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Carpe fruito
Estive eu, e estivemos todos nós lingüistas freqüentemente
enroscados em demonstrações algo teóricas da natureza nefasta de
um certo normativismo xiita no que se refere à língua que falamos.
Hoje escrevo só pra dar um exemplo de como, efetivamente, a meia
dúzia de indivíduos que legisla sobre a língua pode causar alterações
de longo prazo e de fato mudar o curso presumível da história da
língua.
Os momentos em que a normatização bate o fluxo incessante da língua
e o vence em longo embate não são assim tão numerosos; o caminho
mais freqüentemente trilhado é mesmo o que leva a uma final e algo
constrangida aceitação pela "norma" dos fatos que já são numerosos
demais para poder ser negados.
Mas às vezes eles meio que armam e se dão bem. E, muito usualmente,
nessas situações se dão bem à custa de formas populares suplantadas
que soam, ainda hoje, tão mais saborosas..
(O texto de hoje é, portanto, uma concessão do lingüista a gostos
e veleidades do falante)
Pois bem. Aos fatos.
Existem certas regularidades nas mudanças do latim para o português
que nos habilitam mesmo a arriscar certas previsões, se necessárias
elas forem. Tal é o caso do encontro das consoantes -ct-, quando
cercadas de vogais.
As formas latinas vulgares como octo, nocte, lacte, pectu, geram,
regularmente, um encontro -it-, em português: oito, noite, leite,
peito.
Essas regularidades são às vezes tão impressionantes que se estendem
a outras línguas. Pois o romeno gerará sempre um encontro -pt-,
nesse ambiente; o italiano, um duplo -tt- e o espanhol, um -ch-,
enquanto o francês nos acampanha.
A uniformidade é tamanha que, mesmo que se tratasse de um forma
latina inventada, poderíamos como que chutar as formas românicas
que mais provavelmente resultariam de sua evolução. (Confesso-vos
mesmo que já obriguei meus alunos a fazer isso em uma prova..)
Logo, se vos informo agora da existência de formas vulgares latinas
como os substantivos lucta e fructa, poderíamos esperar encontrar
as palavras portuguesas luita e fruita, exatamente como encontramos,
por exemplo, o romeno frupt e lupta.
Qualquer um de nós sabe que essas formas existem no Brasil, como
formas ditas dialetais. O que talvez não saibais é que elas existiram,
ambas, em textos portugueses de até o século XVI, quando foram substitídas
pelas grafias latinizantes lucta e fructa.
É possível mesmo imaginarmos um cenário em que os falantes ainda
diziam fruita, mas escreviam fructa. (Podemos imaginar de tudo em
um povo acometido de um furor latinizante que o fez grafar mesmo
oclho, por exemplo, só para se aproximar do étimo oculus.)
Mas a grafia acabou por ter influência na fala.
Posteriormente, essas formas passaram pelo destino da grande maioria
das ditas "consoantes mudas" no português desse momento, e simplesmente
viram o encontro simplificado a um -t-.
A transformação dos encontros em -it- era um fato já passado quando
as formas em -ct- foram reintrozidas na língua, e elas se viram
agora levadas por outro caminho, por outras tendências.
Moral da estória: por causa de algum português safado lá dos amigos
do Camões, nós hoje estamos irremediavelmente condenados a lutar
e a não colher os frutos dessa luta.
Imoral da história: o interior do Brasil (e de Portugal, diga-se)
guarda uns fruitos fossilizados pra lá de interessantes. Luitemos
por eles.
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.
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