Edição de 11.2 a 17.2.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



RATM

Escrevo agora um texto que me devo há meses. E escrevo adiando o que prometi na semana passada.
Não se deve levar a sério minha seriedade em levar meu dever..

Rage Against the Machine. Fúria contra a máquina.
Uma banda que nem existe mais (ao menos com a formação original) e à qual presto meu tributo, por razões extra-musicais.

Roquenrol, hip-hop, um pezinho no metal, muito funk. Muito groove. Baixo distorcido, em vamps off-beat. Uma bateria ortodoxamente James Brown, com um pouco mais de peso..
O melhor guitarrista do momento, ou ao menos o mais inovador, mesmo na opinião de monstrões da antiga, como o mestre jazzista John Scofield. Tom Morello, o homem que faz uma guitarra soar como qualquer coisa. O cara que obriga a banda a escrever em todos seus encartes a jura de que os discos foram gravados sem sintetizadores, de tanto barulho que inventa.

Isso, pro meu gosto, já bastaria pra fazer a felicidade de muita gente. Mas há, ou havia, o vocal de Zack de la Rocha, responsável pelas inflexões hip-hop do sotaque da banda, por alguns dos gritos mais furiosos do roquenrol e pelas letras, pela ideologia do grupo, manifesta desde a escolha dos nomes da banda e dos discos.

Pois eles falam o tempo todo de política.
Injustiça. Em escala global.

Pude perceber desde cedo que, neles, isso não ia para o lado da hipocrisia padronizada e toda codificada do mundo dos rappers, nem da busca tola do mundo azulzinho com baleias e macrobiótica dos primeiros discos do Jamiroquai, por exemplo. Mas sempre me vi muito tentado a botar na conta da ingenuidade pitoresca a tal indignação dos pronunciamentos do seu Zack.
Ingenuidade de uma banda que estampa o rosto de Che Guevara em seus amplificadores.

Tudo isso mudou, completamente, depois do 11 de setembro.
Quando uma cadeia de rádios americana (a informaçao saiu aqui mesmo nesse site) mandou a suas afiliadas uma lista de músicas proibidas naquele momento.

Que eles tenham proibido Great Balls of Fire, vá lá.
Que não tenham proibido Killing an Arab já é doloroso.
Mas, depois de pinçar canção aqui canção ali que não queriam ver transmitida, os responsáveis pela lista elencam não uma música, mas uma banda; nada do Rage poderia ser executado.

Fique bem claro: eles não são uma banda de black ou death metal, que fale do inferno, de explosões e danação.

Eles apenas dizem, ironiquissimamente, view the world with american eyes.
Somente levantam, em vídeo, a estória de Leonard Peltier, líder indígena que, por razões muito mais que duvidosas, mofou na cadeia.
São os únicos a, aparentemente, lembrar Hiroshima, o número de desempregados nos Estados Unidos, a quantidade de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia em todo o mundo, a extensão das terras que os estados Unidos roubaram do México.
São a única voz a lembrar que alguns dos que hoje estão no poder são os mesmo que um dia queimaram cruzes. KKK, FBI.
São, eles, afinal, apenas eles que sintetizam toda sua postura no grito repetido no final da música Killing in the name, que contém também os versos traduzidos acima:

Fuck you, I won't do what you tell me.

E eles querem que façamos o que mandam, querem que compremos o pacote fechado.
A postura americana pós-11 vem talvez criando mais desconfianças do que as que já existiam, e que tenham talvez participado da motivação aos atentados. A exigência de que todo o mundo civilizado, por eles definido, se abrigue sob uma mesma e sua bandeira e, especialmente, a exigência de que se veja apenas o mundo com os mesmos, american, olhos, vêm criando talvez mais olhares, mais múltiplos, e alguma revolta a mais, alguma indignação.
Alguma fé na ingenuidade de Zack de la Rocha até em um cético asséptico e burro como eu.

Resta tudo em saber que liberdade (Freedom!), que paz nós queremos, e não queremos, como dizem os ingênuos do Rappa.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.

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