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RATM
Escrevo agora um texto que me devo há meses. E escrevo
adiando o que prometi na semana passada.
Não se deve levar a sério minha seriedade em levar meu dever..
Rage Against the Machine. Fúria contra a máquina.
Uma banda que nem existe mais (ao menos com a formação original)
e à qual presto meu tributo, por razões extra-musicais.
Roquenrol, hip-hop, um pezinho no metal, muito funk. Muito groove.
Baixo distorcido, em vamps off-beat. Uma bateria ortodoxamente James
Brown, com um pouco mais de peso..
O melhor guitarrista do momento, ou ao menos o mais inovador, mesmo
na opinião de monstrões da antiga, como o mestre jazzista John Scofield.
Tom Morello, o homem que faz uma guitarra soar como qualquer coisa.
O cara que obriga a banda a escrever em todos seus encartes a jura
de que os discos foram gravados sem sintetizadores, de tanto barulho
que inventa.
Isso, pro meu gosto, já bastaria pra fazer a felicidade de muita
gente. Mas há, ou havia, o vocal de Zack de la Rocha, responsável
pelas inflexões hip-hop do sotaque da banda, por alguns dos gritos
mais furiosos do roquenrol e pelas letras, pela ideologia do grupo,
manifesta desde a escolha dos nomes da banda e dos discos.
Pois eles falam o tempo todo de política.
Injustiça. Em escala global.
Pude perceber desde cedo que, neles, isso não ia para o lado da
hipocrisia padronizada e toda codificada do mundo dos rappers, nem
da busca tola do mundo azulzinho com baleias e macrobiótica dos
primeiros discos do Jamiroquai, por exemplo. Mas sempre me vi muito
tentado a botar na conta da ingenuidade pitoresca a tal indignação
dos pronunciamentos do seu Zack.
Ingenuidade de uma banda que estampa o rosto de Che Guevara em seus
amplificadores.
Tudo isso mudou, completamente, depois do 11 de setembro.
Quando uma cadeia de rádios americana (a informaçao saiu aqui mesmo
nesse site) mandou a suas afiliadas uma lista de músicas proibidas
naquele momento.
Que eles tenham proibido Great Balls of Fire, vá lá.
Que não tenham proibido Killing an Arab já é doloroso.
Mas, depois de pinçar canção aqui canção ali que não queriam ver
transmitida, os responsáveis pela lista elencam não uma música,
mas uma banda; nada do Rage poderia ser executado.
Fique bem claro: eles não são uma banda de black ou death metal,
que fale do inferno, de explosões e danação.
Eles apenas dizem, ironiquissimamente, view the world with american
eyes.
Somente levantam, em vídeo, a estória de Leonard Peltier, líder
indígena que, por razões muito mais que duvidosas, mofou na cadeia.
São os únicos a, aparentemente, lembrar Hiroshima, o número de desempregados
nos Estados Unidos, a quantidade de pessoas que vivem com menos
de um dólar por dia em todo o mundo, a extensão das terras que os
estados Unidos roubaram do México.
São a única voz a lembrar que alguns dos que hoje estão no poder
são os mesmo que um dia queimaram cruzes. KKK, FBI.
São, eles, afinal, apenas eles que sintetizam toda sua postura no
grito repetido no final da música Killing in the name, que contém
também os versos traduzidos acima:
Fuck you, I won't do what you tell me.
E eles querem que façamos o que mandam, querem que compremos o
pacote fechado.
A postura americana pós-11 vem talvez criando mais desconfianças
do que as que já existiam, e que tenham talvez participado da motivação
aos atentados. A exigência de que todo o mundo civilizado, por eles
definido, se abrigue sob uma mesma e sua bandeira e, especialmente,
a exigência de que se veja apenas o mundo com os mesmos, american,
olhos, vêm criando talvez mais olhares, mais múltiplos, e alguma
revolta a mais, alguma indignação.
Alguma fé na ingenuidade de Zack de la Rocha até em um cético asséptico
e burro como eu.
Resta tudo em saber que liberdade (Freedom!), que paz nós queremos,
e não queremos, como dizem os ingênuos do Rappa.
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.
[email protected]
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