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Acentos
Continuamos hoje, amiguinhos, nossa viagem pelo colorido mundo
das línguas humanas. E eu continuo brincando de Marcelo Gleiser
a partir de assuntos que vão surgindo em perguntas de meus alunos.
Hoje o tema são os acentos.
Primeiro separemos o jônio do frígio. Aquelas coioquinhas que flutuam
acima das letras na nossa grafia e que laicamente se chamam acentos,
recebem o vero e justo nome de diacríticos. Eles são apenas representações
do acento.
Acento é um fenômeno fonológico suprassegmental.
Mole? Isso tudo só pra dizer que ele faz parte da estrutura central
da língua (ou seja, é capaz de mudar o significado de uma palavra)
e que se aplica sobre as cadeias de fonemas, as seqüências de sons,
já montadas.
As línguas empregam acentos de vários tipos, servindo como um modo
de organizar o ritmo da fala, por exemplo, e também de multiplicar
as possibilidades distintivas dos fonemas. Pois, como já ficou dito,
uma mesma ordenação de fonemas pode representar duas palavras diferentes,
ou mesmo mais do que isso, dependendo da posição e do tipo do acento
que incida sobre ela.
Lembrem de coisas como sábia, sabia e sabiá, que sempre estiveram
presentes nos livros didáticos, para, algo distorcidamente, desse
ponto de vista, mostrar a utilidade da acentuação gráfica, dos diacríticos.
O português tem um acento do tipo dito intensivo. Isso quer dizer
que, na nossa língua, a sílaba sobre a qual recai o acento se distingue
das outras por ser pronunciada mais forte. Ou seja, há um movimento
mais ativo do diafragma quando da pronúncia das vogais acentuadas,
empurrando mais ar pela garganta e pela boca. Exatamente por ser
esse o nosso acento (e de boa parte das línguas mais conhecidas),
boa parte de nós acredita ser esse o acento possível.
Mas não é.
Os alunos de letras descobrem muito cedo, por exemplo, que o latim
clássico se organizava segundo outros princípios acentuais; utilizando
um acento quantitativo. As sílabas latinas, então, se diferenciavam
por serem umas mais longas, e não mais fortes, que as outras. A
relação entre elas se dava com base em unidades de tempo chamadas
moras. A sílaba breve contando uma mora e, a longa, duas.
As moras, exatamente como o nosso acento intensivo, são relativas,
e não absolutas. Exatamente como ninguém nos diz quantos decibéis
deve ter a sílaba tônica de cada palavra, os latinos não sabiam
quantos milissegundos tinha uma mora. Só havia a relação longa-breve,
que era capaz, por exemplo, de distinguir duas palavras grafadas
os, duas com a grafia leuis ou duas homógrafas lutum, para seis
significados diferentes.
Há línguas, além disso, que fazem uso de um acento dito tonal,
ou musical. As mais famosas delas são as sino-tibetanas.
Nelas, as sílabas se diferenciam por serem mais altas ou mais baixas,
melodicamente. Algumas delas tem duas, outras quatro alturas musicais
padronizadas (também relacionais, não absolutas). E daí pra mais.
Essas línguas podem ter tons planos e tons de contorno, que se distinguem
por cantar a sílaba em uma nota só ou, começando em uma, atingir
outra, ou outras, pré-determinadas.
É por isso que o Mandarim, falado na china, pode contar quatro significados
diferentes para a palavra ma, dependendo do tom. E é por isso, por
esse tipo de riqueza, que as línguas chinesas podem se dar ao luxo
de ser monossilábicas.
Ditas assim, as coisas já são múltiplas e complexas. Mas é claro
que vai mais longe. Os acentos podem coocorrer; uma língua pode
ser quantitativa e intensiva, como o latim tardio ou, segundo me
dizem, o húngaro. Pode também ser tonal e quantitativa, como, dessa
vez, o latim arcaico, ou certas línguas africanas. Para as línguas
que possuem tons de contorno, por exemplo, é muito freqüente a coexistência
de um acento quantitativo, que recaia na mesma sílaba, até pra dar
tempo de fazer a acrobacia musical.
Mesmo nos casos acima, a acentuação também pode ser fonética, ou
seja, pode não alterar o significado central da palavra. Assim,
podemos variar a duração e a melodia de uma vogal em português com
fins expressivos, fazendo com que, novamente, coincidam os acentos.
Assim como tendemos, num fato também fonético, a pronunciar mais
longas as sílabas tônicas; a dita quantidade românica.
Há, também, minúcias escondidas. Pois o português, por exemplo,
só pode ter um acento por palavra, enquanto o latim tinha quantidades
especificadas para todas as vogais da palavra. Em contrapartida,
o português convive com sub-acentos, sílabas intermediárias entre
as fortes e as fracas, como o fé de cafezinho que, até 1971, levavam
inclusive acento gráfico, escrevendo-se cafèzinho.
Em suma,
já deu vontade de estudar letras?
Ou, se você é aluno, deu vontade de largar o curso?
Eu acho isso tudo sobejamente interessante!
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.
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