O Lapão na Hiléia
Carta branca para Caetano Waldrigues Galindo

Última atualização
em 29/10/2001

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Hierofanias

Caetano Waldrigues Galindo

"Em nossas terras aportaram,
Mais querendo, visto o mar.
Por mais buscar, nos encontraram;
Gentes novas, novo o ar.
"

 

E eis que cá chegaram lusos.

Trouxeram muito. Levaram de volta seu butim, em contraparte. Nos fizeram o que somos. Nos privaram, talvez, de sermos outros. Não interessa.

Fico hoje com duas coisas. Duas bênçãos que se converteram em cilícios. Muito cedo. Duas dádivas desembarcadas na primeira praia.

Pois nos trouxeram seu Deus, e mais nos deram sua língua.

Junto com seu Deus, ganhamos sua igreja. Toda uma tradição; uma cultura estruturada e codificada. Uma visão de mundo.
Ganhamos junto desse Deus, em sua igreja, um mundo construído em torno da culpa. Da responsabilidade pela transgressão, permitida e mesmo concedida. Responsabilidade, mas jamais satisfeita. Culpa perene. Fomos convertidos a uma religião que não prevê jamais uma conversão completa, pois que se estrutura na angústia da imperfeição.

Junto com sua língua, herdamos um vício que primamos em magnificar pelos anos seguintes, pelos séculos dos séculos em que seguimos. Uma tradição de simultânea transgressão quotidiana e purga interminável de uma culpa cultivada. Uma culpa que é de todos. De ninguém. Por isso sua.

Herdamos uma língua estrangeira; língua de outros. Em quinhentos anos, fizemos dessa língua maravilha. Fizemos miséria com nossa língua. Foi feita nossa. Tornou-se diferente, viu-se imersa em outros ares; falada por outros povos, dita sua em outras línguas. Criamos nossa língua da língua outra que nos foi mostrada. Fizemos com que fosse nossa sem deixar de ser o que já tinha.

Mas nossa escola, nossos mestres, nossa imprensa, seguem por quinhentos anos a fazer com que tenhamos de nos sentir perpétuos neófitos no "culto" a essa língua. Eternamente estrangeiros apenas recém-convertidos, ainda não autenticamente pertencentes. Sócios minoritários sem direito a voto. Sempre culpados, sempre pecadores.

Continuamos seguindo atrás de um utópico "português correto", continuamos nos assumindo todos como falantes de um português estropiado, e continuamos, isso é o mais estranho, tomando como padrão, instituindo como referência o português dos portugueses. Ainda não tomamos posse de nossa língua. Um e cada um de todos nós.

Somos cento e noventa milhões de falantes de uma língua que não conseguem se considerar, como lembrou o bom professor Faraco dia desses, sócios proprietários dessa mesma língua. Continuamos estrangeiros. Sem direitos.

Poucos serão os eleitos, a se sentar à direita do senhor. Poucos são os pasquales, que conseguem dominar essa coisa "complicada", meio hermética, que é o tal português correto. O português do outro; português dos santos.

Seguimos católicos, seguimos culpados. E se algum imbecil chega a nossos filhos em idade de alfabetização e proclama, cheio de certeza, que eles não sabem falar português, porque, digamos, começam uma oração com pronome átono (falamos ainda disso), ou não empregam corretamente a maldita concordância (podemos ainda falar disso), nós concordamos. E somos capazes de repetir, em momentos de maior humildade, nos incluindo entre os ignorantes.

Eu quero essa língua pra mim. Mas eu me resolvo sozinho. Só posso fazer coisas com ela, e com o mundo que ela me dá (falamos disso ainda), a partir do momento em que a trate como brinquedo e instrumento meu. Sem pruridos, sem pudicícias. Sem "respeito".

Resta ainda, a nós lingüistas, dá-la a quem é de direito. Revelação.

 

Lichtenberg Sudelbuch A (1765-770)

15.
Tenho percebido que a ambição fervente e a desconfiança andam sempre juntas.

17.
Preconceitos são, por assim dizer, os instintos mecânicos dos homens: através de seus preconceitos eles fazem sem qualquer esforço muitas coisas sobre as quais considerariam difícil demais pensar até o ponto de resolver fazê-las.

21.
Para nos darmos realmente conta de um fato feliz que nos parece questão indiferente precisamos imaginar que o perdemos e o recobramos novamente exatamente agora. Realizar esse experimento com sucesso, no entanto, requer uma certa dose de experiência em todo o tipo de sofrimento.

23.
Em sua Comédia, Dante Alighieri chama Virgílio, dando muitas mostras de respeito, de seu professor e ainda assim, como Herr Meinhard observa, emprega-o tão mal... uma prova clara de que mesmo nos dias de Dante louvavam-se os antigos sem se saber por quê. Esse respeito por poetas que o autor não compreende, mas que quer igualar, é a fonte dos maus escritos em nossa literatura.

26.
Somos nós a medida do que é estranho e miraculoso: se procurássemos por uma medida universal, o estranho e o miraculoso não aconteceriam e todas as coisas seriam iguais.

 

 

 


 

 

 

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