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É hoje!
Tive uma iluminação.
Sim, amiguinhos, eu tive uma idéia.
Ter uma idéia, chez moi, é coisa absolutamente bissexta.
Na verdade não me lembra agora de maneira alguma a última vez em
que tive um insight como esse. Assim, ex nihilo. Um verdadeiro
estalo místico!
Negócio é o seguinte:
desde os meus últimos textos sobre gramaticoisas, venho ouvindo
o anjo que em minha orelha sopra com a voz do bom-senso. (E isso
até que acontece com bastante freqüência, sabe? O poblema é que
eu normalmente não dou ouvidos.) O dito mensageiro das esferas mais
interessantes me dizia o seguinte: Caetano, que sou eu, está na
hora de você remedeiar a situação para o leitor leigo em lingüistiquices,
para aquele cara (ou aquela moça) que simplesmente não entende onde
vocês querem chegar com esse falatório todo; as pessoas que não
conseguem entender se vocês querem abolir a grammatica, ou até que
ponto se deve conviver com ela.
Pois bem, não só acho que tive um lampejo para fazer isso, como
acho que tenho algo a dizer até para nós lingüistas. Portanto, preparem-se:
a terra vai tremer; do solo mais estéril acredita-se ter brotado
algo útil!
Vamos a ele. Oútil!
Diz mais ou menos assim, ó:
Tudo gira em torno da incipiência do pensamento lingüístico. Em
vários níveis: historicamente (somos uma ciência recente), socialmente
(ainda não nos colocamos, como diz o Faraco, entre os discursos
que dizem a língua na sociedade) e esquizofrenicamente (ainda não
nos liberamos, nós mesmos, do discurso normativo).
Então, como diz um colega meu.
Por partes, dando a História de barato, por mais simples. Ainda
que possa voltar a ela em outro texto, outro dia, outro pôr-do-sol.
Um.
A.
A sociedade, o cidadão médio, o senso-comum, ainda não tomou conhecimento
do discurso lingüístico. Isso é simples, visível, e venho falando
do assunto aqui há algum tempo. Desde o primeiro texto, de fato.
Tal situação se estabelece, é absoluta verdade, por culpa nossa,
em primeiro lugar. Não podemos, confortavelmente, fugir desse fato.
Já está mais do que na hora de começarmos a bater um pau proverbial
nessa mesa.
B.
Mas há um poblema mais sério. O fato de que, em todo esse tempo,
em todos esse séculos, um discurso se apropriou incontestavelmente
da propriedade de dizer a língua. E se trata de um discurso normativo,
autoritário. Sob seu jugo, que, por vezes, nem é tido por tal, transitaram
e transitam gerações sobre gerações de falantes, que acreditam muito
pacificamente que é assim que se trata a questão da língua. São
como membros machos não-ilustrados de uma sociedade falocrata tradicional,
que mal podem ver uma alternativa a tratar mulher na porrada. Para
essa sociedade, portanto, o único comentário a se fazer sobre língua
é o judicial. Prescritivo, coercivo e mesmo punitivo.
Ergo.
Não se pedirá jamais a um sociólogo (representante, aliás, de uma
ciência tão novinha quanto a nossa) que indique, ao fim de sua exposição
sobre diferentes sistemas éticos sociais, qual é o mais aconselhável
para nossa conduta diária. Qual, no fim de contas, é intrinsecamente
(ou assim o queremos ver) melhor? A própria aproximação entre advogados
e sociólogos pode não soar legítima para grande parte da população.
Ainda que se chame ciência social aplicada ao direito.
Sed tamen.
Pede-se efetivamente a um lingüista, depois de uma longa arenga
sobre variedade no uso de formas de tratamento, que responda de
uma vez, se a gente pode usar a gente ou nós não podemos.
Qual que é que é melhor, seu lingüistazinho pogressista?
Dois.
A esquizofrenia.
Seja por estarmos em constante luta (ainda que eu a preferisse chamar
esperneação) com o paradigma normativo dominante e seu anacronismo,
seja por termos sido nós mesmos criados sob ele, seja por sentirmos
a necessidade de dar à sociedade uma resposta, a única que ela entende,
nós nos vemos freqüentemente criando, para nós mesmos, essa situação
incômoda: queremos dar palpites, queremos redesenhar o formulário
ortográfico e a norma padrão. Mas não temos, por definição,
as respostas seguras, estanques, em preto-e-branco, que se devem
esperar de legisladores. Somos cientistas entre advogados e políticos;
péssimo lugar para moças de família.
E o pingüim parece tranqüilo, soltando barquinhos, na beira do
Nilo..
Sabe, não soou assim tão ideiudo depois de dito.. Mas a questão
é talvez essa. Enquanto não resolvermos nosso poblema de número
um, nossas exposição e qualificação entre as vozes autorizadas a
falar sobre questões de língua, nos veremos em cama estreita e de
cobertor curto. Querendo falar no espaço do adversário, em um jogo
cujas regras foram determinadas por eles há séculos, e são tidas
por incontestes por todos os participantes. Esperneemos. Agüentem-nos!
Temos de ter o nosso campo.
Temos de ser donos da bola em algum momento.
Caetano Waldrigues Galindo, 28 anos, é professor de português e
filologia românica da Universidade Federal do Paraná.
[email protected]
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