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estamos nos esquecendo de boa parte do mundo
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Black, naughty, musician seeks the
same - carta aberta, ao bom do André.
Caetano Waldrigues Galindo
Primeiro de tudo o primeiro. Pois eu também.
Eu fiquei igualmente estupefato não só com a programação do Free
Jazz desse ano como, especialmente, com o destaque na imprensa que
uma parte das atrações acabou tendo. Pois não existe informação
pura. A mera seleção já é um ato ideológica, política e subjetivamente
ativo. (Isso foi um bilhete aberto ao frater.)
Pensei, diabos, cadê o Jazz? E fiquei ansioso por
ler o que o André ia dizer sobre o assunto, quando soube que. Direito
de primogenitura sobre o assunto concedido a alguém que conhece
mais.
Mas aí fiquei puto de novo. Porque parou por aí nossa
possível sintonia. Como disse meu irmão, eu achei mais foi engraçada
a estória toda. E daí em diante baixou novamente no menino o fundamentalismo
big four que eu já tinha tido oportunidade de conhecer.
Escrevo agora sem teu texto por perto, André; não
tenho internet em casa. Então, fora do espírito de polêmica da outra
vez, só faço uns comentários que me possam parecer oportunos.
Um. Cuidado, meu grande amigo André, com a retórica
fácil da degradação. Você, agora, frio e refletido, pode perceber
perfeitamente bem que todo aquele tipo de litania da boa música
contra a decadência, contra o lixo que devemos eliminar, com o mesmo
tipo de adjetivos e com a mesma verve pretensamente ácida, ainda
que a meu ver domesticada pela sua mesma hipérbole, foi emitido
no começo do século contra os negros de Nova Orleans, foi emitido
contra o Bebop mesmo por alguns jazzistas, foi emitido contra Coleman
por quase todo o mundo (Dizzy Gillespie: I don't know what he's
playing, but it's not jazz), foi emitido contra Monk por muitos
até recentemente, foi emitido contra ao menos metade dos ditos Young
Lions, os jazzistas da nova safra. Placebo, só funcionou
em quem já acreditava no remédio. E acreditava ver a doença. O Jazz
já foi o lixo que a boa música deveria purgar para a salvação
da humanidade. E é desse que a gente gosta.
(Frank Zappa: "toda e qualquer música de que seus
pais não gostem". Nós já temos idade, e no meu caso situação, de
pais, Andreiuscha.)
Jazz, o meu jazz, é música de perversão e tolerância
por todos os pervertidos. Não gosto de ver você fazer dele música
de exclusão. Marsalis existe. Na verdade são muitos, em todos os
sentidos. Mas são uma parte. De muitas. Jazz não é um quid.
Quer ver exemplos? Na tua lista de antigas presenças
no Free Jazz, que eventualmente já fizeram tanto eu quanto você
nos deslocarmos até São Paulo só por um bom show, não estavam, e
acho que não estariam, pessoas como John Hammond, Stanley Clarke,
John Zorn, Bill Frisell, Spyro Gyra, Stephane Grapelli, Phillipe
Catherine, Diane Reeves, Chick Corea, Pat Metheny. Desses, sei que
ao menos os dois últimos você respeita, com apesares. Não sei se
você, como eu, simplesmente não gosta de alguns dos outros. Não
sei quantos deles caem fora da tua imagem de jazz exclusivista.
O curioso é que a maioria dos músicos de jazz tende
a ser o exato oposto disso. Gente muito aberta. Humphrey Lyttelton
foi ao estúdio gravar com e saiu elogiando pesado o, entre nós tabu,
Radiohead. John Scofield é admirador confesso de Tom Morello,
do Rage Against The Machine. Eles em geral ouvem música pop, porque
eles sabem que jazz, em sua origem, não foi em nada diferente disso.
Buddy Bolden e os caras do Run DMC tem algo fundamentalmente comum:
são pretos pobres arranjando jeitos de fazer música de preto pobre
com o que quer que tenham às mãos: cornetas que restaram da guerra
civil, toca-discos velhos.
