Grammatica. Palavra triste, quando se perde um grande
amor..
No portugal pré-renascimento, que por quelas
terras só foi dar lá pelo dezesseis, era useira
e vezeira a oposição de grammatica (o latim) e lynguoagem
(o português). Ensinavam-se as duas coisas, com esses nomes,
como disciplinas absolutamente díspares; isso quando se
ensinava o português.. Tratava-se de uma distinção
de nível: entre uma língua que havia sido estudada,
formalizada e aperfeiçoada (vale lembrar que não
é outro, por exemplo, senão aperfeiçoada
o significado do adjetivo samskrta, aplicado na índia
a outra dessas línguas tradicionais), e uma língua
falada, uma lingüice, uma lynguoagem.
Essa é, de muitas formas, a distinção
que se faz ainda presente em nosso senso-comum por aí;
senso-comum que muitas vezes responde pela alcunha de quarto-poder.
É nisso que pensa o cidadadão quando diz que o português
tem uma gramática muito difícil, que ele não
domina, ou quando pergunta se o curso de inglês que quer
fazer tem mais gramática ou mais conversação.
É essa distinção entre o cultivado e o relaxado
(palavras que, lidas sem pejo, prestam-se efetivamente muito bem
à distinção) que dá emprego aos pasquais
e seus amigos.
E o que é que queremos nós, obscuros
lingüistas com a palavra?. Prometi semana passada, e vou
a isso então. Palavra é palavra e dessa palavra
se fala.
Há vários sentidos possíveis
para ela. Vamos ficar agora só com 3, freqüentemente
ditos G1, G2 e G3, os goiabas de pijama.
Um deles é, pra mim, o primeiro. O conjunto
de regras (acordos históricos e tácitos (no pun
intended) entre todos os membros da comunidade falante) que
institui uma língua e a distingue das outras. Toda língua,
qualquer uma, tem uma gramática como essa, mesmo as ágrafas
e em estado de cultura primitiva. Toda língua tem regras
que determinam, no limite, se um determinado elenco de sons ou
palavras é autêntico a ela ou não, e se essas
palavras estão sob formas e em ordens adequadas para essa
língua em cada enunciado.
Não é preciso um gramático para dizer à
mais anarfa das comunidades de falantes de português que
a frase lproltuguês falaos eu não
pertence a sua língua.
O mais divertido, nesse caso, é que devemos assumir que
cada variedade posível de uma língua (o português
de Cáceres, de Manaus, ou a fala dos skatistas) tem sua
gramática. E, mais, os falantes a respeitam, RIGOROSAMENTE,
sob pena de incompreensão e ridículo. Sob pena de
exclusão.
Correntes mais recentes da lingüística
preferem falar de uma gramática que considera também
conjuntos de regras (e eles usam a palavra com muito menos pudor),
mas que agora estão localizados, não em uma entidade
supra-personal, coletiva e social, mas no sistema nervoso de cada
falante nativo. Um conjunto de regras que lhe permite, segundo
eles, a partir do vocabulário legítimo, formar TODAS
E APENAS sentenças de sua língua, e, conversamente,
reconhecer as mesmas sentenças, quando receptor do enunciado,
como gramaticais.
Nesse sentido, também, todo falante possui pleno (pleníssimo)
acesso à gramática de sua língua; o processo
de aquisição da língua pela criança
não sendo mais do que um longo teste e refinamento de regras,
até atingir o conjunto correto delas.
Há, entre outros talvez possíveis,
um terceiro sentido, que impera. Aqui, gramática não
é um superestrutura social, não é um conjunto,
um mecanismo individual. É um livro. Esse é o conceito
de senso-comum.
E esse, perigosamente, se aproxima da grammatica
da Universidade de Coimbra em 1485. Trata-se de um livro (ou mais
de um, ta biblia) que passa a deter a verdade única
digna de crédito.
E, o mais interessante, e perverso, essa gramática é
a única que não é, automaticamente, de domínio
do(s) falante(s). Pois ela não trata (é essa a pegadinha,
a distorção que se cria) de pertencimento ou não
à lingua, mas apenas de etiquetas, uso de hífens
e quejandos. Logo, é preciso que exista uma escola, um
sacerdote iniciador. É preciso estudá-la, e é
possível utilizá-la como determinador de diferença
qualitativa (crêem eles).
Sabem como? Uma frase como As coisa num tá
boa só não consta de gramáticas do terceiro
tipo. Pode constar de qualquer das outras duas. E desvios em relação
a ela podem mesmo vir marcados como errados em certas condições
e em certos ambientes. Ela É PORTUGUESA. E quem a enuncia
FALA PORTUGUÊS.
Se cada variedade de uma língua tem uma gramática
(ou seus falantes a possuem) nos dois primeiros sentidos, nesse
terceiro, apenas a língua escolhida para ser alvo da teorização,
do refino teórico, instrumental e de nomenclatura, é
que possui uma grammatica. Às outras resta um estágio
como que ágrafo, desprezado, pré-cultural e barbárico.
Aqui a exclusão conta com estatuto oficial, tem diploma
de bacharel e título de doutor. Aqui o processo é,
no fim de contas, essencialmente menos legítimo do que
nos outros dois casos. É imposto e determinado algo artificialmente.
Compra a pataquada quem quiser?
Não enquanto imprensa for sinônimo de Zé da
Silva. Não enquanto a informação não
quebrar o obscurantismo pré-científico (cf. Faraco)
em que se faz o povaréu viver..
Serve a grammatica pra alguma coisa?
Voltamos ao assunto.
Saúde.
Email: [email protected]
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia
Românica e língua portuguesa na Universidade Federal
do Paraná.