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The Globe
Meu
irmão me fez ver que ando tendo um percentual absurdamente alto
de menções a William Shakespeare por texto nesse ano.
Não preciso me defender dessa tara. O homem que inventou a consciência
humana como a concebemos (na opinião de Bloom), o maior escritor
que já viveu (na opinião de quase todos), a maior figura, um estatuto
quase mítico, de toda a história da literatura, merece mesmo muito
mais do que eu.
Prometo maneirar por uns tempos, mas me despeço temporariamente
do mundo do velho Will com uma bagatela histórica fictícia que não
pretende, sequitur, defender o valor literário, digamos, do Lear..
Quero só tentar dar a você, caro leitor que me prestegeia, um pouco
de pés-no-chão, que só pode fazer aumentar nossa admiração por um
cara que, no fim, foi Um Cara.
Imagine
o seguinte:
Londres, final do século XVI, auge da era Tudor: Deus salve a rainha
Elisabeth. Há pouco menos de vinte anos construiu-se o primeiro
teatro da cidade, muito propriamente chamado Theater, no subúrbio
de prostituição de Shoreditch. De lá para cá a Inglaterra começou
a vivenciar um surto de literatura dramática sem precedentes, seja
pela paixão com que era acompanhado, pelo número de peças encenadas,
pela quantidade de autores interessantes que revelou (Marlowe, Jonson,
Fletcher, Webster..) seja, especialmente, porque via nascer, mais
ou menos nesse momento, um novo shake-scene, como foi chamado em
um panfleto derrogatório da época.
Você
faz parte das hordas de "homens de tardes livres", que constituíam
quase toda a platéia de um teatro público do período. Acabou de
atravessar o Tâmisa rumo à margem sul, além da jurisdição do bailio,
onde se instalaram, para maior liberdade, os teatros que se seguiram
ao empreendimento inicial de James Burbage: A Rosa, A Cortina, O
Urso e O Globo, da companhia dos Lord Strange's Men, que
tinha entre seus sócios um dramaturgo e ator de nome Will Shackspere,
em uma das grafias da época.
Pagando
um pêni você entra em um deles. Entra, se acomoda como pode entre
cerca de mil pessoas que esperam de pé, compram e descascam amêndoas,
fazem passar o balde que fazia as vezes de banheiro e preparam,
talvez, o cesto de vegetais para os piores atores. A sua volta estão
os que podem pagar mais, e que arcam com o acréscimo que vale o
ingresso a cada um dos três pisos sucessivos de galerias, que se
empilham em toda a volta da platéia, e de onde talvez mais oitocentas
pessoas podem assistir aos espetáculos. São todas pessoas de melhor
gosto, que ajudam os teatros a vencer a concorrência das arenas
em que cachorros são açulados contra ursos acorrentados; talvez
haja aqui vários estudantes e uma grande parcela de membros da nobreza
mais baixa. Daqui a pouco você ouvirá alguém se referir a esse teatro
como um cockpit, uma rinha de galos. E não será muito exagero.
O diâmetro
externo desses teatros, circulares ou octogonais em sua maioria,
oscilaria entre doze e vinte metros: internamente ainda menores
(Cabem na grande área de um campo de futebol). O Palco do Rose,
por exemplo, tinha cinco metros de comprimento, que se projetavam
do fundo do teatro em direção ao meio da platéia que o cercava por
todos os lados, algo completamente diferente do dito Palco Italiano
que conhecemos em nossos teatros, com sua "quarta parede" claustrofóbica.
Os palcos tinham menos de um metro de altura, e o rosto dos espectadores
das galerias poderia ficar a menos de dez metros do ator, que vivia
em tal intimidade com seu público que fazia com que esses se sentissem,
maníacos por peças que eram, no direito mesmo de gritar-lhe uma
fala que tivesse esquecido e que eles, é claro, conheciam. Pouco
se fazia por desfazer essa sensação de cumplicidade, na verdade
realçada pela cultura do "aparte" - em que o intérprete se dirige
ao público, aparentemente sem ser ouvido pelos outros personagens
- e também por constantes referências a acontecimentos da política
da época, mesmo em meio a peças históricas.
As
companhias poderiam montar cinco, sete peças diferentes por semana.
Estima-se que um ator como Alleyn ou Richard Burbage, filho do empresário,
que viria a ser Hamlet, por exemplo, pudesse ter, semanalmente,
cerca de cinco mil versos em sua memória, ligados a seis, oito papéis
diferentes. E isso rendia mesmo outras piadinhas particulares com
o público, como quando Polônio lembra a Hamlet a morte de César,
gerando mais um comentário irônico de Burbage que, talvez semana
passada, representara Brutus e matara esse mesmo colega, nas roupas
de César. "Aparte", o público já prenuncia a cena da morte do pai
de Ofélia.
Estudos
recentes acreditam ter demonstrado que o ator Will Shackspere tinha
uma predileção por papéis metalingüísticos. Ele era um ator de segunda,
fazia dois três papéis pequenos por peça.
Assim, nessa tarde ao ar livre, em um teatro sem telhado, sem cenário,
sem cortina (como eram todos) você espera atencioso, até que entra
um ator: o Prólogo à História dos Feitos de Harry V. Ele, representado
por nosso Mestre Shackspere, pede agora em versos brancos a você,
que consegue ver o branco de seus olhos, que o desculpe pela pretensão
de pedir que você desconsidere a exigüidade do local e dos meios,
e se esforce por imaginar os vastos campos de Agincourt plenos de
feros soldados e implora, humildemente, que o aceite como prólogo
e que tenha boa-vontade ao ouvir o que chama "nossa peça", quando
então abre a pequena cortininha que esconde o palco secundário,
em que se inicia a ação. E sai de cena.
Centenas
de milhares de aprendizes, artesãos, estudantes e nobres passaram
por cenas como essa. Viram um homem, a dois palmos de seus narizes,
que aparentemente não se dava muito bem com a profissão de fingidor
e que, depois de providenciar os scripts, preferia falar sobre
eles no palco, como Coro, como Prólogo ou Epílogo.
E que pedia boa-vontade na avaliação de seu trabalho.
Ele
ganhou.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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