O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 1/10/2001

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Caetano Waldrigues Galindo

Desculpa aí, então.

Maior falta de educação. Semana passada estava mais bobo do que de costume e acabou que fiquei me devendo uma introdução mais decente sobre o bom do Lichtenberg. Se pretendo ficar publicando suas Pfennigs-Warheiten, suas pílulas de sabedoria, é bom tomar algum tempo em eulogias.

E, primeiro, uma advertência: cuidado com o que escrevem. Pois Lichtenberg é um bom exemplo, ainda que certamente não o único, de alguém hoje conhecido por algo que, na época, tratava com algum desdém. Petrarca daria hoje voltinhas na cripta se soubesse que seus opera eruditos latinos foram preteridos por seus poeminhas tolos e, ainda por cima, escritos em volgare; mero passatempo. Lichtenberg escreveu sobre ciência, sobre crítica de arte; mas mesmo esses trabalhos hoje são curiosamente citados apenas por terem sido escritos pelo autor dos Sudelbücher, os cadernos de notas em que ele arremessava frases, idéias, esboços, formulações mais ou menos prontas, lembretes para o futuro. Todo o tipo de coisa. Tudo menos trabalhos para publicação.

Aforismos. Intrinsecamente fragmentários, incompl..

Os cadernos, tendo por nome apenas uma letra do alfabeto, de A a L, começaram a ser publicados imediatamente após a morte de Lichtenberg, e não pararam.

Desde então não cessou na Alemanha o culto ao autor dos Aforismos. Goethe dizia ser ele digno "como poucos" de ser estudado. Schopenhauer o cita como exemplo de filósofo que pensa não para os outros, mas pelo prazer de pensar. Nietzsche o incluía em uma lista de apenas quatro livros alemães que valiam a pena de ser lidos e relidos, sem contar com os de Goethe. Essa estima, contudo, não atravessou com grande freqüência as fronteiras da Alemanha.

E o que é que nós devemos esperar encontrar aí? O que é que me surpreendeu quando, por um acaso desses dos mais felizes, comprei meus Aforismos só por palpite? Explico primeiro o que me lembro de ter dito semana passada.

Estamos mesmo no século dezoito, em todos os sentidos possíveis (ida e volta de ponto de vista). O bom espírito iluminado estava mais do que presente em um indivíduo que carregava a luz, licht, no próprio nome. Um belo grau de um empiricismo que assume ares de dogmatismo, por exemplo, é bastante visível. Assim como é visível a marca da porrada que ele tomaria do velho Kant, que alguns dizem que ele jamais compreendeu de fato. Convivem no mesmo Georg Christoph a busca da objetividade e o questionamento do que seja, ou possa ser, essa mesma objetividade. Leibniz e Immanuel. A razão e a Crítica.

Plus, o homem era um científico. Matemático, físico, astrônomo e otras cositas mais ou menos científicas. Esteve na vanguarda dos experimentos com eletricidade, a ponto de receber em Göttingen, onde lecionava, uma visita de Alessandro Volta; esteve a ponto de lançar o primeiro balão de hidrogênio, o que só não fez por algo que declarava ser uma sua incontornável tendência à procrastinação. Um homem das exatas, campo privilegiado para o confronto mencionado acima, como a filosofia contemporânea, depois de Wittgenstein, sabe muito bem. Não por acaso, talvez, pode-se perceber em GCL uma preocupação nada inconseqüente com dados de linguagem. Com a significação.

Na verdade minha primeira intenção tinha sido selecionar apenas os aforismos que tivessem que ver com essa temática. Acabei me deixando levar pela possibilidade de incluir também os que falem de epistemologia lato sensu, ou de arte: formas simbólicas. Mas alguns dos restantes valeriam sempre a pena; por serem divertidos, ao menos. E com isso vão todos. Se pular algum, vou deixar claro pela numeração. São, na minha edição, 1085. Tomara que eu siga publicando aqui por mais uns dez anos..

Mas iluministas e cientistas era o que a europa do dezoito mais tinha pra dar, meu! Soyez plus clair! Mostre especificidades.

Pois bem. Corcunda, pietista, puellarius. Isso nem todos eram.

A bossa explica-se pela palavra. E o tipo de acurácia verbal que uma deficiência tão visível pode acrescentar a uma mente já privilegiada vai talvez sem dizer.

Puellarius.. Bom.. Puella é latim pra menininha. E o latim é, nesse caso, a minha língua de eufemismos. Escrevi isso só por maldade.

Pietismo. Aqui já valem explicações. O pietismo era uma dissidência da igreja luterana que contou com inúmeros adeptos na alemanha a partir do século dezessete. Já se disse que mesmo Bach tivesse sido influenciado pela doutrina pietista.
Em termos simples o pietismo é a extrema divisão entre religião e igreja. Uma fé pessoal e sem intermediários. Bastante mística. Neste sentido um ligeiro agostinianismo. Credo ut intelligam, a fé antes da razão.

Ecce. A mixórdia está feita. Um alemão iluminista, físico e kantiano, leibniziano e pietista, racionalista e crítico de arte. E esse pode mesmo ser um bom exemplo: seu trabalho maior como crítico é um livro que, nas palavras de Hollingdale, que praticamente resenho aqui, sobrevive na literatura como um impressionante tour de force ou um impressionate ato de loucura, dependendo de como se olhe para ele. São descrições de desenhos, feitas de maneira tão minuciosa que chegam a tornar os próprios desenhos quase redundantes.

Quem ler essa página daqui para a frente vai ter oportunidade de julgar por si mesmo. De se divertir um pouco. E certamente de aprender alguma coisa de uma criatura bastante singular, provida de um belo senso de humor britânico, país que amava mais que a todos. Quem ler esses trechos vai, talvez, poder julgar sozinho pela insânia ou originalidade do autor.

Espero que as traduções, de segunda mão (traduzo do inglês) e de sétimo nível (sou eu quem traduz) não atrapalhem demais. Os textos valem a pena, como os dois seguintes podem sobejissimamente mostrar, especialmente a quem esteja interessado em epistemologias, semióticas, físicas, geologias, artes, moral, esprit, philosophia, perguntas......

SUDELBUCH A

2. Há a questão de se saber se nas artes ou ciências é possível um melhor além do qual nossa comprensão não possa ir. Talvez esse ponto esteja infinitamente distante, muito embora com cada movimento de aproximação tenhamos menos pela frente.

3. Em muitas das ciências o esforço por se descobrir um princípio universal é talvez tão infrutífero quanto seria o esforço de um mineralogista em descobrir uma substância primária universal da qual houvessem surgido todos os minerais. A natureza cria, não genera e species, mas individua, e nossa pouca visão tem de procurar similaridades para poder manter em mente muitas coisas ao mesmo tempo. Essas concepções se tornam mais e mais imprecisas à medida que sejam maiores as famílias que nos inventamos.

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Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

 

 

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