|
Artigos anteriores
Coisas boas da vida
Quod scripsimus. Papéis voam
do World Trade Center em chamas
Habemus lexicon: o grande dicionário
de Houaiss.
Uma ode a Björk
Paulo Coelho
e a vanguarda
O dia do foda-se
Vamos à música: sejamos
mais felizes
Gerald Thomas entrevista
(sic) Gal Costa (chic)
Aureae mediocritates: Haroldo de
Campos e seu pseudo-poema na Folha
De coronae muscis:
a arte da picaretagem e a picaretagem na arte
Oblivescenda:
estamos nos esquecendo de boa parte do mundo
|
Pennyeach
Caetano Waldrigues Galindo
Desculpa aí, então.
Maior falta de educação. Semana passada estava mais
bobo do que de costume e acabou que fiquei me devendo uma introdução
mais decente sobre o bom do Lichtenberg. Se pretendo ficar publicando
suas Pfennigs-Warheiten, suas pílulas de sabedoria, é bom
tomar algum tempo em eulogias.
E, primeiro, uma advertência: cuidado com o que escrevem.
Pois Lichtenberg é um bom exemplo, ainda que certamente não o único,
de alguém hoje conhecido por algo que, na época, tratava com algum
desdém. Petrarca daria hoje voltinhas na cripta se soubesse que
seus opera eruditos latinos foram preteridos por seus poeminhas
tolos e, ainda por cima, escritos em volgare; mero passatempo.
Lichtenberg escreveu sobre ciência, sobre crítica de arte; mas mesmo
esses trabalhos hoje são curiosamente citados apenas por terem sido
escritos pelo autor dos Sudelbücher, os cadernos de notas
em que ele arremessava frases, idéias, esboços, formulações mais
ou menos prontas, lembretes para o futuro. Todo o tipo de coisa.
Tudo menos trabalhos para publicação.
Aforismos. Intrinsecamente fragmentários, incompl..
Os cadernos, tendo por nome apenas uma letra do alfabeto,
de A a L, começaram a ser publicados imediatamente após a morte
de Lichtenberg, e não pararam.
Desde então não cessou na Alemanha
o culto ao autor dos Aforismos. Goethe dizia ser ele digno
"como poucos" de ser estudado. Schopenhauer o cita como exemplo
de filósofo que pensa não para os outros, mas pelo prazer de pensar.
Nietzsche o incluía em uma lista de apenas quatro livros
alemães que valiam a pena de ser lidos e relidos, sem contar com
os de Goethe. Essa estima, contudo, não atravessou com grande
freqüência as fronteiras da Alemanha.
E o que é que nós devemos esperar encontrar aí? O
que é que me surpreendeu quando, por um acaso desses dos mais felizes,
comprei meus Aforismos só por palpite? Explico primeiro o
que me lembro de ter dito semana passada.
Estamos mesmo no século dezoito, em todos os sentidos
possíveis (ida e volta de ponto de vista). O bom espírito iluminado
estava mais do que presente em um indivíduo que carregava a luz,
licht, no próprio nome. Um belo grau de um empiricismo que
assume ares de dogmatismo, por exemplo, é bastante visível. Assim
como é visível a marca da porrada que ele tomaria do velho Kant,
que alguns dizem que ele jamais compreendeu de fato. Convivem no
mesmo Georg Christoph a busca da objetividade e o questionamento
do que seja, ou possa ser, essa mesma objetividade. Leibniz e Immanuel.
A razão e a Crítica.
Plus, o homem era um científico. Matemático, físico,
astrônomo e otras cositas mais ou menos científicas. Esteve
na vanguarda dos experimentos com eletricidade, a ponto de receber
em Göttingen, onde lecionava, uma visita de Alessandro Volta; esteve
a ponto de lançar o primeiro balão de hidrogênio, o que só não fez
por algo que declarava ser uma sua incontornável tendência à procrastinação.
