O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 02/09/2001

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Sló

Caetano Waldrigues Galindo

Pletora! Lotes de assuntos possíveis.

Prometi semana passada voltar a falar de vanguardas. E de Hipóstases! Depois disso me decidi por escrever pro meu irmão uma carta aberta de emputecimento macacal. Aí, durante o episódio Sílvio Santos, que acompanhei apaixonadamente como todas as almas com amor cívico em seus peitos, concluí que devia de escrever sobre o Pirandello. E escrever sobre Pirandello é sempre legal..

Mãs..

Aí veio uma mulher e mudou completamente meus rumos raciocinísticos da semana. Elas costumam fazer isso comigo. E, essa, muitíssimo especialmente. Epifania. Revelação. Não há depois disso caminho mais que se sustente que não o mostrado. Escrever uma ode.

Björk Guthmundsdóttir. Gling-Gló. Lindos ambos sob qualquer aspecto.

Versões islandesas para canções americanas, alguns originais islandeses, gravadas por uma menina que tinha então vinte e cinco anos, e acabava de sair dos Sugarcubes, uma das mais endeusadas e fugazes bandas dos anos oitenta (sim, André, continuo falando de pop. Mas espera e não te decepcionarás). Um disco gravado com um trio de Jazz, de mediano para bom, islandês.

Tinha tudo ou mais que isso pra dar errado. Björk, a filha (dóttir) de Guthmundur, em um disco de nome Tic-Tac..

Essa mesma menina, dez anos depois, ganharia uma palma de ouro em Cannes, por aquele que, para a maioria das pessoas, era seu primeiro filme. Um Filme que tinha tudo pra dar errado. Um MUSICAL, com coreografias à la Busby Berkeley e tudo mais, sobre uma operária tcheca que junta dinheiro para a cirurgia que evitaria que seu filho fique cego, como ela. Um dos filmes menos elegantes, discretos e contidos, em tudo, que já vi.

O filme é devastador, poderosíssimo. O disco é maravilhoso. Tudo e só por ela.

Arrebatadora como atriz, acima de tudo a menina canta. Era essencialmente isso tudo o que eu queria dizer aqui, e virtualmente tudo o que jamais vou conseguir DIZER. A menina canta.

Ela parece simplesmente abrir a boca e soltar alguma multidão de encantos absolutamente indomados. Ela canta, tout-court.

Peca em técnica, peca em afinação, sobretudo em registros mais graves. Mas e daí. Ela canta. Ela mostra sobejamente que aqueles que cantam são os artistas mais especiais de todos. Eles não precisam de suporte, mal precisam de um meio, não precisam nem mesmo da luz, da visão de que para quase tudo dependemos. Eles estão o mais próximo possível da música como entidade abstrata, sem que deixem de ser concretos. Orgânicos e nada mais..

O canto é a execução musical mais imediata, menos conspurcada pela materialidade. E ela, especificamente, parece até nos dizer que está mais nua. Não há impostação, não há floreios de virtuosi. Há uma menina. Cantando. Gemendo. Sussurando. Clamando. Cantando.

Com um controle de dinâmica inaudito. Uma violência e uma inventividade monstruosas. Um leque de recursos que escapa aos trilos e mordentes, mas abusa de distorção, tatibitati, gritos fora de controle e harmônicos. Tudo isso em uma língua que nos é impermeável. Tanto melhor. Em canções saltitantes, medianas. Tanto melhor.

Acompanhada de músicos pouco mais do que corretos. Tanto melhor. Sobra a voz. Sobra apenas o fato de que aquela menina abre a boca e libera as minhas lágrimas. Abre a boca e põe seu corpo inteiro a serviço da emissão de um som que os malditos puristas chamariam de ruído. Assim como foi, por exemplo, com os acordes de Debussy.

Há duas cenas, as mais duras, do filme de Lars VonTrier, Dancer in the Dark, em que tudo depende apenas dessa sua nudez. Não há quase cenografia, ela está sozinha na câmera, a captação do som é direta, não há efeitos. E ela canta. E dói monstruosamente.

Canta, da primeira vez, My favorite things, da Noviça Rebelde, desesperada. E dói terrivelmente em qualquer um que saiba o que a relação que aquela pessoa tem com a música significa.

Na outra vez, trata-se da última cena do filme. O disco você só encontra importado, ou os arquivos em mp3, mas o filme já está em vídeo. E basta. Essa seqüência final pode mostrar tudo que eu não consigo aqui.

Ela simplesmente canta. Totalmente. Linda e muito dolorosamente.

Emma Kirkby, Kathleen Battle, Billie Holiday, a Sarah Vaughan jovem, Marisa Monte, Björk. Mulheres. Anjos. Arte. MÚSICA. A vida vale a arte que elas sejam

Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

 

 

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