O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 09/09/2001

Colunas Resenhas Links Sobre E-mail

Artigos anteriores

Uma ode a Björk

Paulo Coelho e a vanguarda

O dia do foda-se

Vamos à música: sejamos mais felizes

Gerald Thomas entrevista (sic) Gal Costa (chic)

Aureae mediocritates: Haroldo de Campos e seu pseudo-poema na Folha

De coronae muscis:
a arte da picaretagem e a picaretagem na arte

Oblivescenda: estamos nos esquecendo de boa parte do mundo

 

Legomena

Caetano Waldrigues Galindo

(....), e com estas cõdições prometo de vos servir e dizer ho pouquo q souber, e logo vos ey de dizer as cousas que sey be sabidas, e as em que tenho duuida, com juramento de falar muyta verdade.

Garcia D'Orta: Colóquios dos simples e drogas
e cousas medicinais da Índia

Muitas palavras que já morreram terão um segundo nascimento, e cairão muitas das que agora gozam das honras, se assim o quiser o uso, em cujas mão está o arbítrio, o direito e a lei da fala.

Horácio: Ars poetica, vv 70 et seqq.

Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo.

Ludwig Wittgenstein: Tractatus logico-philosophicus, 5.6

Uma língua é um lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir.

Vergílio Ferreira (discurso ao receber o prêmio Europália)

 

Começa assim o grande trabalho do grande Houaiss, que chegou a livrarias da cidade e das outras na semana que passou. Epígrafes.

A mim me agradam sobremaneira as epígrafes. No meu mestrado, que é em muitos sentidos uma experiência de viadagem formal, gastei tempão escolhendo as minhas. Acabam sendo, se não mais importantes, mais divertidas que os títulos. Muito mais para o caso de uma obra ter de se chamar apenas Dicionário disso ou daquilo.

Desde os autores escolhidos até ao conteúdo mesmo dos textos das epígrafes, esse dicionário diz de saída a que veio. E mostra que as Odes ao Dicionário e os Nerudas que o Aurélio sapecava em suas palavras de pórtico tratam de um domínio bem outro, algo que mesmo o projeto gráfico da edição, se comparado com o da apresentação corrente do Aurélio vem realçar, agora como mercadologia. Seriedade. Habemus Lexicon. Temos um dicionário de dar inveja em Websters e Larousses e quejandos. Talvez não no Oxford. Mas peraí, né..

O Aurélio cumpriu sua nobre e longa função. Mas o Aurélio está morto. Ele e suas abonações enlouquecidas, sua nominata meio mal definida, sua etimologia sucinta e excessivamente segura. Houaiss está morto; viva Houaiss. O homem não pôde viver até ver sua grande obra completa e publicada (ainda que haja más línguas tenham sido capazes de insinuar que ele tenha segurado o preparo para esperar a reforma ortográfica, também sua filha) mas eu, por mim, me sinto com uma grande vontade de dar um abração no velhinho.

Trata-se de um dicionário avassalador, pela quantidade e organização de informação.

Datas de entrada na língua, por exemplo, catalogadas a partir de mais de mil e quinhentas fontes compulsadas, de todos os períodos da história da língua portuguesa. O dicionário etimológico da Nova Fronteira, por exemplo, tinha lá uma dezeninha de fontes catalogadas, o que fazia com que, irritantemente, as palavras cismassem de entrar todas nos mesmos anos em uso. E era um dicionário que pretendia fazer só isso. Está morto. Seu próprio autor está entre os datadores do Houaiss. Temos agora no mesmo Houaiss um obra lexicográfica com etimologias razoavelmente detalhadas e, se caso for, discutidas. Sinonímia e antonímia colocadas no corpo dos verbetes. Os dicionários escolares agonizam. Amplidão geográfica não vista antes: a obra se nomeia dicionário da língua portuguesa, e é dela, em toda sua extensão que busca tratar. Aquele ponto de vista martelado, em que as palavras eram neutras até que fossem tidas por brasileirismos está morto. Há regionalismos sim, mas eles podem ser de mais de uma região do Brasil, podem vir de Cabo Verde, Moçambique, e podem ser regionalismos portugueses (eles perderam a língua e o direito de ser referência inconteste há tempos.. Usucapio). Há informação mais ampla sobre áreas técnicas, devidamente catalogada e fornecida; as visitas de circunstância a enciclopédias ficam muito melhor instrumentalizadas por uma leitura prévia dos verbetes; se não mesmo dispensadas.

O livro é do balaco. Precisávamos dele e muitos de nós nem sabíamos disso.

Crianças, crianças.. Estou eu parecendo criança com brinquedo novo essa semana. Descontem a empolgação; aceitem o conselho: comprem o dicionário e não se preocupem mais em comprar dicionários de português.

Meu irmão me diz, talvez com acerto, que pra uma busca meio preguiçosa, daquelas que a grandissíssima maioria dos usuários acaba fazendo no dia-a-dia, o Aurélio provavelmente lhe pareça ainda melhor. Há muita informação pesada no Houaiss. Por mim, eu recomendo; sempre recomendaria informação pesada. Todo o tipo dela. Muito dela. Mesmo porque a informaçãozinha perfunctória que neguinho pode desejar está lá. É só se dar ao desplante de não ler o resto dos extensos verbetes.

Se educamos nossas crianças hoje pensando que exposição a informação é fundamental, eduquemo-nos da mesma forma. Você não precisa ser etimologista pra, por vezes, encontrar informação relevantíssima e iluminante, por exemplo, em saber a data de entrada de certa palavra no idioma, ou seu caminho geográfico e cultural até chegar a ele. Basta ser curioso. Open-minded. E curiosidade, a vezes, se desperta só pela cobiça do mais daquilo que se viu exposto. A cobiça é o desejo do olho.

Pra reconhecer que essa informação é relevante, não preciso convencer ninguém. Não preciso cantar Odes a esse ou qualquer outro dicionário. Só é preciso que se reconheça que os limites de um mundo são traçados e pré-estabelecidos pela linguagem, e por uma língua em que possamos materializá-la. E só é preciso querer expandi-los. Só é preciso saber que palavras, signos, são tudo o que temos para enformar, para compreender o mundo da única maneira que nos é dada. Saber mais sobre elas é, por vezes, muitas, saber mais sobre ele. Nosso mundo são signos.

Enfim. Sejamos curiosos, LEIAMOS dicionários. A começar das epígrafes. E esse se presta sobejamente a ser LIDO. A começar das epígrafes.

Bravo.

P.S.

Ando malhando duro entre conhecidos o bom do velho Houaiss, por sua atividade de tradutor. Fica aí essa babação de ovo descarada como prova de que não seja eu assim tão tapado.

Outra.
O texto da gazeta sobre o lançamento é uma pérola de ignorância lingüística e de ignorância da Lingüística. Esse foi o assunto do meu primeiro texto aqui. Acho que volto a ele semana que vem. O Pirandello e as vanguardas podem ficar na gaveta.

Saúde.

Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1