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Alcafurra
Alienado no país das maravilhas procura: multidões dispostas
a engolir patranhas e votantes para eleição de síndico ou o que
seja, a essas alturas.
Paulo Renato de Souza, que acostumei chamar carinhosamente
Capiroto, andou passando dos limites que ele mesmo já trazia
distendidos por sete anos de desbunde. Se contive o quanto pude pra
não falar de políticas aqui; essa é a praia do frater. Mas as
coisas, nesse final de greve, merecem uma tiração de sarro.
Estamos falando de um homem que, sucessivas vezes, ignorou ordens
judiciais com base, no mais das vezes, em argumentos do tipo:
como?, ah, não, isso não é comigo não ou será que dava pra
repetir a liminar que esse mês eu não estou ouvindo muito bem.
Estamos falando de um homem que encontra explicações para todas as
mazelas da educação brasileira em lugares que não a sua pasta.
Fomos os últimos no PISA? Culpa da repetência que,
misteriosamente, ele parece tratar como um fator externo, algo que
não seja lá bem de sua alçada. O resultado do ENEM foi o pior dos
últimos três anos? Nós já sabíamos que ia ser assim, é só um
problema de amostragem. O senhor vai ser preso por achar que o
judiciário é a casa de alguma tia sua? Arranja aí um habeas
corpus preventivo.
Essa foi a chave de ouro. Ministro de estado com habeas
corpus preventivo. 007: licença para matar.
Vocês aí, opinião pública, deu pra perceber que foi só o Capiroto
se afastar das, até aquele momento, inegociações para que
tudo caminhasse a a greve se encerrase bem loguinho, com cessões de
cá e de lá, como sói ser? Pois estamos falando de um intransigente
turrão que transformou uma greve de professores, que podia ser só
mais uma, em um acontecimento histórico, quase acabando no distrito;
entre outras razões, porque clamava não ter o dinheiro que, de
acordo com seu colega do planejamento, estaria com ele se ele
tivesse pedido. Vocês aí, fui só eu ou vocês também puderam
perceber a monstruosa cara de constragimento de Capiroto e
Presidente naquela foto, à mesa da presidência, que saiu em mais de
um jornal ilustrando o fechamento do acordo. Criancinhas mimadas
obrigadas a comer jiló e querendo convencer a todos de que estavam
por cima da carne-seca.
O fato é o seguinte: se a vitória do movimento grevista não foi
tão absoluta e esmagadora como decantou o Roberto Leher do AndeS, o
governo saiu, sim, com o rabo entre as pernas e de ânimo bastante
combalido dessa estória toda. E os últimos sonhos de candidatura de
Paulo Renato, sua filha preferida, viraram piada e desconsolo.
Hélas.
Já Fernando Henrique mais de uma vez já demonstrou caber muito
bem na imagem da criança mimada contrariada. Assim como na da imagem
da criança bonitinha acostumada a agradar e impressionar na casa de
todas as tias.
Juntemos as duas coisas, e vemos o mesmo homem que berrava
vive la france sob ovação dos camemberts sair com
aquela pérola em um encontro que tratava de inovação tecnológica.
Professores seriam coitadinhos resignados a passar a vida a
reproduzir o trabalho dos outros, apenas por não terem capacidade de
criar. Só fica no ensino quem não tem oportunidade de virar
pesquisador. Contrariado, o menino lança cusparadas a todos os
lados. Já vimos isso.
Alguém devia contar ao presidente que, na minha área, por
exemplo, as ciências humanas, é quase um contra-senso sequer
tentar-se estabelecer uma divisão entre professores e pesquisadores.
De mim a Ernst Cassirer, de Wittgenstein a Lévi-Strauss. Os
pesquisadores são professores, e sentem radical necessidade de
sê-lo. Ou isso ou somos todos coitadinhos e, na companhia dos
professores Noam Chomsky e Umberto Eco, por exemplo, me sinto um
coitadinho putamente privilegiado. (O curioso é que o presidente não
era sociólogo?)
Alguém devia contar ao presidente que, se em certas áreas,
realmente os melhores alunos (formados, invariavelmente, pelas
universidades públicas: pelos coitadinhos) não ficam na
academia, isso não se deve tanto a possibilidades externas de
pesquisa quanto ao salário que se paga a um professor universitário
no Brasil. Ou alguém aí duvida que um aluno genial de arquitetura,
por exemplo, possa viver um pouco melhor trabalhando como
arquiteto do que como professor?
O homem deu aula, aqui e na Sorbonne, pesquisou, escreveu. Ou
virou imbecil de vez ou, o que otimisticamente ainda acho mais
provável, estava mesmo só tentando agradar aos tecnóides
inovacionistas se camaleonando em um paradigma que, em alguns campos
das exatas, não só é alentado como tem alguma razão de ser. Um
paradigma que começava com o culto à juventude e seu poder de
inovação e que acabou, tortamente, levando o presidente a dizer uma
asneira que só pode ter doído em sua memória no dia seguinte.
Ele esquece coisas. Esquece que foi professor, pesquisador,
sociólogo, terceiro-mundista. Tomara possamos nós conseguir esquecer
certas marcas de sua passagem por essa carreira em que obteve
tremendos êxito e aclamação mundiais.
Caetano Waldrigues Galindo, 28 anos, é professor de português da
Universidade Federal do Paraná.
[email protected]
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