Um homem das exatas, campo privilegiado para o confronto mencionado
acima, como a filosofia contemporânea, depois de Wittgenstein, sabe
muito bem. Não por acaso, talvez, pode-se perceber em GCL uma preocupação
nada inconseqüente com dados de linguagem. Com a significação.
Na verdade minha primeira intenção tinha sido selecionar
apenas os aforismos que tivessem que ver com essa temática. Acabei
me deixando levar pela possibilidade de incluir também os que falem
de epistemologia lato sensu, ou de arte: formas simbólicas.
Mas alguns dos restantes valeriam sempre a pena; por serem divertidos,
ao menos. E com isso vão todos. Se pular algum, vou deixar claro
pela numeração. São, na minha edição, 1085. Tomara que eu siga publicando
aqui por mais uns dez anos..
Mas iluministas e cientistas era o que a europa do
dezoito mais tinha pra dar, meu! Soyez plus clair! Mostre
especificidades.
Pois bem. Corcunda, pietista, puellarius. Isso
nem todos eram.
A bossa explica-se pela palavra. E o tipo de acurácia
verbal que uma deficiência tão visível pode acrescentar a uma mente
já privilegiada vai talvez sem dizer.
Puellarius.. Bom.. Puella é latim pra
menininha. E o latim é, nesse caso, a minha língua
de eufemismos. Escrevi isso só por maldade.
Pietismo. Aqui já valem explicações. O pietismo era
uma dissidência da igreja luterana que contou com inúmeros adeptos
na alemanha a partir do século dezessete. Já se disse que mesmo
Bach tivesse sido influenciado pela doutrina pietista.
Em termos simples o pietismo é a extrema divisão entre religião
e igreja. Uma fé pessoal e sem intermediários. Bastante mística.
Neste sentido um ligeiro agostinianismo. Credo ut intelligam,
a fé antes da razão.
Ecce. A mixórdia está feita. Um alemão iluminista,
físico e kantiano, leibniziano e pietista, racionalista e crítico
de arte. E esse pode mesmo ser um bom exemplo: seu trabalho maior
como crítico é um livro que, nas palavras de Hollingdale, que praticamente
resenho aqui, sobrevive na literatura como um impressionante
tour de force ou um impressionate ato de loucura, dependendo
de como se olhe para ele. São descrições de desenhos, feitas de
maneira tão minuciosa que chegam a tornar os próprios desenhos
quase redundantes.
Quem ler essa página daqui para a frente vai ter oportunidade
de julgar por si mesmo. De se divertir um pouco. E certamente de
aprender alguma coisa de uma criatura bastante singular, provida
de um belo senso de humor britânico, país que amava mais que a todos.
Quem ler esses trechos vai, talvez, poder julgar sozinho pela insânia
ou originalidade do autor.
Espero que as traduções, de segunda mão (traduzo do
inglês) e de sétimo nível (sou eu quem traduz) não atrapalhem demais.
Os textos valem a pena, como os dois seguintes podem sobejissimamente
mostrar, especialmente a quem esteja interessado em epistemologias,
semióticas, físicas, geologias, artes, moral, esprit, philosophia,
perguntas......
SUDELBUCH A
2. Há a questão de se saber se nas artes ou ciências
é possível um melhor além do qual nossa comprensão não possa ir.
Talvez esse ponto esteja infinitamente distante, muito embora com
cada movimento de aproximação tenhamos menos pela frente.
3. Em muitas das ciências o esforço por se descobrir
um princípio universal é talvez tão infrutífero quanto seria o esforço
de um mineralogista em descobrir uma substância primária universal
da qual houvessem surgido todos os minerais. A natureza cria, não
genera e species, mas individua, e nossa pouca
visão tem de procurar similaridades para poder manter em mente muitas
coisas ao mesmo tempo. Essas concepções se tornam mais e mais imprecisas
à medida que sejam maiores as famílias que nos inventamos.
MAIL [email protected]
Caetano Waldrigues Galindo, 27, é professor de Filologia
Românica e língua portuguesa na Universidade Federal
do Paraná.
|