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Chomsky
O velho Noam Chomsky esteve no Brasil. Foi a Porto Alegre
para o Fórum.
Da última vez em que esteve aqui veio duplo; falou na USP. Um dia
como lingüista, outro como homem público.
E ele vem fazendo isso há anos em sua terra natal. Pois desde a
década de sessenta a lingüística e a política, nos Estados Unidos
e no mundo, tiveram de ir-se acostumando a sua presença intrusa,
para alguns indesejada, mas absolutamente incontornável.
O homem virou do avesso boa parte da lingüística, que em grande
medida ainda pode se definir como chomskyana, pós-chomskyana ou
anti-chomskyana, apenas não podendo ignorá-lo. E ocupou grande espaço
na mídia para delatar aos Estados Unidos os Estados Unidos.
Ele me parece um daqueles poucos casos em que podemos saber, hoje
por hoje, que estamos vendo a história (da ciência, ao menos) ser
escrita. É mesmo por isso que, da última vez, bati de pingue-pongue
em São Paulo só pra ver o mito de perto, ver a exposição do Maillol,
e voltar, no mesmo dia.
Agora, em Porto Alegre, quem compareceu foi o homem político; a
grande voz dissonante da mídia americana. O homem que representa
em grande medida tudo aquilo que, semana passada, eu falei sobre
Zack de La Rocha. Só que para a Alta Cultura.
Um judeuzinho anarquista que vocifera há décadas contra o monstro
em que vive. Um lingüistazinho safado que soube como poucos se apropriar
das mesmas prerrogativas oferecidas pela política americana (prerrogativas
de liberdade de ação e de palavra) para expor a nu a tal política.
Alguém, apenas, capaz de lembrar (em sua voz calma e quase inaudível,
depois de quarenta anos de briga) que os Estados Unidos, a terra
da liberdade e da luta contra o terror, são, até hoje, o único país
da história das Nações Unidas a ter sido condenado por terrorismo
em uma corte internacional.
Ele foi chamado pra cá, e teria tido todo o conforto do mundo,
especialmente na era do paladino George Walker, se ficasse verberando
a Águia. Ao invés disso ele, como todo intelectual útil, como disse
o Rogerio, resolveu foi meter o dedo nas nossas feridas.
Ao ser interrogado, por exemplo, sobre o significado do "movimento
que começou em Seattle", ele não respondeu diretamente, mas se ocupou,
antes disso, em questionar o formato da pergunta. (Não deixa de
ser divertido observar os tiques do lingüista Chomsky no pensador
político. Ele passou um tempão nessa entrevista que vi relativizando
e redimensionando a palavra "globalização", seus usos e abusos.)
Segundo ele, pasmem, queridos, o movimento não começou em Seattle.
E tivemos de ouvir um judeuzinho anarquista americano nos dizer
que Seattle não começou nada. Que Seattle foi apenas o momento em
que essa ebulição se manifestou debaixo do nariz do primeiro mundo
(cujo ponto de vista a pergunta ecoava) que, assim, não pôde mais
fingir não vê-lo.
Tivemos de ouvi-lo nos dizer que esse movimento se encontrava devidamente
caracterizado e desenvolvido no grande, singular e poderosíssimo
sindicalismo que começou a se desenvolver, por exemplo, caros leitores,
no Brasil dos anos oitenta. E que esse movimento está, de certa
maneira, já no poder na própria cidade que abrigava o Fórum, e a
entrevista.
Tivemos de suportar que o ianque nos lembrasse, a nós brasileiros,
o que nós brasileiros parecemos fazer questão fechada em não ver:
que o maior movimento social desvinculado em princípio de estruturas
ligadas à política estabelecida que se conhece hoje no mundo está
aqui entre nós, passeia por nossas ruas de vez em quando e reúne
milhares de pessoas em busca de terra.
Tudo jogado diretamente na nossa cara por um habitante desse primeiro
mundo, mas alguém que, ainda, parece nos ver com mais clareza que
nós a eles. O MST é certamente menos glamuroso e menos quixotesco
que o "movimento anti-globalização". Podemos certamente continuar
fazendo de conta que um levante dessas dimensões não acontece aqui
do nosso lado, e podemos continuar cultuando o libertarismo e a
independência do movimento espontâneo de Seattle. Mas teremos, ainda
muitas vezes, de engolir a seco um bendito judeuzinho anarquista
que nunca se incomodou por incomodar os outros.
Um safado que não paga imposto pra fazer barulho, e que não titubeou
em fazer o que a nossa imprensa e a nossa "opinião pública" não
têm coragem de fazer.
Shalom, Noam Avram Chomsky.
Siga ainda muito entre nós.
E ainda muito nos irrite. Sempre muito bem-vindo.
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.
[email protected]
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