Edição de 11.3 a 17.3.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Shoah


Genocídio é termo cunhado apenas no século vinte.
Foi no tribunal internacional de Nüremberg que se ouviu pela primeira vez formalizado e nomeado o crime mais cru que se conceba: a tentativa de extermínio completo de um povo, uma etnia, um grupo religioso. Algo tão intenso e tão imenso que apenas pode ser executado por governos constituídos, ou por eles orquestrado.
Crime de estado contra civis. O contrário do terrorismo, talvez, como nos acostumam a concebê-lo, ou sua forma mais obscena.

Esse tribunal de Nüremberg julgou alguns dos responsáveis pelo maior extermínio coletivo que o século conhecera e conheceria: a morte de cinco, talvez seis millhões de judeus no decorrer da segunda guerra mundial. Quantitativamente assustador, e qualitativamente inédito na massificação das execuções, na automatização da barbárie.
O Holocausto, Shoah: a catástrofe.

Corre que Hitler, ao ensaiar convencer membros de seu estado-maior da exeqüibilidade de seu plano e da pouca importância de uma eventual reação internacional, teria dito que o mundo não se importaria, ao menos não longamente. "Afinal, quem ainda fala da aniquilação dos armênios?", teria sido seu argumento.

*

No dia 27 de abril a comunidade armênia de todo o mundo celebrará sua catástrofe. O dia em que duzentos líderes armênios, em 1915, foram presos e liquidados pelo governo turco, pondo a nu os propósitos de extermínio de seu povo que os "jovens turcos", então no poder, vinham disfarçando sob uma dita necessidade de mover e reorganizar populações. Que havia feito, mesmo, que solicitassem todas as armas de caça dos armênios que viviam num império turco-otomano em decadência, especialmente abalado pela recém-declarada independência grega. Armas que depois seriam utilizadas talvez contra os próprios armênios e que serviram como "prova" fornecida pelos turcos de que havia um levante em organização.
Por isso, diziam, eles deveriam deter esse povo que separava, na Armênia e na Anatólia, duas regiões do império. Por isso eles foram deslocados em sua grande maioria para o deserto da Líbia, para morrer de fome. Por isso os soldados permitiram, no caminho das massas, que eles fossem estuprados, expoliados, atacados e mortos, e que se tripudiasse de seus corpos. Por isso os próprios soldados se entregaram a essas tarefas com freqüência.
Por isso, entre 1915 e 1923, matou-se um milhão e meio de armênios.

Um milhão e meio de pessoas, de um povo que se viu desprovido de terra e de unidade. De um povo que sofreu então sua diáspora, e que hoje reconhecemos ainda em todo o mundo por seus sobrenomes típicos (Bogosian, Nercesian..). Um povo pobre e inepto politicamente, que viu seu estado, concedido no pós-segunda guerra, ser imediatamente invadido e apagado.
Um povo singular, um grupo isolado étnica e lingüisticamente, que, praticamente, sumiu. Especialmente, e mais dolorosamente, da memória do mundo culto e civilizado. Da nossa memória de cidadãos educados e informados, que desconhecemos freqüentemente esse fato monstruoso, que ocorreu há nem noventa anos. Completamente.

*

A empresa turca foi reconhecida como genocida apenas na década de oitenta pelas nações unidas. O que não impediu, contudo, que a Turquia até hoje despreze as evidência encontradas e subestime o massacre que cometeu. E os armênios só pedem, hoje, um pedido de desculpas.

Ocorre que Hitler cometeu o engano de subestimar a capacidade de resitência e de contra-ataque passivo de um povo que resisitiu e contra-atacou passivamente durante séculos. Os judeus sobreviveram e tiveram e têm força de erguer a bandeira do massacre de manter viva a memória do opróbrio. De esmagar o torturador.

Ruandeses, armênios são pobres. Pouco educados, ausentes do mundo financeiro. Sem voz. Esquecemos deles e de sua morte. Ninguém fala de sua aniquilação.

*

Não reclamo de uma "indústria do holocausto", que realmente existe, ao menos como fato econômico.
Lamento apenas não terem os outros povos os mesmos recursos, nem os judeus interesse por eles.

Lembremos dos armênios.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.

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