Edição de 10.12 a 17.12.2001



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



É hoje!

Tive uma iluminação.
Sim, amiguinhos, eu tive uma idéia.

Ter uma idéia, chez moi, é coisa absolutamente bissexta. Na verdade não me lembra agora de maneira alguma a última vez em que tive um insight como esse. Assim, ex nihilo. Um verdadeiro estalo místico!

Negócio é o seguinte:
desde os meus últimos textos sobre gramaticoisas, venho ouvindo o anjo que em minha orelha sopra com a voz do bom-senso. (E isso até que acontece com bastante freqüência, sabe? O poblema é que eu normalmente não dou ouvidos.) O dito mensageiro das esferas mais interessantes me dizia o seguinte: Caetano, que sou eu, está na hora de você remedeiar a situação para o leitor leigo em lingüistiquices, para aquele cara (ou aquela moça) que simplesmente não entende onde vocês querem chegar com esse falatório todo; as pessoas que não conseguem entender se vocês querem abolir a grammatica, ou até que ponto se deve conviver com ela.

Pois bem, não só acho que tive um lampejo para fazer isso, como acho que tenho algo a dizer até para nós lingüistas. Portanto, preparem-se: a terra vai tremer; do solo mais estéril acredita-se ter brotado algo útil!
Vamos a ele. Oútil!

Diz mais ou menos assim, ó:
Tudo gira em torno da incipiência do pensamento lingüístico. Em vários níveis: historicamente (somos uma ciência recente), socialmente (ainda não nos colocamos, como diz o Faraco, entre os discursos que dizem a língua na sociedade) e esquizofrenicamente (ainda não nos liberamos, nós mesmos, do discurso normativo).

Então, como diz um colega meu.
Por partes, dando a História de barato, por mais simples. Ainda que possa voltar a ela em outro texto, outro dia, outro pôr-do-sol.

Um.
A.
A sociedade, o cidadão médio, o senso-comum, ainda não tomou conhecimento do discurso lingüístico. Isso é simples, visível, e venho falando do assunto aqui há algum tempo. Desde o primeiro texto, de fato.
Tal situação se estabelece, é absoluta verdade, por culpa nossa, em primeiro lugar. Não podemos, confortavelmente, fugir desse fato. Já está mais do que na hora de começarmos a bater um pau proverbial nessa mesa.
B.
Mas há um poblema mais sério. O fato de que, em todo esse tempo, em todos esse séculos, um discurso se apropriou incontestavelmente da propriedade de dizer a língua. E se trata de um discurso normativo, autoritário. Sob seu jugo, que, por vezes, nem é tido por tal, transitaram e transitam gerações sobre gerações de falantes, que acreditam muito pacificamente que é assim que se trata a questão da língua. São como membros machos não-ilustrados de uma sociedade falocrata tradicional, que mal podem ver uma alternativa a tratar mulher na porrada. Para essa sociedade, portanto, o único comentário a se fazer sobre língua é o judicial. Prescritivo, coercivo e mesmo punitivo.
Ergo.
Não se pedirá jamais a um sociólogo (representante, aliás, de uma ciência tão novinha quanto a nossa) que indique, ao fim de sua exposição sobre diferentes sistemas éticos sociais, qual é o mais aconselhável para nossa conduta diária. Qual, no fim de contas, é intrinsecamente (ou assim o queremos ver) melhor? A própria aproximação entre advogados e sociólogos pode não soar legítima para grande parte da população. Ainda que se chame ciência social aplicada ao direito.
Sed tamen.
Pede-se efetivamente a um lingüista, depois de uma longa arenga sobre variedade no uso de formas de tratamento, que responda de uma vez, se a gente pode usar a gente ou nós não podemos. Qual que é que é melhor, seu lingüistazinho pogressista?

Dois.
A esquizofrenia.
Seja por estarmos em constante luta (ainda que eu a preferisse chamar esperneação) com o paradigma normativo dominante e seu anacronismo, seja por termos sido nós mesmos criados sob ele, seja por sentirmos a necessidade de dar à sociedade uma resposta, a única que ela entende, nós nos vemos freqüentemente criando, para nós mesmos, essa situação incômoda: queremos dar palpites, queremos redesenhar o formulário ortográfico e a norma padrão. Mas não temos, por definição, as respostas seguras, estanques, em preto-e-branco, que se devem esperar de legisladores. Somos cientistas entre advogados e políticos; péssimo lugar para moças de família.
E o pingüim parece tranqüilo, soltando barquinhos, na beira do Nilo..

Sabe, não soou assim tão ideiudo depois de dito.. Mas a questão é talvez essa. Enquanto não resolvermos nosso poblema de número um, nossas exposição e qualificação entre as vozes autorizadas a falar sobre questões de língua, nos veremos em cama estreita e de cobertor curto. Querendo falar no espaço do adversário, em um jogo cujas regras foram determinadas por eles há séculos, e são tidas por incontestes por todos os participantes. Esperneemos. Agüentem-nos! Temos de ter o nosso campo.

Temos de ser donos da bola em algum momento.

Caetano Waldrigues Galindo, 28 anos, é professor de português e filologia românica da Universidade Federal do Paraná.

[email protected]

 

 
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