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Legomena
Caetano Waldrigues Galindo
(....), e com estas cõdições prometo de vos servir
e dizer ho pouquo q souber, e logo vos ey de dizer as cousas que
sey be sabidas, e as em que tenho duuida, com juramento de falar
muyta verdade.
Garcia D'Orta: Colóquios dos simples e drogas
e cousas medicinais da Índia
Muitas palavras que já morreram terão um segundo nascimento,
e cairão muitas das que agora gozam das honras, se assim o quiser
o uso, em cujas mão está o arbítrio, o direito e a lei da fala.
Horácio: Ars poetica, vv 70 et seqq.
Os limites da minha linguagem denotam os limites do
meu mundo.
Ludwig Wittgenstein: Tractatus logico-philosophicus,
5.6
Uma língua é um lugar donde se vê o Mundo e em que
se traçam os limites do nosso pensar e sentir.
Vergílio Ferreira (discurso ao receber o prêmio Europália)
Começa assim o grande trabalho do grande Houaiss,
que chegou a livrarias da cidade e das outras na semana que passou.
Epígrafes.
A mim me agradam sobremaneira as epígrafes. No meu
mestrado, que é em muitos sentidos uma experiência de viadagem formal,
gastei tempão escolhendo as minhas. Acabam sendo, se não mais importantes,
mais divertidas que os títulos. Muito mais para o caso de uma obra
ter de se chamar apenas Dicionário disso ou daquilo.
Desde os autores escolhidos até ao conteúdo mesmo
dos textos das epígrafes, esse dicionário diz de saída a que veio.
E mostra que as Odes ao Dicionário e os Nerudas que o Aurélio sapecava
em suas palavras de pórtico tratam de um domínio bem outro, algo
que mesmo o projeto gráfico da edição, se comparado com o da apresentação
corrente do Aurélio vem realçar, agora como mercadologia. Seriedade.
Habemus Lexicon. Temos um dicionário de dar inveja em Websters e
Larousses e quejandos. Talvez não no Oxford. Mas peraí, né..
O Aurélio cumpriu sua nobre e longa função. Mas o
Aurélio está morto. Ele e suas abonações enlouquecidas, sua nominata
meio mal definida, sua etimologia sucinta e excessivamente segura.
Houaiss está morto; viva Houaiss. O homem não pôde viver até ver
sua grande obra completa e publicada (ainda que haja más línguas
tenham sido capazes de insinuar que ele tenha segurado o preparo
para esperar a reforma ortográfica, também sua filha) mas eu, por
mim, me sinto com uma grande vontade de dar um abração no velhinho.
Trata-se de um dicionário avassalador, pela quantidade
e organização de informação.
Datas de entrada na língua, por exemplo, catalogadas
a partir de mais de mil e quinhentas fontes compulsadas, de todos
os períodos da história da língua portuguesa. O dicionário etimológico
da Nova Fronteira, por exemplo, tinha lá uma dezeninha de fontes
catalogadas, o que fazia com que, irritantemente, as palavras cismassem
de entrar todas nos mesmos anos em uso. E era um dicionário que
pretendia fazer só isso. Está morto. Seu próprio autor está entre
os datadores do Houaiss. Temos agora no mesmo Houaiss um obra lexicográfica
com etimologias razoavelmente detalhadas e, se caso for, discutidas.
Sinonímia e antonímia colocadas no corpo dos verbetes. Os dicionários
escolares agonizam. Amplidão geográfica não vista antes: a obra
se nomeia dicionário da língua portuguesa, e é dela, em toda sua
extensão que busca tratar. Aquele ponto de vista martelado, em que
as palavras eram neutras até que fossem tidas por brasileirismos
está morto. Há regionalismos sim, mas eles podem ser de mais de
uma região do Brasil, podem vir de Cabo Verde, Moçambique, e podem
ser regionalismos portugueses (eles perderam a língua e o direito
de ser referência inconteste há tempos.. Usucapio). Há informação
mais ampla sobre áreas técnicas, devidamente catalogada e fornecida;
as visitas de circunstância a enciclopédias ficam muito melhor instrumentalizadas
por uma leitura prévia dos verbetes; se não mesmo dispensadas.
O livro é do balaco. Precisávamos dele e muitos de
nós nem sabíamos disso.
Crianças, crianças.. Estou eu parecendo criança com
brinquedo novo essa semana. Descontem a empolgação; aceitem o conselho:
comprem o dicionário e não se preocupem mais em comprar dicionários
de português.
Meu irmão me diz, talvez com acerto, que pra uma busca
meio preguiçosa, daquelas que a grandissíssima maioria dos usuários
acaba fazendo no dia-a-dia, o Aurélio provavelmente lhe pareça ainda
melhor. Há muita informação pesada no Houaiss. Por mim, eu recomendo;
sempre recomendaria informação pesada. Todo o tipo dela. Muito dela.
Mesmo porque a informaçãozinha perfunctória que neguinho pode desejar
está lá. É só se dar ao desplante de não ler o resto dos extensos
verbetes.
Se educamos nossas crianças hoje pensando que exposição
a informação é fundamental, eduquemo-nos da mesma forma. Você não
precisa ser etimologista pra, por vezes, encontrar informação relevantíssima
e iluminante, por exemplo, em saber a data de entrada de certa palavra
no idioma, ou seu caminho geográfico e cultural até chegar a ele.
Basta ser curioso. Open-minded. E curiosidade, a vezes, se desperta
só pela cobiça do mais daquilo que se viu exposto. A cobiça é o
desejo do olho.
Pra reconhecer que essa informação é relevante, não
preciso convencer ninguém. Não preciso cantar Odes a esse ou qualquer
outro dicionário. Só é preciso que se reconheça que os limites de
um mundo são traçados e pré-estabelecidos pela linguagem, e por
uma língua em que possamos materializá-la. E só é preciso querer
expandi-los. Só é preciso saber que palavras, signos, são tudo o
que temos para enformar, para compreender o mundo da única maneira
que nos é dada. Saber mais sobre elas é, por vezes, muitas, saber
mais sobre ele. Nosso mundo são signos.
Enfim. Sejamos curiosos, LEIAMOS dicionários. A começar
das epígrafes. E esse se presta sobejamente a ser LIDO. A começar
das epígrafes.
Bravo.
P.S.
Ando malhando duro entre conhecidos o bom do velho
Houaiss, por sua atividade de tradutor. Fica aí essa babação de
ovo descarada como prova de que não seja eu assim tão tapado.
Outra.
O texto da gazeta sobre o lançamento é uma pérola de ignorância
lingüística e de ignorância da Lingüística. Esse foi o assunto do
meu primeiro texto aqui. Acho que volto a ele semana que vem. O
Pirandello e as vanguardas podem ficar na gaveta.
Saúde.
Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia
Românica e língua portuguesa na Universidade Federal
do Paraná.
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