O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 05/11/2001

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I. FINEM NEGANS

Aquele que nega o fim. Neguemo-lo, pois!

Caetano Waldrigues Galindo

O último romance de James Joyce é o mais perfeito representante da classe dos livros mais citados que lidos.
Eu não li. Ando com ele embaixo do braço, literalmente, há meses, desde que tomei coragem de começar. Nesse tempo li, no sentido convencional da coisa, um, apenas um de dezessete capítulos.
No entanto li esse capítulo inteiro mais de uma vez. Há mesmo trechos dele que devo ter lido mais de dez vezes. Li também vários trechos algo mais ou menos extensos de outros capítulos, usualmente também mais de uma vez. Li o fim do livro beem mais de dez vezes..
Nesse mesmo período, mais ou menos o período da greve, Li perto de mil páginas de Umberto Eco, por exemplo. E tratei com, ou li integralmente, uns cinco livros sobre o Wake ou Joyce ou teoria da literatura. O problema é que não se trata do mesmo verbo ler.

A primeira coisa que se deve dizer sobre o Finnegans Wake é que ele é, em um sentido importante, ilegível. Para que se possa prestar a ele a atenção que tão impertinente e infinitamente requer, o leitor deve abandonar a maioria das convenções sobre leitura e sobre linguagem que o constituem como leitor. A vantagem a se ganhar agindo assim é considerável; as convenções sobrevivem, mas é menos provável, depois disso, que se transformem em premissas sobre o que são a leitura e a escrita. (Seamus Deane)

Agora, paciência; e lembre que paciência é a grande coisa, e sobre todas outras coisas devemos evitar qualquer coisa como estar ou ficar sem paciência. FW, p. 108.

O Wake é diferente. Não é à toa que seja assim tão claro, tão curiosamente claro, o trecho citado acima.

É um livro pra se ler como se lêem os mais engenhosos e complexos e ambíguos dos poemas, mas que tem mais de seiscentas páginas. Um livro complexo, muito bem humorado (isso é fundamental que se tenha em mente), e muito bonito. Um livro que requer, em sua macro escala, a mesma atenção que se pode dedicar a um achado brilhante e singelo como twolips togather. O beijo mais bonito que eu já vi na literatura.
Pois two lips together são dois lábios juntos; tullips to gather; tulipas para colher. O beijo de Joyce é nem uma coisa, nem outra. Ou ambas.

Trata-se de um sonho, e como tal ele é narrado.
Adequar o estilo ao objeto, eis a máxima de Joyce. Seu sonho é alógico, é simbólico, é tabuístico, é pré-lingüístico; e assim é o texto todo. Trata-se de um sonho, sonhado talvez por todos os personagens.
Pois há personagens. Pai, mãe, filhos gêmeos e uma filha, o objeto de um crime sexual que o pai teria cometido.
Na maioria das vezes, contudo, esses personagens aparecem transformados numa espécie de leitmotiv wagneriano, que os evoca mesmo quando ausentes. Assim, Humphrey (ou Harold, ou Haromphreyld) Chimpden Earwicker, o pai, pode aparecer como Haveth Childer Everywhere, Haroun Childeric Eggeberth, Here Comes Everybody, Howth Castle and Environs, Hush! Caution! Echoland!, ou qualquer outra combinação de suas iniciais, em qualquer sentença, mesmo quando o texto, em aparência, trate de tudo menos dele. E assim sua sombra se insinua mesmo em sua ausência.
Os gêmeos Shem e Shaun se transformam em qualquer querela de princípios opostos-complementares, sob quaisquer nomes. A mãe, em tudo que seja água ou plurabilidades, ou nas glosas de seu nome Anna Livia Plurabelle.
Há um grupo de personagens, por exemplo, de identidade variável, que se faz reconhecer apenas pelas menções ao seu número, 12, e por um gosto especial pelas palavras teminadas em -ation. Há os quatro evangelistas, Marcos, Mateus, Lucas e João, ou Mamalujo, ou Mammon Lujius, sempre cronistas. Existe uma trama, ou muitas.

Mais do que isso existe um tema: a queda. Mais do que isso existe uma estrutura, cíclica, que reproduz a teoria das quatro eras recorrentes de Vico para explicar a história humana. Isso leva o livro a terminar sem um ponto final, numa frase que só se completa com o material da primeira linha do romance, iniciada por minúscula, num ciclo sem fim, num bosque do qual quando se entra não se consegue sair, disse o Eco.

Pois (e isso é uma declaração de amor; semana que vem sou mais isento), o Wake é o livro mais atraente que pode existir. O mais democrático. Ele requer (Joyce), um leitor ideal, com uma insônia ideal. Paciência. Requer (Eco) um leitor com uma erudição e uma capacidade lingüística que superem a do autor empírico Joyce. Pois o texto (Burgess) reinventa o trocadilho, leva a extremos a possibilidade de transgrafar palavras, misturar línguas numa mesma delas (seriam 65 as línguas de alguma maneira presentes no texto), de uma maneira tão absoluta que o torna completamente diferente para cada leitor.

Há que se esquecer aquilo que Joyce chamava goahead plot (trama seguemfrente), é verdade, e poder brincar com o livro pra frente e pra trás. Mas há também que se esquecer o desejo de entender um livro. Retirar dele um conteúdo, uma verdade que seja seu significado.

Se trata de um sonho. Cada qual lê como quer. Cada um entende o que entender dos compostos plurilíngües (por vezes muito mais do que o autor intuiu), e entende o que entender das metonímias de significado. O livro é muito menos do autor do que poderiam sequer suspeitar os mais radicais relativizadores da autoria na pós-modernidade, caso ele não tivesse sido escrito. E não.

Poucos trabalhos apagam o autor como voz e gênio individual mais efetivamente; nenhum afirma esse papel mais alta e escandalosamente. (Deane)

E viva. Viva o bom do Joyce. Autor daquele que, por suas singularidades, me vejo autorizado a chamar meu livro preferido antes de ter lido vinte por cento dele.

Essa semana tem Lichtenberg não. Não consegui enxugar esse texto e não quero abusar do espaço. Semana que vem ele volta (se alguém sentir falta) e falo da tradução do Wake aproveitando pra glosar um trecho do original. Tentar mostrar que não é nada impossível, e sim divertidíssimo, desde que você não tenha medo de sofrer.

No pain, no gain! (Tony Little)


Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

 

 

 

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