Edição de 18.2 a 25.2.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Chomsky

O velho Noam Chomsky esteve no Brasil. Foi a Porto Alegre para o Fórum.

Da última vez em que esteve aqui veio duplo; falou na USP. Um dia como lingüista, outro como homem público.
E ele vem fazendo isso há anos em sua terra natal. Pois desde a década de sessenta a lingüística e a política, nos Estados Unidos e no mundo, tiveram de ir-se acostumando a sua presença intrusa, para alguns indesejada, mas absolutamente incontornável.

O homem virou do avesso boa parte da lingüística, que em grande medida ainda pode se definir como chomskyana, pós-chomskyana ou anti-chomskyana, apenas não podendo ignorá-lo. E ocupou grande espaço na mídia para delatar aos Estados Unidos os Estados Unidos.
Ele me parece um daqueles poucos casos em que podemos saber, hoje por hoje, que estamos vendo a história (da ciência, ao menos) ser escrita. É mesmo por isso que, da última vez, bati de pingue-pongue em São Paulo só pra ver o mito de perto, ver a exposição do Maillol, e voltar, no mesmo dia.

Agora, em Porto Alegre, quem compareceu foi o homem político; a grande voz dissonante da mídia americana. O homem que representa em grande medida tudo aquilo que, semana passada, eu falei sobre Zack de La Rocha. Só que para a Alta Cultura.
Um judeuzinho anarquista que vocifera há décadas contra o monstro em que vive. Um lingüistazinho safado que soube como poucos se apropriar das mesmas prerrogativas oferecidas pela política americana (prerrogativas de liberdade de ação e de palavra) para expor a nu a tal política.
Alguém, apenas, capaz de lembrar (em sua voz calma e quase inaudível, depois de quarenta anos de briga) que os Estados Unidos, a terra da liberdade e da luta contra o terror, são, até hoje, o único país da história das Nações Unidas a ter sido condenado por terrorismo em uma corte internacional.

Ele foi chamado pra cá, e teria tido todo o conforto do mundo, especialmente na era do paladino George Walker, se ficasse verberando a Águia. Ao invés disso ele, como todo intelectual útil, como disse o Rogerio, resolveu foi meter o dedo nas nossas feridas.

Ao ser interrogado, por exemplo, sobre o significado do "movimento que começou em Seattle", ele não respondeu diretamente, mas se ocupou, antes disso, em questionar o formato da pergunta. (Não deixa de ser divertido observar os tiques do lingüista Chomsky no pensador político. Ele passou um tempão nessa entrevista que vi relativizando e redimensionando a palavra "globalização", seus usos e abusos.)

Segundo ele, pasmem, queridos, o movimento não começou em Seattle.

E tivemos de ouvir um judeuzinho anarquista americano nos dizer que Seattle não começou nada. Que Seattle foi apenas o momento em que essa ebulição se manifestou debaixo do nariz do primeiro mundo (cujo ponto de vista a pergunta ecoava) que, assim, não pôde mais fingir não vê-lo.
Tivemos de ouvi-lo nos dizer que esse movimento se encontrava devidamente caracterizado e desenvolvido no grande, singular e poderosíssimo sindicalismo que começou a se desenvolver, por exemplo, caros leitores, no Brasil dos anos oitenta. E que esse movimento está, de certa maneira, já no poder na própria cidade que abrigava o Fórum, e a entrevista.
Tivemos de suportar que o ianque nos lembrasse, a nós brasileiros, o que nós brasileiros parecemos fazer questão fechada em não ver: que o maior movimento social desvinculado em princípio de estruturas ligadas à política estabelecida que se conhece hoje no mundo está aqui entre nós, passeia por nossas ruas de vez em quando e reúne milhares de pessoas em busca de terra.
Tudo jogado diretamente na nossa cara por um habitante desse primeiro mundo, mas alguém que, ainda, parece nos ver com mais clareza que nós a eles. O MST é certamente menos glamuroso e menos quixotesco que o "movimento anti-globalização". Podemos certamente continuar fazendo de conta que um levante dessas dimensões não acontece aqui do nosso lado, e podemos continuar cultuando o libertarismo e a independência do movimento espontâneo de Seattle. Mas teremos, ainda muitas vezes, de engolir a seco um bendito judeuzinho anarquista que nunca se incomodou por incomodar os outros.

Um safado que não paga imposto pra fazer barulho, e que não titubeou em fazer o que a nossa imprensa e a nossa "opinião pública" não têm coragem de fazer.

Shalom, Noam Avram Chomsky.
Siga ainda muito entre nós.
E ainda muito nos irrite. Sempre muito bem-vindo.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.

[email protected]

 

 
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