Edição de 4.3 a 10.3.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



A.B..

As iniciais do título valem duplas.
Um início, muito pouco; prenunciado o resto, que inevitável, se dê. E, as iniciais com que Aubrey

Beardsley por vezes assinava seus trabalhos. Beardsley não é figura assim tão conhecida. Padece talvez de um ainda renitente preconceito contra ilustradores, ou contra a arte pop, de que foi sem dúvida representante.

Um dândi, aristocrata, morto aos vinte e cinco anos.
Que, no auge do puritanismo vitoriano, utilizou seu traço, preciso, sua cultura e suas relações para levantar a saia de seu mundo.

Talvez seja a Salomé de Wilde seu trabalho mais famoso; um texto tão amaldiçoado que foi escrito em francês pelo próprio autor: irlandês, estrangeiro na Inglaterra (Que, dessa forma, curiosamente sinalizava o caminho de dois compatriotas maravilhosos: Joyce e Beckett. Ambos escolhendo a França e o segundo, o francês).



Não me interessa hoje a "bourgeoisie", ou o dandiismo: o "fin-de-siècle".
Falo de Beardsley apenas pelo preto-e-branco. Pelo fascínio que sempre me causa a possibilidade de se atingir qualquer tipo de complexidade, de rebuscamento em meios parcos: tintas poucas.

Ele é tido por uma espécie de símbolo art-nouveau. E, assim, habita tensamente a fronteira do rococó e do moderno. Por vezes roça um esquematismo que seria caro a Lichtenstein, mas usualmente o molha em seus arabescos, celticismos, ornatos minuciosos, rendas de tinta sobre o branco.

Se nascido em cores, seu trabalho poderia, para mim (e muito apenas) parecer pesado, desinteressante, deselegante. Tratar com duas lhe permite o amor da filigrana em uma escala inacessível a um "fauve".

Trata-se, em suma (suma havendo), do mesmo tipo de barroco mínimo que me encanta na polifonia a duas, a três vozes. Ou no blues, em seus eternos ciclos de doze compassos, três acordes, escalas de cinco notas e milhões, milhões de possibilidades de repetição e refinamento, por abuso ou por cuidado.

Gosto de repetições, revisitas.
Gosto de que o mesmo seja muito, seja muitos, diferente.

Me visto quase só de preto, e branco. Desconfio na verdade que o Jazz, bem como a polifonia a seis vozes, por exemplo, esteja de fato acima de minha capacidade intelectual.

Nasci com o pendor pernosticista de gostar do complicado e com a incapacidade homem-comum de lidar com paletas extensas (mal sei conversar com três pessoas no mesmo ambiente).
Nasci sem o gênio explosivo de Aubrey Beardsley. Mas nada pode e nunca posso me impedir de ver aqui realizado o que me agrada, o que consigo, o que compreenda. E de tentar, por esse meio, ver-me, a mim, justificado.

Pois acho que gosto de Escher e de Beardsley bem mais do que recomendariam os cânones. Me agrada mais o Goya gravurista. Sou mais movido pelos desenhos de Picasso, ou pela Guernica.
Se vou à cata de música erudita, começo pelos contemporâneos, descartando o que orquestral.
Meu jazz é feito em trio, de preferência sem piano.
Toco blues quase que só em mi. Por vezes sem parar.

Isso não é um manifesto.

Isso é um manifesto.

Divirtam-se.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.

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