Lembra, Hancock recentemente gravou um disco ruim,
mas com uma idéia boa: The New Standard, onde trata até Nirvana
como fonte para Jazz. O Jazz não é um o quê, o Jazz é um como. Tanto
eu como você sabemos disso, e sabemos quem disse isso; e o cara
gostava mesmo de La Vie en Rose. Jazzistas ouvem Nirvana,
ouvem Rap. Os fundamentalistas são sempre os teóricos. Músicos gostam
de música. Jazzmen gostam de canções.
Quer mais um exemplo de lapsos freudianos? O Coleman
tá mais no meu terreno que no teu, certo? Aí você cita o disco Free
Jazz pra corroborar o teu argumento de exclusão e supremacia. E
erra. O disco é de setembro de 61, não de 60; não há harmonia -não
no sentido tradicional, ao menos; a música não é totalmente improvisada:
há um tema, pré-escrito, que se repete de dez em dez minutos; a
capa não é do Pollock (o que teria sido bastante fácil de verificar,
caso ela estivesse a teu alcance).
Você busca no coleman o que há de cerebral; eu busco
o que haja de dada. As duas coisas estão lá. Nós dois gostamos
de Jazz. Você certamente mais do que eu, porque você quase só ouve
ou se interessa por isso. Mas o meu jazz é rampeiro e alternativo
a valores antigos e, como tal, subversivo. O teu, ainda que representado
por pretos, é ideologicamente branco e conformado a estruturas de
exclusão, canonização e padronização brancas, ocidentais e com séculos
de idade. Nesse sentido, um contra-senso.
Fazer o Jazz, aproveitando-se da retórica que teria
feito sentido em 1910, subverter dessa vez seus mesmos princípios
de subversão e se transformar em um establishment como os
outros, com conservatórios, historiadores justificando posturas
e atitudes como, exatamente como, as que tentaram sufocar Buddy
Bolden, é matar o Jazz. Criar um jazz erudito é ajudar a
criar mais música de branco, mais estabilidade, mais caixinhas de
classificação, mais valores inquestionáveis.
O Mainstream deveria ter mais espaço em um
festival de Jazz? Óbvio.
O que foi convidado é Jazz, de todo? Quase nunca.
Mas Fat Boy Slim é música de dança de primeira. Macy Gray é Soul:
suingue e putaria. Sigur Rós são canções (?) muito bonitas. Acredito
piamente que vá haver muuuitos músicos de Jazz nos shows dos caras;
gente que gosta de dança, de putaria, de canções, de tudo o que
seus pais não ouvem..
LICHTENBERG, Sudelbuch A (1765-1778)
4.
As maiores coisas do mundo são provocadas por outras coisas que
estimamos por nada: pequenas causas que desdenhamos mas que com
o tempo se acumulam.
5.
Rousseau tinha razão em chamar o sotaque de alma da fala; nós freqüentemente
consideramos pessoas estúpidas e quando prestamos atenção descobrimos
que se trata apenas do som de sua maneira de falar.
6.
Acomodar o metro ao pensamento é uma arte muito difícil, cuja negligência
é em grande medida responsável pelo ridículo em versos. Metro e
pensamento são tão ligados um ao outro quanto, na vida comum, o
estilo de vida é ao escritório.
7.
Se quisermos esboçar uma filosofia que nos seja útil na vida, ou
se quisermos oferecer regras universais para uma vida perpetuamente
satisfeita, então, com certeza, temos de nos abstrair daquilo que
introduza uma diversidade muito grande em nossas contemplações -algo
como freqüentemente fazemos em matemática quando esquecemos o atrito
e outras pequenas propriedades similares dos corpos para que o cálculo
não nos seja tão difícil, ou ao menos substituímos tais propriedades
por uma incógnita. Pequenos contratempos incontestavelmente introduzem
uma grande medida de incerteza nessas regras práticas, de maneira
que temos de expulsá-las de nossa mente e voltar nossa atenção à
superação de contratempos mais significativos. Esse é incontestavemente
o verdadeiro significado de certas proposições da filosofia estóica.
MAIL [email protected]
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia
Românica e língua portuguesa na Universidade Federal
do Paraná.
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