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A.B..
As iniciais do título valem duplas.
Um início, muito pouco; prenunciado o resto, que inevitável, se
dê. E, as iniciais com que Aubrey
Beardsley por vezes assinava seus trabalhos. Beardsley não é figura
assim tão conhecida. Padece talvez de um ainda renitente preconceito
contra ilustradores, ou contra a arte pop, de que foi sem dúvida
representante.
Um dândi, aristocrata, morto aos vinte e cinco anos.
Que, no auge do puritanismo vitoriano, utilizou seu traço, preciso,
sua cultura e suas relações para levantar a saia de seu mundo.

Talvez seja a Salomé de Wilde seu trabalho mais famoso; um texto
tão amaldiçoado que foi escrito em francês pelo próprio autor: irlandês,
estrangeiro na Inglaterra (Que, dessa forma, curiosamente sinalizava
o caminho de dois compatriotas maravilhosos: Joyce e Beckett. Ambos
escolhendo a França e o segundo, o francês).

Não me interessa hoje a "bourgeoisie", ou o dandiismo: o "fin-de-siècle".
Falo de Beardsley apenas pelo preto-e-branco. Pelo fascínio que
sempre me causa a possibilidade de se atingir qualquer tipo de complexidade,
de rebuscamento em meios parcos: tintas poucas.
Ele é tido por uma espécie de símbolo art-nouveau. E, assim, habita
tensamente a fronteira do rococó e do moderno. Por vezes roça um
esquematismo que seria caro a Lichtenstein, mas usualmente o molha
em seus arabescos, celticismos, ornatos minuciosos, rendas de tinta
sobre o branco.
Se nascido em cores, seu trabalho poderia, para mim (e muito apenas)
parecer pesado, desinteressante, deselegante. Tratar com duas lhe
permite o amor da filigrana em uma escala inacessível a um "fauve".
Trata-se, em suma (suma havendo), do mesmo tipo de barroco mínimo
que me encanta na polifonia a duas, a três vozes. Ou no blues, em
seus eternos ciclos de doze compassos, três acordes, escalas de
cinco notas e milhões, milhões de possibilidades de repetição e
refinamento, por abuso ou por cuidado.
Gosto de repetições, revisitas.
Gosto de que o mesmo seja muito, seja muitos, diferente.
Me visto quase só de preto, e branco. Desconfio na verdade que
o Jazz, bem como a polifonia a seis vozes, por exemplo, esteja de
fato acima de minha capacidade intelectual.
Nasci com o pendor pernosticista de gostar do complicado e com
a incapacidade homem-comum de lidar com paletas extensas (mal sei
conversar com três pessoas no mesmo ambiente).
Nasci sem o gênio explosivo de Aubrey Beardsley. Mas nada pode e
nunca posso me impedir de ver aqui realizado o que me agrada, o
que consigo, o que compreenda. E de tentar, por esse meio, ver-me,
a mim, justificado.
Pois acho que gosto de Escher e de Beardsley bem mais do que recomendariam
os cânones. Me agrada mais o Goya gravurista. Sou mais movido pelos
desenhos de Picasso, ou pela Guernica.
Se vou à cata de música erudita, começo pelos contemporâneos, descartando
o que orquestral.
Meu jazz é feito em trio, de preferência sem piano.
Toco blues quase que só em mi. Por vezes sem parar.
Isso não é um manifesto.

Isso é um manifesto.
Divirtam-se.
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.
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