O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 26/11/2001

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Grammando

Caetano Waldrigues Galindo

Grammatica. Palavra triste, quando se perde um grande amor..

No portugal pré-renascimento, que por quelas terras só foi dar lá pelo dezesseis, era useira e vezeira a oposição de grammatica (o latim) e lynguoagem (o português). Ensinavam-se as duas coisas, com esses nomes, como disciplinas absolutamente díspares; isso quando se ensinava o português.. Tratava-se de uma distinção de nível: entre uma língua que havia sido estudada, formalizada e aperfeiçoada (vale lembrar que não é outro, por exemplo, senão aperfeiçoada o significado do adjetivo samskrta, aplicado na índia a outra dessas línguas tradicionais), e uma língua falada, uma lingüice, uma lynguoagem.

Essa é, de muitas formas, a distinção que se faz ainda presente em nosso senso-comum por aí; senso-comum que muitas vezes responde pela alcunha de quarto-poder. É nisso que pensa o cidadadão quando diz que o português tem uma gramática muito difícil, que ele não domina, ou quando pergunta se o curso de inglês que quer fazer tem mais gramática ou mais conversação. É essa distinção entre o cultivado e o relaxado (palavras que, lidas sem pejo, prestam-se efetivamente muito bem à distinção) que dá emprego aos pasquais e seus amigos.

E o que é que queremos nós, obscuros lingüistas com a palavra?. Prometi semana passada, e vou a isso então. Palavra é palavra e dessa palavra se fala.

Há vários sentidos possíveis para ela. Vamos ficar agora só com 3, freqüentemente ditos G1, G2 e G3, os goiabas de pijama.

Um deles é, pra mim, o primeiro. O conjunto de regras (acordos históricos e tácitos (no pun intended) entre todos os membros da comunidade falante) que institui uma língua e a distingue das outras. Toda língua, qualquer uma, tem uma gramática como essa, mesmo as ágrafas e em estado de cultura primitiva. Toda língua tem regras que determinam, no limite, se um determinado elenco de sons ou palavras é autêntico a ela ou não, e se essas palavras estão sob formas e em ordens adequadas para essa língua em cada enunciado.
Não é preciso um gramático para dizer à mais anarfa das comunidades de falantes de português que a frase lproltuguês falaos eu não pertence a sua língua.
O mais divertido, nesse caso, é que devemos assumir que cada variedade posível de uma língua (o português de Cáceres, de Manaus, ou a fala dos skatistas) tem sua gramática. E, mais, os falantes a respeitam, RIGOROSAMENTE, sob pena de incompreensão e ridículo. Sob pena de exclusão.

Correntes mais recentes da lingüística preferem falar de uma gramática que considera também conjuntos de regras (e eles usam a palavra com muito menos pudor), mas que agora estão localizados, não em uma entidade supra-personal, coletiva e social, mas no sistema nervoso de cada falante nativo. Um conjunto de regras que lhe permite, segundo eles, a partir do vocabulário legítimo, formar TODAS E APENAS sentenças de sua língua, e, conversamente, reconhecer as mesmas sentenças, quando receptor do enunciado, como gramaticais.
Nesse sentido, também, todo falante possui pleno (pleníssimo) acesso à gramática de sua língua; o processo de aquisição da língua pela criança não sendo mais do que um longo teste e refinamento de regras, até atingir o conjunto correto delas.

Há, entre outros talvez possíveis, um terceiro sentido, que impera. Aqui, gramática não é um superestrutura social, não é um conjunto, um mecanismo individual. É um livro. Esse é o conceito de senso-comum.

E esse, perigosamente, se aproxima da grammatica da Universidade de Coimbra em 1485. Trata-se de um livro (ou mais de um, ta biblia) que passa a deter a verdade única digna de crédito.
E, o mais interessante, e perverso, essa gramática é a única que não é, automaticamente, de domínio do(s) falante(s). Pois ela não trata (é essa a pegadinha, a distorção que se cria) de pertencimento ou não à lingua, mas apenas de etiquetas, uso de hífens e quejandos. Logo, é preciso que exista uma escola, um sacerdote iniciador. É preciso estudá-la, e é possível utilizá-la como determinador de diferença qualitativa (crêem eles).

Sabem como? Uma frase como As coisa num tá boa só não consta de gramáticas do terceiro tipo. Pode constar de qualquer das outras duas. E desvios em relação a ela podem mesmo vir marcados como errados em certas condições e em certos ambientes. Ela É PORTUGUESA. E quem a enuncia FALA PORTUGUÊS.

Se cada variedade de uma língua tem uma gramática (ou seus falantes a possuem) nos dois primeiros sentidos, nesse terceiro, apenas a língua escolhida para ser alvo da teorização, do refino teórico, instrumental e de nomenclatura, é que possui uma grammatica. Às outras resta um estágio como que ágrafo, desprezado, pré-cultural e barbárico. Aqui a exclusão conta com estatuto oficial, tem diploma de bacharel e título de doutor. Aqui o processo é, no fim de contas, essencialmente menos legítimo do que nos outros dois casos. É imposto e determinado algo artificialmente.

Compra a pataquada quem quiser?
Não enquanto imprensa for sinônimo de Zé da Silva. Não enquanto a informação não quebrar o obscurantismo pré-científico (cf. Faraco) em que se faz o povaréu viver..

Serve a grammatica pra alguma coisa?
Voltamos ao assunto.

Saúde.

 

 

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Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

 

 

 

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