Edição de 4.2 a 10.2.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Acentos

Continuamos hoje, amiguinhos, nossa viagem pelo colorido mundo das línguas humanas. E eu continuo brincando de Marcelo Gleiser a partir de assuntos que vão surgindo em perguntas de meus alunos.
Hoje o tema são os acentos.

Primeiro separemos o jônio do frígio. Aquelas coioquinhas que flutuam acima das letras na nossa grafia e que laicamente se chamam acentos, recebem o vero e justo nome de diacríticos. Eles são apenas representações do acento.

Acento é um fenômeno fonológico suprassegmental.
Mole? Isso tudo só pra dizer que ele faz parte da estrutura central da língua (ou seja, é capaz de mudar o significado de uma palavra) e que se aplica sobre as cadeias de fonemas, as seqüências de sons, já montadas.

As línguas empregam acentos de vários tipos, servindo como um modo de organizar o ritmo da fala, por exemplo, e também de multiplicar as possibilidades distintivas dos fonemas. Pois, como já ficou dito, uma mesma ordenação de fonemas pode representar duas palavras diferentes, ou mesmo mais do que isso, dependendo da posição e do tipo do acento que incida sobre ela.
Lembrem de coisas como sábia, sabia e sabiá, que sempre estiveram presentes nos livros didáticos, para, algo distorcidamente, desse ponto de vista, mostrar a utilidade da acentuação gráfica, dos diacríticos.

O português tem um acento do tipo dito intensivo. Isso quer dizer que, na nossa língua, a sílaba sobre a qual recai o acento se distingue das outras por ser pronunciada mais forte. Ou seja, há um movimento mais ativo do diafragma quando da pronúncia das vogais acentuadas, empurrando mais ar pela garganta e pela boca. Exatamente por ser esse o nosso acento (e de boa parte das línguas mais conhecidas), boa parte de nós acredita ser esse o acento possível.

Mas não é.
Os alunos de letras descobrem muito cedo, por exemplo, que o latim clássico se organizava segundo outros princípios acentuais; utilizando um acento quantitativo. As sílabas latinas, então, se diferenciavam por serem umas mais longas, e não mais fortes, que as outras. A relação entre elas se dava com base em unidades de tempo chamadas moras. A sílaba breve contando uma mora e, a longa, duas.

As moras, exatamente como o nosso acento intensivo, são relativas, e não absolutas. Exatamente como ninguém nos diz quantos decibéis deve ter a sílaba tônica de cada palavra, os latinos não sabiam quantos milissegundos tinha uma mora. Só havia a relação longa-breve, que era capaz, por exemplo, de distinguir duas palavras grafadas os, duas com a grafia leuis ou duas homógrafas lutum, para seis significados diferentes.

Há línguas, além disso, que fazem uso de um acento dito tonal, ou musical. As mais famosas delas são as sino-tibetanas.
Nelas, as sílabas se diferenciam por serem mais altas ou mais baixas, melodicamente. Algumas delas tem duas, outras quatro alturas musicais padronizadas (também relacionais, não absolutas). E daí pra mais.
Essas línguas podem ter tons planos e tons de contorno, que se distinguem por cantar a sílaba em uma nota só ou, começando em uma, atingir outra, ou outras, pré-determinadas.
É por isso que o Mandarim, falado na china, pode contar quatro significados diferentes para a palavra ma, dependendo do tom. E é por isso, por esse tipo de riqueza, que as línguas chinesas podem se dar ao luxo de ser monossilábicas.

Ditas assim, as coisas já são múltiplas e complexas. Mas é claro que vai mais longe. Os acentos podem coocorrer; uma língua pode ser quantitativa e intensiva, como o latim tardio ou, segundo me dizem, o húngaro. Pode também ser tonal e quantitativa, como, dessa vez, o latim arcaico, ou certas línguas africanas. Para as línguas que possuem tons de contorno, por exemplo, é muito freqüente a coexistência de um acento quantitativo, que recaia na mesma sílaba, até pra dar tempo de fazer a acrobacia musical.

Mesmo nos casos acima, a acentuação também pode ser fonética, ou seja, pode não alterar o significado central da palavra. Assim, podemos variar a duração e a melodia de uma vogal em português com fins expressivos, fazendo com que, novamente, coincidam os acentos. Assim como tendemos, num fato também fonético, a pronunciar mais longas as sílabas tônicas; a dita quantidade românica.

Há, também, minúcias escondidas. Pois o português, por exemplo, só pode ter um acento por palavra, enquanto o latim tinha quantidades especificadas para todas as vogais da palavra. Em contrapartida, o português convive com sub-acentos, sílabas intermediárias entre as fortes e as fracas, como o fé de cafezinho que, até 1971, levavam inclusive acento gráfico, escrevendo-se cafèzinho.

Em suma,
já deu vontade de estudar letras?
Ou, se você é aluno, deu vontade de largar o curso?

Eu acho isso tudo sobejamente interessante!

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.

[email protected]

 

 
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