Edição de 25.2 a 3.3.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Carpe fruito

Estive eu, e estivemos todos nós lingüistas freqüentemente enroscados em demonstrações algo teóricas da natureza nefasta de um certo normativismo xiita no que se refere à língua que falamos.

Hoje escrevo só pra dar um exemplo de como, efetivamente, a meia dúzia de indivíduos que legisla sobre a língua pode causar alterações de longo prazo e de fato mudar o curso presumível da história da língua.
Os momentos em que a normatização bate o fluxo incessante da língua e o vence em longo embate não são assim tão numerosos; o caminho mais freqüentemente trilhado é mesmo o que leva a uma final e algo constrangida aceitação pela "norma" dos fatos que já são numerosos demais para poder ser negados.

Mas às vezes eles meio que armam e se dão bem. E, muito usualmente, nessas situações se dão bem à custa de formas populares suplantadas que soam, ainda hoje, tão mais saborosas..
(O texto de hoje é, portanto, uma concessão do lingüista a gostos e veleidades do falante)

Pois bem. Aos fatos.
Existem certas regularidades nas mudanças do latim para o português que nos habilitam mesmo a arriscar certas previsões, se necessárias elas forem. Tal é o caso do encontro das consoantes -ct-, quando cercadas de vogais.

As formas latinas vulgares como octo, nocte, lacte, pectu, geram, regularmente, um encontro -it-, em português: oito, noite, leite, peito.

Essas regularidades são às vezes tão impressionantes que se estendem a outras línguas. Pois o romeno gerará sempre um encontro -pt-, nesse ambiente; o italiano, um duplo -tt- e o espanhol, um -ch-, enquanto o francês nos acampanha.
A uniformidade é tamanha que, mesmo que se tratasse de um forma latina inventada, poderíamos como que chutar as formas românicas que mais provavelmente resultariam de sua evolução. (Confesso-vos mesmo que já obriguei meus alunos a fazer isso em uma prova..)

Logo, se vos informo agora da existência de formas vulgares latinas como os substantivos lucta e fructa, poderíamos esperar encontrar as palavras portuguesas luita e fruita, exatamente como encontramos, por exemplo, o romeno frupt e lupta.

Qualquer um de nós sabe que essas formas existem no Brasil, como formas ditas dialetais. O que talvez não saibais é que elas existiram, ambas, em textos portugueses de até o século XVI, quando foram substitídas pelas grafias latinizantes lucta e fructa.

É possível mesmo imaginarmos um cenário em que os falantes ainda diziam fruita, mas escreviam fructa. (Podemos imaginar de tudo em um povo acometido de um furor latinizante que o fez grafar mesmo oclho, por exemplo, só para se aproximar do étimo oculus.)
Mas a grafia acabou por ter influência na fala.

Posteriormente, essas formas passaram pelo destino da grande maioria das ditas "consoantes mudas" no português desse momento, e simplesmente viram o encontro simplificado a um -t-.
A transformação dos encontros em -it- era um fato já passado quando as formas em -ct- foram reintrozidas na língua, e elas se viram agora levadas por outro caminho, por outras tendências.

Moral da estória: por causa de algum português safado lá dos amigos do Camões, nós hoje estamos irremediavelmente condenados a lutar e a não colher os frutos dessa luta.

Imoral da história: o interior do Brasil (e de Portugal, diga-se) guarda uns fruitos fossilizados pra lá de interessantes. Luitemos por eles.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.

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