Edição de 10.12 a 17.12.2001



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Alcafurra

Alienado no país das maravilhas procura:
multidões dispostas a engolir patranhas e votantes para eleição de síndico ou o que seja, a essas alturas.

Paulo Renato de Souza, que acostumei chamar carinhosamente Capiroto, andou passando dos limites que ele mesmo já trazia distendidos por sete anos de desbunde. Se contive o quanto pude pra não falar de políticas aqui; essa é a praia do frater. Mas as coisas, nesse final de greve, merecem uma tiração de sarro.

Estamos falando de um homem que, sucessivas vezes, ignorou ordens judiciais com base, no mais das vezes, em argumentos do tipo: como?, ah, não, isso não é comigo não ou será que dava pra repetir a liminar que esse mês eu não estou ouvindo muito bem. Estamos falando de um homem que encontra explicações para todas as mazelas da educação brasileira em lugares que não a sua pasta.
Fomos os últimos no PISA? Culpa da repetência que, misteriosamente, ele parece tratar como um fator externo, algo que não seja lá bem de sua alçada. O resultado do ENEM foi o pior dos últimos três anos? Nós já sabíamos que ia ser assim, é só um problema de amostragem. O senhor vai ser preso por achar que o judiciário é a casa de alguma tia sua? Arranja aí um habeas corpus preventivo.

Essa foi a chave de ouro. Ministro de estado com habeas corpus preventivo. 007: licença para matar.

Vocês aí, opinião pública, deu pra perceber que foi só o Capiroto se afastar das, até aquele momento, inegociações para que tudo caminhasse a a greve se encerrase bem loguinho, com cessões de cá e de lá, como sói ser? Pois estamos falando de um intransigente turrão que transformou uma greve de professores, que podia ser só mais uma, em um acontecimento histórico, quase acabando no distrito; entre outras razões, porque clamava não ter o dinheiro que, de acordo com seu colega do planejamento, estaria com ele se ele tivesse pedido.
Vocês aí, fui só eu ou vocês também puderam perceber a monstruosa cara de constragimento de Capiroto e Presidente naquela foto, à mesa da presidência, que saiu em mais de um jornal ilustrando o fechamento do acordo. Criancinhas mimadas obrigadas a comer jiló e querendo convencer a todos de que estavam por cima da carne-seca.

O fato é o seguinte: se a vitória do movimento grevista não foi tão absoluta e esmagadora como decantou o Roberto Leher do AndeS, o governo saiu, sim, com o rabo entre as pernas e de ânimo bastante combalido dessa estória toda. E os últimos sonhos de candidatura de Paulo Renato, sua filha preferida, viraram piada e desconsolo. Hélas.

Já Fernando Henrique mais de uma vez já demonstrou caber muito bem na imagem da criança mimada contrariada. Assim como na da imagem da criança bonitinha acostumada a agradar e impressionar na casa de todas as tias.

Juntemos as duas coisas, e vemos o mesmo homem que berrava vive la france sob ovação dos camemberts sair com aquela pérola em um encontro que tratava de inovação tecnológica. Professores seriam coitadinhos resignados a passar a vida a reproduzir o trabalho dos outros, apenas por não terem capacidade de criar. Só fica no ensino quem não tem oportunidade de virar pesquisador.
Contrariado, o menino lança cusparadas a todos os lados. Já vimos isso.

Alguém devia contar ao presidente que, na minha área, por exemplo, as ciências humanas, é quase um contra-senso sequer tentar-se estabelecer uma divisão entre professores e pesquisadores. De mim a Ernst Cassirer, de Wittgenstein a Lévi-Strauss. Os pesquisadores são professores, e sentem radical necessidade de sê-lo. Ou isso ou somos todos coitadinhos e, na companhia dos professores Noam Chomsky e Umberto Eco, por exemplo, me sinto um coitadinho putamente privilegiado. (O curioso é que o presidente não era sociólogo?)

Alguém devia contar ao presidente que, se em certas áreas, realmente os melhores alunos (formados, invariavelmente, pelas universidades públicas: pelos coitadinhos) não ficam na academia, isso não se deve tanto a possibilidades externas de pesquisa quanto ao salário que se paga a um professor universitário no Brasil. Ou alguém aí duvida que um aluno genial de arquitetura, por exemplo, possa viver um pouco melhor trabalhando como arquiteto do que como professor?

O homem deu aula, aqui e na Sorbonne, pesquisou, escreveu.
Ou virou imbecil de vez ou, o que otimisticamente ainda acho mais provável, estava mesmo só tentando agradar aos tecnóides inovacionistas se camaleonando em um paradigma que, em alguns campos das exatas, não só é alentado como tem alguma razão de ser. Um paradigma que começava com o culto à juventude e seu poder de inovação e que acabou, tortamente, levando o presidente a dizer uma asneira que só pode ter doído em sua memória no dia seguinte.

Ele esquece coisas. Esquece que foi professor, pesquisador, sociólogo, terceiro-mundista. Tomara possamos nós conseguir esquecer certas marcas de sua passagem por essa carreira em que obteve tremendos êxito e aclamação mundiais.

Caetano Waldrigues Galindo, 28 anos, é professor de português da Universidade Federal do Paraná.

[email protected]

 

 
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