O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 17/09/2001

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Quod scripsimus

Caetano Waldrigues Galindo

Papel voava.

Viu-se pela tevê, como todo o resto. Quando as duas torres do dia 11 foram atingidas; do meio do fogo, do meio do inferno voou uma improvável chuva de papel. Milhares de folhas cobriram Lower Manhattan logo antes de virem abaixo os dois prédios, logo antes de cessarem milhares de pessoas. No momento em que algo se rompeu.

Registros. É toda a razão porque escrevemos, é o registro com que se conta. Financeiros seriam esses. Não importa, perderam-se.

Pela mesma razão, pelos choques que geraram aquela chuva, milhares de pessoas estavam-se perdendo, ou viriam a estar perdidas. E outros milhares, muitos mais, ficavam alijados dessas; perdiam nelas algo que só com elas existiria. Um futuro possível e a contínua construção do passado. Interrompida.

Alguém que morre subtrai-se ao tempo. Ampute-se a alguém uma pessoa, e algo do tempo, algo da definição do humano, no tempo e pelo tempo, se perde também. Perde-se um futuro. Perde-se um possível. Restam apenas papéis, espalhados, soprados pelo fogo, consumidos pela explosão. Resta a morte. Uma cadeia se interrompe.

É esse o pouco da morte que aprendemos dos mortos. É essa morte que foi dada a famílias, a amigos, a homens e mulheres que a sentiram e vão mais sentir pela ausência de cada uma daquelas vidas pulverizadas. A morte que é a impossibilidade de viver no tempo. Restando só o passado, restando só História: papéis, registros, cartas, fotografias. Tempo morto, história do tempo. De um tempo sem devir. De um tempo em contra-senso. História que só existe sobre cinzas.

Fez-se. Naquela terça-feira, fez-se História. Rompeu-se nosso tempo. Dia zero. Fincou-se a seta. (E é freqüentemente assim que a História se dá à luz: à custa do fim de histórias singulares, freqüentemente milhares, freqüentemente de um estalo. Freqüentemente há penas). Morreram as vítimas. Aprenderam algo de sua morte os sobreviventes. E nunca fomos tantos. Pois morreram as vítimas, outras morrerão no mesmo rastilho do tempo que se começou a contar em Nova Iorque. Mas resta o Tempo. Resta a História enquanto restarmos nós.

Mas agora tememos. Tememos a mais violenta das negações: a de que fôssemos, todos, privados da História. Pois a que nos resta agora talvez nunca tenhamos tido tanta razão para ver como sua mesma possível consumação.

Vimos uma ruptura, violenta como poucas terá havido; assistimos com uma nitidez primeira. Absurda. Vimos todos, depois das inteligentes e elegantes formulações sobre "o fim da História", no século vinte, a possibilidade real de que o futuro possível fosse de fato roubado. E com ele o passado. Vimos, assistimos à ominosa explosão da possibilidade do impossível: de que nem mesmo registros possam viver, pela mera falta e simples de um olho que lhes dê voz.

Bach. Sem futuro não há Shakespeare.

Vimos. Assistimos. Tivemos medo. Eu tenho.
Tivemos medo e, com ele, esperamos.

Esperamos que a ruptura marque um começo: esperança de que se possa construir um passado mais limpo partindo das cinzas e do futuro de hoje. Um futuro construído sobre o túmulo de um século, o túmulo de milhares de ausências. Construído em cicatrizes. Em lembrança. Em registros em nossas vidas, em marcas em nossos tempos.

Vimos a ruptura. Veremos seu desdobrar: será violento. Havemos de ver suas conseqüências.

Esperemos que o que surja seja melhor. Que o que cada um e cada povo aprendeu da morte em minutos possa ser carregado como mácula e como aviso. Esperemos pelo melhor.

Não sei.

Cuidem, cuidem de seu tempo, cuidem do que amam, cuidem de suas histórias.

Saúde.

Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

 

 

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