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Quod scripsimus
Caetano Waldrigues Galindo
Papel voava.
Viu-se pela tevê, como todo o resto. Quando as duas
torres do dia 11 foram atingidas; do meio do fogo, do meio do inferno
voou uma improvável chuva de papel. Milhares de folhas cobriram
Lower Manhattan logo antes de virem abaixo os dois prédios, logo
antes de cessarem milhares de pessoas. No momento em que algo se
rompeu.
Registros. É toda a razão porque escrevemos, é o registro
com que se conta. Financeiros seriam esses. Não importa, perderam-se.
Pela mesma razão, pelos choques que geraram aquela
chuva, milhares de pessoas estavam-se perdendo, ou viriam a estar
perdidas. E outros milhares, muitos mais, ficavam alijados dessas;
perdiam nelas algo que só com elas existiria. Um futuro possível
e a contínua construção do passado. Interrompida.
Alguém que morre subtrai-se ao tempo. Ampute-se a
alguém uma pessoa, e algo do tempo, algo da definição do humano,
no tempo e pelo tempo, se perde também. Perde-se um futuro. Perde-se
um possível. Restam apenas papéis, espalhados, soprados pelo fogo,
consumidos pela explosão. Resta a morte. Uma cadeia se interrompe.
É esse o pouco da morte que aprendemos dos mortos.
É essa morte que foi dada a famílias, a amigos, a homens e mulheres
que a sentiram e vão mais sentir pela ausência de cada uma daquelas
vidas pulverizadas. A morte que é a impossibilidade de viver no
tempo. Restando só o passado, restando só História: papéis, registros,
cartas, fotografias. Tempo morto, história do tempo. De um tempo
sem devir. De um tempo em contra-senso. História que só existe sobre
cinzas.
Fez-se. Naquela terça-feira, fez-se História. Rompeu-se
nosso tempo. Dia zero. Fincou-se a seta. (E é freqüentemente assim
que a História se dá à luz: à custa do fim de histórias singulares,
freqüentemente milhares, freqüentemente de um estalo. Freqüentemente
há penas). Morreram as vítimas. Aprenderam algo de sua morte os
sobreviventes. E nunca fomos tantos. Pois morreram as vítimas, outras
morrerão no mesmo rastilho do tempo que se começou a contar em Nova
Iorque. Mas resta o Tempo. Resta a História enquanto restarmos nós.
Mas agora tememos. Tememos a mais violenta das negações:
a de que fôssemos, todos, privados da História. Pois a que nos resta
agora talvez nunca tenhamos tido tanta razão para ver como sua mesma
possível consumação.
Vimos uma ruptura, violenta como poucas terá havido;
assistimos com uma nitidez primeira. Absurda. Vimos todos, depois
das inteligentes e elegantes formulações sobre "o fim da História",
no século vinte, a possibilidade real de que o futuro possível fosse
de fato roubado. E com ele o passado. Vimos, assistimos à ominosa
explosão da possibilidade do impossível: de que nem mesmo registros
possam viver, pela mera falta e simples de um olho que lhes dê voz.
Bach. Sem futuro não há Shakespeare.
Vimos. Assistimos. Tivemos medo. Eu tenho.
Tivemos medo e, com ele, esperamos.
Esperamos que a ruptura marque um começo: esperança
de que se possa construir um passado mais limpo partindo das cinzas
e do futuro de hoje. Um futuro construído sobre o túmulo de um século,
o túmulo de milhares de ausências. Construído em cicatrizes. Em
lembrança. Em registros em nossas vidas, em marcas em nossos tempos.
Vimos a ruptura. Veremos seu desdobrar: será violento.
Havemos de ver suas conseqüências.
Esperemos que o que surja seja melhor. Que o que cada
um e cada povo aprendeu da morte em minutos possa ser carregado
como mácula e como aviso. Esperemos pelo melhor.
Não sei.
Cuidem, cuidem de seu tempo, cuidem do que amam, cuidem
de suas histórias.
Saúde.
Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia
Românica e língua portuguesa na Universidade Federal
do Paraná.
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