Umberto Eco, dia desses, teve um texto seu escrito para La
Republicca republicado cá em terras nossas pela Folha.
Falava de relações Ocidente-Oriente e dizia, em
auto-defesa, por assim dizer, que o Ocidente tem uma grande vantagem:
a de ter construído um histórico que, se peca por
contradições e contra-sensos, não deixa jamais
de expô-los, de ao menos pensar sobre eles. Ainda que essa
reflexão esteja, diria eu, condenada a um gueto tremendamente
minoritário.
Isso, dizia ele como vantagem E é. Sem dúvidas;
ao menos primeiro passo. Reconhecer a existência do problema.
Os estudos de gente como William Labov sobre as comunidades falantes
de black english ou sobre grupos isolados e suas características
(seu sotaque, laicamente) se configuraram, na segunda metade
do século vinte, como as primeiras reflexões sobre
diferença e, conseqüentemente, preconceito no domínio
das grandes línguas de cultura.
Esses estudos demonstraram que a possibilidade de os resultados
escolares das crianças negras estarem sendo conseqüência
da intolerância do sistema de educação quanto
à língua que elas falavam, mais do que de sua incompetência
como alunos, não poderia ser subestimada. Ilustraram também,
na pequena comunidade de Martha's Vineyard, como nossas imagens
a respeito de certas pessoas ou de certos lugares estão
absolutamente ligadas ao conceito que temos das marcas idiossincráticas
de sua fala. (cf. Lichtenberg da semana passada).
Esse tipo de coisa expôs, cada vez mais, a existência
de uma segregação lingüística, em vários
níveis das sociedades anglófonas, que ultrapassava
em muito o domínio da lingüística, gerando
exclusão de várias formas. Mas isso demonstrava
o quanto eles estavam, por exemplo, a nossa frente na aceitação
das diferenças. Estavam falando sobre elas. Estavam expondo
as contradições do sistema que vivenciavam.
Nós, malgrado os esforços da, reconheçamos,
incipiente tradição lingüística em nossas
terras, ainda estamos longe disso. E meu exemplo, como também
no texto da semana passada, vem da imprensa de tempos de guerra.
Olho, quando posso, a BBC cobrindo os eventos, por vezes a CNN,
ou a TV5, e freqüentemente a GNT.
A TV5, francófona, é multilíngüe. Há
nela, por exemplo, um telejornal suíco. É o modelo
francês de aceitação. Vennez: restez chez
vous. Cada queijo com seu vinho.
A CNN é mais aberta, mas é a BBC que me deleita.
Dia desses ouvi, apud patrem, pois os progenitores têm
àcabo, um irlandês entrevistando uma texana, ou o
que valha. Quem conhece variedade dialetal inglesa sabe do que
se está falando. Estamos nos limites possíveis da
intercompreensão. Um irlandês de mau humor é
absolutamente incompreensível para um norte americano.
A bem da verdade um irlandês de mau humor é incompreensível
pra qualquer um. Não se tratava de uma reportagem sobre
a Irlanda ou o Texas; calhou apenas de o repórter ser de
um lugar e a entrevistada de outro. E de eles estarem nada preocupados
em esconder o fato.
Deixemos as coisas claras. Ao contrário do que alguns
professorinhos possam ter dito por aí, a diversidade de
sotaques no mundo anglófono não fica nada
a dever à nossa. O Filme Trainspotting, escocês,
passou legendado nos Estados Unidos. Um certo trecho de Lock,
Stock.., primeiro filme de Guy Ritchie, apesar de se passar
em Londres, com personagens londrinos, recebeu legendas, por se
tratar de um black cockney incompreensível para
os mesmos londrinos. Só que eles não se furtam a.
Pois se algo têm que facilite a compreensão, é
apenas uma exposição maior à variedade. Vão
ao cinema e encontram um personagem com sotaque deslavadamente
britânico em um filme americano sem que, muitas vezes, haja
qualquer necessidade de que sua nacionalidade seja relevante para
a trama. Os funcionários de primeiro escalão do
governo americano, ou da administração britânica,
ostentam com grande freqüência a fala de sua região
materna.
Entre nós, sabemos o que acontece. É até
brincadeira entre gente atenta o joguinho de se perceber quanto
tempo um repórter promovido do jornalismo regional da Globo
para o nacional levará para perder as marcas que
denunciariam sua origem. Nosso padrão William Bonner continua
pregando uma uniformidade amorfa não apenas para locutores
profissionais, mas para personalidades públicas em geral,
com a possível excessão dos cariocas, que representam
ainda uma espécie de dialeto chique mas que, mesmo assim,
tendem a suprimir suas marcas mais violentas.
É a situação de sempre. Nós vivemos
a multiplicidade, mas fazemos questão de tentar escamoteá-la
em favor de uma espécie de morenismo utópico. Os
franceses continuam querendo argelinos pra tirar cocô da
rua, ou para lhes dar um nobel de literatura, quando então
viram franceses (cf. as notas do Rogerio).
Há preconceito no mundo anglófono? Horrores. É
óbvio. Mas o passo inicial eles continuam tendo dado há
mais tempo. E podem viver um pouco já de suas conseqüências.Continuam
tendo a vantagem de expor seus podres, falar sobre eles. Abrir
as feridas.
PS. Ao Andreiuscha. Não se dizem heresias contra Richard
Rodgers. Coisa de filisteu. De resto, as coisas se dizem por si
mesmas. De resto, esqueceram de avisar quem organizou a obra
completa do Coleman na Atlantic sobre a precedência
da versão com o Pollock na capa, e não no encarte.
LICHTENBERG, Sudelbuch A (1765-1778)
8.
A superstição se origina entre as pessoas comuns
na precoce e excessivamente zelosa instrução religiosa
que recebem: ouvem falar em mistérios, milagres, feitos
do Diabo, e consideram muito provável que coisas desse
tipo possam ocorrer em todas as coisas, em todos os lugares. Se,
por outro lado, fossem primeiro instruídos sobre a própria
natureza, iriam prontamente encarar os elementos sobrenaturais
e misteriosos da religião com maior temor, ao invés
de considerá-los extremamente ordinários, como fazem
agora - tão ordinários, de fato, que eles não
consideram nada extraordinário se alguém lhes diz
que seis anjos desceram a rua hoje...
9.
Não existem sinônimos: os inventores das palavras
que consideramos sinônimas certamente expressavam nelas
não uma única coisa, mas presumivelmente espécies.
10.
Pode-se chamar o hábito de atrito moral: algo que previne
que a mente deslize sobre as coisas e a conecta a elas, dificultando
que delas se liberte.
MAIL [email protected]