"Em nossas terras aportaram,
Mais querendo, visto o mar.
Por mais buscar, nos encontraram;
Gentes novas, novo o ar. "
E eis que cá chegaram lusos.
Trouxeram muito. Levaram de volta seu butim, em contraparte.
Nos fizeram o que somos. Nos privaram, talvez, de sermos outros.
Não interessa.
Fico hoje com duas coisas. Duas bênçãos que
se converteram em cilícios. Muito cedo. Duas dádivas
desembarcadas na primeira praia.
Pois nos trouxeram seu Deus, e mais nos deram sua língua.
Junto com seu Deus, ganhamos sua igreja. Toda uma tradição;
uma cultura estruturada e codificada. Uma visão de mundo.
Ganhamos junto desse Deus, em sua igreja, um mundo construído
em torno da culpa. Da responsabilidade pela transgressão,
permitida e mesmo concedida. Responsabilidade, mas jamais satisfeita.
Culpa perene. Fomos convertidos a uma religião que não
prevê jamais uma conversão completa, pois que se
estrutura na angústia da imperfeição.
Junto com sua língua, herdamos um vício que primamos
em magnificar pelos anos seguintes, pelos séculos dos séculos
em que seguimos. Uma tradição de simultânea
transgressão quotidiana e purga interminável de
uma culpa cultivada. Uma culpa que é de todos. De ninguém.
Por isso sua.
Herdamos uma língua estrangeira; língua de outros.
Em quinhentos anos, fizemos dessa língua maravilha. Fizemos
miséria com nossa língua. Foi feita nossa. Tornou-se
diferente, viu-se imersa em outros ares; falada por outros povos,
dita sua em outras línguas. Criamos nossa língua
da língua outra que nos foi mostrada. Fizemos com que fosse
nossa sem deixar de ser o que já tinha.
Mas nossa escola, nossos mestres, nossa imprensa, seguem por
quinhentos anos a fazer com que tenhamos de nos sentir perpétuos
neófitos no "culto" a essa língua. Eternamente
estrangeiros apenas recém-convertidos, ainda não
autenticamente pertencentes. Sócios minoritários
sem direito a voto. Sempre culpados, sempre pecadores.
Continuamos seguindo atrás de um utópico "português
correto", continuamos nos assumindo todos como falantes de
um português estropiado, e continuamos, isso é o
mais estranho, tomando como padrão, instituindo como referência
o português dos portugueses. Ainda não tomamos posse
de nossa língua. Um e cada um de todos nós.
Somos cento e noventa milhões de falantes de uma língua
que não conseguem se considerar, como lembrou o bom professor
Faraco dia desses, sócios proprietários dessa mesma
língua. Continuamos estrangeiros. Sem direitos.
Poucos serão os eleitos, a se sentar à direita
do senhor. Poucos são os pasquales, que conseguem dominar
essa coisa "complicada", meio hermética, que
é o tal português correto. O português do outro;
português dos santos.
Seguimos católicos, seguimos culpados. E se algum imbecil
chega a nossos filhos em idade de alfabetização
e proclama, cheio de certeza, que eles não sabem falar
português, porque, digamos, começam uma oração
com pronome átono (falamos ainda disso), ou não
empregam corretamente a maldita concordância (podemos ainda
falar disso), nós concordamos. E somos capazes de repetir,
em momentos de maior humildade, nos incluindo entre os ignorantes.
Eu quero essa língua pra mim. Mas eu me resolvo sozinho.
Só posso fazer coisas com ela, e com o mundo que ela me
dá (falamos disso ainda), a partir do momento em que a
trate como brinquedo e instrumento meu. Sem pruridos, sem pudicícias.
Sem "respeito".
Resta ainda, a nós lingüistas, dá-la a quem
é de direito. Revelação.
Lichtenberg Sudelbuch A (1765-770)
15.
Tenho percebido que a ambição fervente e a desconfiança
andam sempre juntas.
17.
Preconceitos são, por assim dizer, os instintos mecânicos
dos homens: através de seus preconceitos eles fazem sem
qualquer esforço muitas coisas sobre as quais considerariam
difícil demais pensar até o ponto de resolver fazê-las.
21.
Para nos darmos realmente conta de um fato feliz que nos parece
questão indiferente precisamos imaginar que o perdemos
e o recobramos novamente exatamente agora. Realizar esse experimento
com sucesso, no entanto, requer uma certa dose de experiência
em todo o tipo de sofrimento.
23.
Em sua Comédia, Dante Alighieri chama Virgílio,
dando muitas mostras de respeito, de seu professor e ainda assim,
como Herr Meinhard observa, emprega-o tão mal... uma prova
clara de que mesmo nos dias de Dante louvavam-se os antigos sem
se saber por quê. Esse respeito por poetas que o autor não
compreende, mas que quer igualar, é a fonte dos maus escritos
em nossa literatura.
26.
Somos nós a medida do que é estranho e miraculoso:
se procurássemos por uma medida universal, o estranho e
o miraculoso não aconteceriam e todas as coisas seriam
iguais.