Edição de 14.1 a 20.1.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



In fesionem aqua
Ou, como dizia a philosophia escolástica: pondo água no feijão.

Espremendo até o fim minha idéia do milênio (filha única, de mãe solteira e feia como o cão), estenderei abusivamente um paralelo ao campo artístico, para retoricamente, como tudo o que faço, responder à retórica pergunta de meu irmão amado numa dessas semanas.
Nota de rodapé: Por vezes tenho vontade de encerrar todas minhas excogitações com a chave: os textos publicados nessa seção não representam necessariamente o ponto de vista do Autor. Mas receio que alguém possa me entender mal, ou seja: possa não levar a sério.
Nota de rodapé (à anterior): o adjetivo dedicato ao fratello não é retórico

Vamos a ele. Opa ralelo!
Por que é que ninguém, mesmo nas esferas in, ouve mais Ligeti?
Porque a música, precisamente por sua importância avassaladora na vida de todos os mortais menos o João Cabral, criou para si mesma uma situação incompreensível para as outras artes:

Ela tem de fazer parte intensa do dia-a-dia de todas as pessoas e, assim, inventou seus próprios meios e seus próprios recursos (e necessidades) para se massificar. Música é a única coisa que pode ser verdadeiramente pop entre as artes. Uma pop art só pode se definir como tal em um universo em que o termo já foi construído pela atividade musical.
Nota de rodapé: assunto para oitra oportunidade é a apropriação da palavra arte, entre os entendidos, pelo povo das plásticas. Assim como, entre o povo, artista é, até que se diga o contrário, aquele cara da novela.

A música pop é uma necessidade. Sua simplificação, sua massificação no pior dos sentidos que o André possa ver na palavra, são decorrências talvez exageradas, mas automáticas.

A partir daí, criou-se o espaço para que também do outro lado se forjasse o desvio.
Os músicos eruditos de hoje (e temos de adjetivá-los de alguma maneira) se vêem, como poucos artistas, desligados de qualquer mercado. Para as artes plásticas, por exemplo, ele ainda impera. Mas, a não ser no campo das encomendas, que já garantiram o pão de muito compositor aí pelo século vinte, não consigo imaginar Luigi Nono precisando entrar em uma fase mais comercial, ou o estilo de Penderecki sendo pasteurizado e imitado à exaustão por um grupo de abutres de conservatório, que acabam assim, por seu meio facilitado de sobrevivência, acarretando uma desvalorização da cotação de venda da Thrénodie.
Esse pessoal se liberou completamente à vanguarda. O Luigi Nono do final da carreira (que eu, particularmente, gosto muito de) se deu mesmo ao luxo de ser inaudível. Esse pessoal, e o Nono é um exemplo, esteve ligado a universidades, fundações e quejandos durante boa parte de sua carreira. Financiados por outra coisa que não suas vendas. E, logo, livres da necessidade de agradar.
Porque seu campo já estava ocupado, eles puderam se afastar completamente das pressões do público; do mundo real. Eles não precisam negociar aquilo que os amiguinhos do Radiohead chamam de artistic freedom in the market place; sua liberdade se dá de barato. E é mesmo disso que eles vivem. E graças a isso é que podem produzir o que produzem.

Por que é que no espaço Unibancool não se põe Xenakis pra tocar?
Porque ele não precisa. Porque ele não quer. Porque essa música se fechou entre músicos. Não pode sair daí e, mais doloroso, não quer sair daí. Isso é confortável e, mais até, soa elegante: deixar a patuléia com sua lavagem; nada de pérolas aos. Não estão eles como nós, lingüistas. Tirando o Júlio Medaglia e alguns discípulos cá e lá, essa esquizofrenia nem mais se apresenta a eles: tudo está em seu lugar.

Assim como o design se transformou na alternativa mercadológica pop às artes plásticas, como o cinema ocupou a praça da literatura (em termos), talvez esteja na hora de se admitir a cisão, e dar outros nomes aos bois. Música pra cá e musicologia pra lá.

Eu se amarro nas duas coisas. Ou nas seis acima!
Por tudo o que têm de diferente e específico. Amo Robert Johnson por sua simplicidade quase doentia; adoro Penderecki por sua liberdade de ser inteligente.
(E, pior dos piores, gosto também dos meios de caminho, que, por tudo que ficou dito acima, existem quase que unicamente por iniciativa de aproximação originada do pessoal do pop)

Nota de rodandré (contra o culto à personalidade): É impressão minha, que não sei piciricas do assunto, ou tudo o que foi dito sobre o ladrão de Alma chamado Gropius não poderia ter sido clamado, décadas antes, pelo pessoal do Art Nouveau?

Caetano Waldrigues Galindo, 28 anos, é professor de português e filologia românica da Universidade Federal do Paraná.

[email protected]

 

 
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