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Cinco vezes pouco (quase nada)
1. Explicação
Fim de tarde. Algum enlevo. Certa melancolia. Hoje.
Hoje não há. Texto.
Seguem signos. Mensagens. Palavras.
Frases soltas. Lampejos.
Veja-se o quê. Saiba-se lá.
Que te seja de algum proveito, my reader, thou, my thrall.
2. Dragoste
A palavra latina amor manteve-se em todo o canto da românia.
Coisa curiosa.
Faz parte ela de um tipo de núcleo duro que sofreu pouquíssima alteração
em cada uma das línguas.
Usualmente reina só e inconteste.
Mas não entre os romenos.
Eles têm amor. Têm iubire. Têm dragoste. Proparoxítona.
As duas últimas são de pais eslavos. São elas a ter mais força
e mais vida na língua, por ter sido eslava, por assim dizer, a infância
do romeno como língua de cultura. Amor se aprende da infância. Embora
a vezes possa ela durar décadas.
O único verbo é a iubi. Infinitivo curto.
Iubire, como todo infinitivo longo, é um substantivo abstrato.
Mais ou menos igual ao que conseguiríamos em português substantivando
o infinitivo com artigo: o amar; o ato de.
Ato de amor.
Te iubesc. A frase que os iniciantes sempre querem aprender
a dizer em uma língua nova.
Ou talvez sempre queiram ouvir.
Amor, como boa parte dos latinismos romenos, é palavra
mais tardia. De ares mais poéticos.
Só me lembra agora um exemplo, de um simbolista: amorul meu de
trup, meu amor de carne, personificado.
Amor é mais concreto. Não existe o verbo a ama.
Mas sempre me agradou muito mais o dragoste, que me parece
um equivalente mais justo do nosso amor. Mais amplo e polissêmico.
Além de soar infinitamente mais belo. Proparoxítono.
Seus derivados incluem até a forma de tratamento drag: caro.
Há mesmo um verbo, a drãgosti, mas com significado um pouco
diferente: alentar, acariciar..
Amizade, amor, ternuras em geral. Tudo o que a amicitia latina
já quis dizer, me parece novamente reunido, em romeno, em uma palavra
não-latina. Dragoste. Tudo de bom. Outro exemplo de um poeta:
dragostele noastre, nossos amores, ante-proparoxítona.
De volta aos poetas:
Te iubesc,
amorul meu drãgãlas,
cu dragoste cea mai dragutã
pe care am mai drãgostit.
Te amo, meu amor (minha amada) encantador (-a), com o amor mais
querido (!?) que já alentei.
Bonito.
Com o perdão da frase torta, romeno é muito bom. Ca si dragoste.
3. La femme de ma vie (reflexões poetizadas sobre algo mais
que pragmático)
Em greve. Momento de suspensão. Pausa entre antes e depois. Raro
dos momentos em que se dá corpo, quase insustentável por seu mesmo
paradoxo, ao presente que foge.
Oportunidade para que as duas partes envolvidas (as duas) revejam
o que antes. Com a única e explícita finalidade de gerar-se um depois
mais propício. Assim espero.
A mim me a greve agride duramente. Me separa do que mais gosto.
Me põe apartado da mulher da minha vida, que já morou em um conservatório,
e hoje está nas salas de aula da universidade.
Sou dado a cultos. Já vivi precisando estudar técnica de mão esquerda
pra me sentir bem. Hoje preciso dar aulas. Preciso da minha cachaça
diária, como diz um colega, ou da mulher da minha vida, como prefiro
eu.
Greve. Esperando pelo depois. Perdido durante agora. Completamente.
4. Epifanias
Joyce gostava de epifanias. Da palavra e da idéia.
Eu, eu só comecei a senti-las, talvez só por dar então valor, depois
de velho. (Aos que não o sabem, a velhice de alguém da minha idade
começa lá pelos vinte e cinco.)
Depois disso, no entanto, peguei de amar epifanias. Palavra e idéia.
O sufixo -fania, de nobre ascendência grega, é muito útil.
Hierofanias são revelações do sagrado. Epifanias, do que esteja
acima. Dei de gostar (palavras e idéias) de calofanias de tempos
pra cá. Revelações do que de belo.
Juntem-se as três coisas, e se faz um convertido.
Joyce desprezava a primeira delas.
Não tenho vivido muito com esse tipo também.
Mas essa visão é simplória.
É impossível não haver uma hierofania pela mera revelação, conjunta,
do belo e do superno.
Em literatura, em música, em sexo.
5. Ao leitor
Perdão peço pela inconveniência. Hoje não estou muito em pé.
Fique muito bem.
Saúde.
Dragoste.
Caetano Waldrigues Galindo, 28 anos, é professor de português da
Universidade Federal do Paraná.
[email protected]
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