Edição de 18.3 a 24.3.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Minha pátria é minha língua


Uma fé. Um rei. Uma língua.
Preceitos que, vez por outra, reocorrem nas estórias das histórias das nações como bases de sua formação e manutenção.

O fato é que há que existir algo mais que a superimposta idéia de Nação por que se mantenham as unidades em alguma paz. O fato é que o rei.. não basta.
O povo se constitui como tal antes e acima de ser o povo de um país. E com freqüência desenha os limites de sua singularidade interna através do que, também, o diferencie de outros.

Não sei de deuses. Não me cabe. Mas sabemos todos e vemos a cada dia o que a discórdia e a apóstase religiosa podem; e o que causam.
Me interesso aqui pela possível unidade cultural como responsável por um qualquer sentimento de pertença a um grupo, a um povo. E me interessa a coesão cultural como representada na comunhão lingüística. Ainda estou pensando nos armênios.

Pois o povo armênio, em sua história, pode não ter tido seu rei, nem seu lugar, mas se manteve como um, em grande medida, por seu catolicismo algo dissidente e por uma unidade lingüística longa e peculiar. A língua armênia é uma língua indo-européia, como quase todas as que a cercaram. Mas se trata de um raro caso de família singular: nenhuma das outras línguas do tronco se relaciona mais diretamente ao armênio; ao passo que a família itálica, por exemplo, a que pertenceu o latim, e que era das menos numerosas, contava com ao menos outras três línguas.
Semana passada mencionei os sobrenomes armênios, que revelam, claro fique, apenas a faceta mais conhecida de sua língua. Língua que obviamente significa uma cultura. Não está sozinha.

Mas a língua, enquanto marca de pertencimento e de exclusão dos alienígenas, parece sempre signo mais concreto, mais definitivo. É imediatamente empregada mesmo pelos falantes, mesmo inconscientemente.
A Bíblia já nos mostra soldados identificando e barrando seus inimigos, em tudo o mais seus semelhantes, apenas pela incapacidade, que tinham, de pronunciar a palavra espiga, shiboleth, que diziam siboleth. Hoje, é termo técnico: trata-se qualquer marca lingüística pejada de preconceito de xibolete.

Nós brasileiros sabemos disso. Baseamos nosso preconceito social interno muito freqüentemente em dados de pronúncia.
Ao mesmo tempo, somos nós por sermos nossa língua, e sabemos definir o outro imediato: hispanófono.

Aos judeus, divididos em tribos e grupos diferentes e eternamente assombrados pelo terror pânico de um conflito fratricida, coube, por exemplo, ressuscitar e reformar o hebraico, língua de religião, quando da formação de Israel. Precisavam de uma língua e não gostariam de oficializar o ladino, o iídiche ou outra das ditas línguas judias, porque isso significaria beneficiar o grupo que a falava e criar perigosa diferença de estatuto.
Pela mesma razão os indianos continuam a adotar o inglês, língua do invasor, para permitir a unidade de um país incrivelmente multilíngüe. Já os paquistaneses, separatistas por motivos religiosos, adotaram o árabe.

Pela mesma razão, e indo ainda mais longe, a Indonésia, que compreende mais de trezentas línguas diferentes, se agarra ao bahasa, crioulo de formação recente, mas tido por isento, por neutro por todas as etnias. Por isso a oposição do Timor se agarrou ao português. Que mantém, também, a alguma união possível de Angola, mesmo se reconhecida como língua estrangeira, como "a língua do tuga".

Os valáquios, em fins do dezenove, quando tiveram a oportunidade de ver nascer seu país, cercados de eslavos, turcos e húngaros como estavam, foram buscar as raízes de sua singularidade e de sua diferença na romanização que sofreram, e chamaram sua terra de romênia (românia, na grafia local); abandonaram o alfabeto cirílico em favor do latino e iniciaram um algo longo caminho de relatinização de sua ortografia e de seu vocabulário. Re-romanizaram sua língua por marcar seu latinismo, que os identificava.

Durante o franquismo, proibidos de falar catalão, os habitantes de Barcelona se refugiaram no futebol e no fato de que o Barça, time local, carregava em seu nome, em suas bandeiras, em sua camisa, uma cedilha, inexistente no castelhano.

Logo após nossa independência, vemos surgir violentamente o movimento da "língua brasileira" que pregava a definitiva cisão com os padrões portugueses.

Por vezes é so o nome, como no caso de argentinos e chilenos, por exemplo, que costumam preferir chamar sua língua castelhana, por evitar a ligação com a antiga colonizadora espanha.

Nossa pátria pode ser nosso deus, nosso governo, nossa economia, nossa etnia. Mas, como o caso de Israel, em que tudo o mais já lá estava, deixa sobejamente claro, o ideal é que nossa pátria seja, também, nossa língua.

Por vezes, é só o que resta. E, por vezes, já basta.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é pai da Biba.

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