia de motivar em abastança sua
criação, lá dele), em que nos encontrávamos, nós, os humildes ainda
que orgulhosos, experientes ainda que novos, galindos ainda que
como que pouco jeitosos, nós os precoces ainda que meio devagares
criadores e instituidores dos festejos, cansados e mortificados
pelo excesso daquele que tudo nos dá e nos há de fundir,
o sol, o benfazejo e torturante potencialmente sol, e em que decidimos
que era hora de parar, o dia do foda-se acabou se mostrando mais
uma criação digna do selo Galindo, digna do histórico dessa família
que já tudo mostrou e ainda tanto nos tem a oferecer.
Pois Mundus Patet!
O mundo se mostra! Era assim que chamavam os romanos a apenas três
dias de seu calendário, o oito de novembro, o cinco de outubro,
aniversário deste que vos escreve (presentes e imêious de felicitação
devem ser encaminhados à redação) e o mesmo esse mesmo dia vinte
e quatro de agosto. Nesse dia, dia nefasto dos dias nefastos, evitavam
eles sair de casa, como que ficavam tremendo em cima de suas sandalinhas
e balançando os saiotes de medo. Sabeis por quê, ó preclaros leitores?
Porque diziam eles estar nesse dia pelo mundo vagando toda a horda
do mundo inferior, que nessas apenas três ocasiões passeia livremente
por seu, lá deles, deles romanos, mundo de lá de cima. De cima do
de baixo, bem entendido, pois que inda muito abaixo do de cima.
De cima lá do deles, muito claro fique então.
Eram dias terríveis! Eram dias negros! Era do balaco!
Pois bem, permito que vocês tomem agora o tempo de preventivamente
pasmar, porque pretendo compartir uma informação de fato chocante.
Pasmaram?
Bem, o fato é o seguinte. Assim, sem rodeios nem circunlóquios.
Na cara. Na dura. Na chincha. Porque a gente é assim mesmo, não
é porque temos de admitir aquilo que um espírito mais pobre consideraria
uma fraqueza que vamos agora começar a medir palavras. Dizemos de
nós tudo e de toda forma o que de outros diríamos. Assim. Na bucha.
Como que pra dar o exemplo, sabe?
Pois o negócio é o seguinte. Por mais que seja assustador a vocês,
temos o dever de lhes informar que nem sempre, nem de sempre, desde,
tiveram os fratelli wg a sólida cultura clássica que demonstram
a todo momento e a respeito de qualquer tema.
A verdade batatuda é que, nuovi anni fa, nós nem sabíamos o que
eram dias fastos e nefastos. A gente não é foda?
Por uma espécie de conjunção astral qualquer (nomeadamente a conjunção
de um monte de sol em cima da nossa cacunda), inventamos de meter
o nosso precioso invento, nosso dia do foda-se, exatamente em um
dos três dias do mundus patet. E fica tudo justificado!
Não pcisa dzê mah nada, não!
Dia vinte e quatro de agosto que entra, no bom sentido, é dia do
foda-se.
Leitor, meu semblável, meu freire, passe dez minutos contemplando
o cosmos. Vá trabalhar de roxo. Cante o dia inteiro. Falte a algum
compromisso chato. Interprete literalmente todo e qualquer enunciado,
mesmo os fáticos. Escreva memorandos ininteligíveis.
Foda-se!
Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia
Românica e língua portuguesa na Universidade Federal
do Paraná.
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