O último romance de James Joyce
é o mais perfeito representante da classe dos livros mais citados
que lidos.
Eu não li. Ando com ele embaixo do braço, literalmente, há meses,
desde que tomei coragem de começar. Nesse tempo li, no sentido
convencional da coisa, um, apenas um de dezessete capítulos.
No entanto li esse capítulo inteiro mais de uma vez. Há mesmo
trechos dele que devo ter lido mais de dez vezes. Li também vários
trechos algo mais ou menos extensos de outros capítulos, usualmente
também mais de uma vez. Li o fim do livro beem mais de dez vezes..
Nesse mesmo período, mais ou menos o período da greve, Li perto
de mil páginas de Umberto Eco, por exemplo. E tratei com, ou li
integralmente, uns cinco livros sobre o Wake ou Joyce ou
teoria da literatura. O problema é que não se trata do mesmo verbo
ler.
A primeira coisa que se deve dizer sobre o Finnegans Wake
é que ele é, em um sentido importante, ilegível. Para que
se possa prestar a ele a atenção que tão impertinente e infinitamente
requer, o leitor deve abandonar a maioria das convenções sobre
leitura e sobre linguagem que o constituem como leitor. A vantagem
a se ganhar agindo assim é considerável; as convenções sobrevivem,
mas é menos provável, depois disso, que se transformem em premissas
sobre o que são a leitura e a escrita. (Seamus Deane)
Agora, paciência; e lembre que paciência é a grande coisa,
e sobre todas outras coisas devemos evitar qualquer coisa como
estar ou ficar sem paciência. FW, p. 108.
O Wake é diferente. Não é à toa que seja assim tão claro,
tão curiosamente claro, o trecho citado acima.
É um livro pra se ler como se lêem os mais engenhosos e complexos
e ambíguos dos poemas, mas que tem mais de seiscentas páginas.
Um livro complexo, muito bem humorado (isso é fundamental que
se tenha em mente), e muito bonito. Um livro que requer, em sua
macro escala, a mesma atenção que se pode dedicar a um achado
brilhante e singelo como twolips togather. O beijo mais
bonito que eu já vi na literatura.
Pois two lips together são dois lábios juntos; tullips
to gather; tulipas para colher. O beijo de Joyce é nem uma
coisa, nem outra. Ou ambas.
Trata-se de um sonho, e como tal ele é narrado.
Adequar o estilo ao objeto, eis a máxima de Joyce. Seu sonho é
alógico, é simbólico, é tabuístico, é pré-lingüístico; e assim
é o texto todo. Trata-se de um sonho, sonhado talvez por todos
os personagens.
Pois há personagens. Pai, mãe, filhos gêmeos e uma filha, o objeto
de um crime sexual que o pai teria cometido.
Na maioria das vezes, contudo, esses personagens aparecem transformados
numa espécie de leitmotiv wagneriano, que os evoca mesmo
quando ausentes. Assim, Humphrey (ou Harold, ou Haromphreyld)
Chimpden Earwicker, o pai, pode aparecer como Haveth Childer Everywhere,
Haroun Childeric Eggeberth, Here Comes Everybody, Howth Castle
and Environs, Hush! Caution! Echoland!, ou qualquer outra combinação
de suas iniciais, em qualquer sentença, mesmo quando o texto,
em aparência, trate de tudo menos dele. E assim sua sombra se
insinua mesmo em sua ausência.
Os gêmeos Shem e Shaun se transformam em qualquer querela de princípios
opostos-complementares, sob quaisquer nomes. A mãe, em tudo que
seja água ou plurabilidades, ou nas glosas de seu nome
Anna Livia Plurabelle.
Há um grupo de personagens, por exemplo, de identidade variável,
que se faz reconhecer apenas pelas menções ao seu número, 12,
e por um gosto especial pelas palavras teminadas em -ation.
Há os quatro evangelistas, Marcos, Mateus, Lucas e João, ou Mamalujo,
ou Mammon Lujius, sempre cronistas. Existe uma trama, ou muitas.
Mais do que isso existe um tema: a queda. Mais do que isso existe
uma estrutura, cíclica, que reproduz a teoria das quatro eras
recorrentes de Vico para explicar a história humana. Isso leva
o livro a terminar sem um ponto final, numa frase que só se completa
com o material da primeira linha do romance, iniciada por minúscula,
num ciclo sem fim, num bosque do qual quando se entra não se
consegue sair, disse o Eco.
Pois (e isso é uma declaração de amor; semana que vem sou mais
isento), o Wake é o livro mais atraente que pode existir.
O mais democrático. Ele requer (Joyce), um leitor ideal, com uma
insônia ideal. Paciência. Requer (Eco) um leitor com uma erudição
e uma capacidade lingüística que superem a do autor empírico Joyce.
Pois o texto (Burgess) reinventa o trocadilho, leva a extremos
a possibilidade de transgrafar palavras, misturar línguas numa
mesma delas (seriam 65 as línguas de alguma maneira presentes
no texto), de uma maneira tão absoluta que o torna completamente
diferente para cada leitor.
Há que se esquecer aquilo que Joyce chamava goahead plot (trama
seguemfrente), é verdade, e poder brincar com o livro pra frente
e pra trás. Mas há também que se esquecer o desejo de entender
um livro. Retirar dele um conteúdo, uma verdade que seja seu significado.
Se trata de um sonho. Cada qual lê como quer. Cada um entende
o que entender dos compostos plurilíngües (por vezes muito mais
do que o autor intuiu), e entende o que entender das metonímias
de significado. O livro é muito menos do autor do que poderiam
sequer suspeitar os mais radicais relativizadores da autoria na
pós-modernidade, caso ele não tivesse sido escrito. E não.
Poucos trabalhos apagam o autor como voz e gênio individual
mais efetivamente; nenhum afirma esse papel mais alta e escandalosamente.
(Deane)
E viva. Viva o bom do Joyce. Autor daquele que, por suas singularidades,
me vejo autorizado a chamar meu livro preferido antes de ter lido
vinte por cento dele.
Essa semana tem Lichtenberg não. Não consegui enxugar esse texto
e não quero abusar do espaço. Semana que vem ele volta (se alguém
sentir falta) e falo da tradução do Wake aproveitando pra
glosar um trecho do original. Tentar mostrar que não é nada impossível,
e sim divertidíssimo, desde que você não tenha medo de sofrer.
No pain, no gain! (Tony Little)
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia
Românica e língua portuguesa na Universidade Federal
do Paraná.