O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 15/10/2001

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Variorum

Caetano Waldrigues Galindo

Umberto Eco, dia desses, teve um texto seu escrito para La Republicca republicado cá em terras nossas pela Folha. Falava de relações Ocidente-Oriente e dizia, em auto-defesa, por assim dizer, que o Ocidente tem uma grande vantagem: a de ter construído um histórico que, se peca por contradições e contra-sensos, não deixa jamais de expô-los, de ao menos pensar sobre eles. Ainda que essa reflexão esteja, diria eu, condenada a um gueto tremendamente minoritário.

Isso, dizia ele como vantagem E é. Sem dúvidas; ao menos primeiro passo. Reconhecer a existência do problema.

Os estudos de gente como William Labov sobre as comunidades falantes de black english ou sobre grupos isolados e suas características (seu sotaque, laicamente) se configuraram, na segunda metade do século vinte, como as primeiras reflexões sobre diferença e, conseqüentemente, preconceito no domínio das grandes línguas de cultura.

Esses estudos demonstraram que a possibilidade de os resultados escolares das crianças negras estarem sendo conseqüência da intolerância do sistema de educação quanto à língua que elas falavam, mais do que de sua incompetência como alunos, não poderia ser subestimada. Ilustraram também, na pequena comunidade de Martha's Vineyard, como nossas imagens a respeito de certas pessoas ou de certos lugares estão absolutamente ligadas ao conceito que temos das marcas idiossincráticas de sua fala. (cf. Lichtenberg da semana passada).

Esse tipo de coisa expôs, cada vez mais, a existência de uma segregação lingüística, em vários níveis das sociedades anglófonas, que ultrapassava em muito o domínio da lingüística, gerando exclusão de várias formas. Mas isso demonstrava o quanto eles estavam, por exemplo, a nossa frente na aceitação das diferenças. Estavam falando sobre elas. Estavam expondo as contradições do sistema que vivenciavam.

Nós, malgrado os esforços da, reconheçamos, incipiente tradição lingüística em nossas terras, ainda estamos longe disso. E meu exemplo, como também no texto da semana passada, vem da imprensa de tempos de guerra.

Olho, quando posso, a BBC cobrindo os eventos, por vezes a CNN, ou a TV5, e freqüentemente a GNT.

A TV5, francófona, é multilíngüe. Há nela, por exemplo, um telejornal suíco. É o modelo francês de aceitação. Vennez: restez chez vous. Cada queijo com seu vinho.

A CNN é mais aberta, mas é a BBC que me deleita. Dia desses ouvi, apud patrem, pois os progenitores têm àcabo, um irlandês entrevistando uma texana, ou o que valha. Quem conhece variedade dialetal inglesa sabe do que se está falando. Estamos nos limites possíveis da intercompreensão. Um irlandês de mau humor é absolutamente incompreensível para um norte americano. A bem da verdade um irlandês de mau humor é incompreensível pra qualquer um. Não se tratava de uma reportagem sobre a Irlanda ou o Texas; calhou apenas de o repórter ser de um lugar e a entrevistada de outro. E de eles estarem nada preocupados em esconder o fato.

Deixemos as coisas claras. Ao contrário do que alguns professorinhos possam ter dito por aí, a diversidade de sotaques no mundo anglófono não fica nada a dever à nossa. O Filme Trainspotting, escocês, passou legendado nos Estados Unidos. Um certo trecho de Lock, Stock.., primeiro filme de Guy Ritchie, apesar de se passar em Londres, com personagens londrinos, recebeu legendas, por se tratar de um black cockney incompreensível para os mesmos londrinos. Só que eles não se furtam a.

Pois se algo têm que facilite a compreensão, é apenas uma exposição maior à variedade. Vão ao cinema e encontram um personagem com sotaque deslavadamente britânico em um filme americano sem que, muitas vezes, haja qualquer necessidade de que sua nacionalidade seja relevante para a trama. Os funcionários de primeiro escalão do governo americano, ou da administração britânica, ostentam com grande freqüência a fala de sua região materna.

Entre nós, sabemos o que acontece. É até brincadeira entre gente atenta o joguinho de se perceber quanto tempo um repórter promovido do jornalismo regional da Globo para o nacional levará para perder as marcas que denunciariam sua origem. Nosso padrão William Bonner continua pregando uma uniformidade amorfa não apenas para locutores profissionais, mas para personalidades públicas em geral, com a possível excessão dos cariocas, que representam ainda uma espécie de dialeto chique mas que, mesmo assim, tendem a suprimir suas marcas mais violentas.

É a situação de sempre. Nós vivemos a multiplicidade, mas fazemos questão de tentar escamoteá-la em favor de uma espécie de morenismo utópico. Os franceses continuam querendo argelinos pra tirar cocô da rua, ou para lhes dar um nobel de literatura, quando então viram franceses (cf. as notas do Rogerio).

Há preconceito no mundo anglófono? Horrores. É óbvio. Mas o passo inicial eles continuam tendo dado há mais tempo. E podem viver um pouco já de suas conseqüências.Continuam tendo a vantagem de expor seus podres, falar sobre eles. Abrir as feridas.

 

PS. Ao Andreiuscha. Não se dizem heresias contra Richard Rodgers. Coisa de filisteu. De resto, as coisas se dizem por si mesmas. De resto, esqueceram de avisar quem organizou a obra completa do Coleman na Atlantic sobre a precedência da versão com o Pollock na capa, e não no encarte.

 

LICHTENBERG, Sudelbuch A (1765-1778)

8.
A superstição se origina entre as pessoas comuns na precoce e excessivamente zelosa instrução religiosa que recebem: ouvem falar em mistérios, milagres, feitos do Diabo, e consideram muito provável que coisas desse tipo possam ocorrer em todas as coisas, em todos os lugares. Se, por outro lado, fossem primeiro instruídos sobre a própria natureza, iriam prontamente encarar os elementos sobrenaturais e misteriosos da religião com maior temor, ao invés de considerá-los extremamente ordinários, como fazem agora - tão ordinários, de fato, que eles não consideram nada extraordinário se alguém lhes diz que seis anjos desceram a rua hoje...

9.
Não existem sinônimos: os inventores das palavras que consideramos sinônimas certamente expressavam nelas não uma única coisa, mas presumivelmente espécies.

10.
Pode-se chamar o hábito de atrito moral: algo que previne que a mente deslize sobre as coisas e a conecta a elas, dificultando que delas se liberte.

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Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná.

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