|
Bygmester Joyce
1. (um voto) volto a falar do finnegans wake, mas prometo me esforçar
por fazer desse texto algo mais.
2. tento falar de questões gerais de literatura, a partir dali.
3. afinal, o wake é (ou são), também, um grito e um tratado em germe
sobre litera-, escri- e leituras.
4. finn, again:
5. (j.a.a.joyce) o fw é um livro para um leitor ideal, acometido
de uma insônia ideal.
6. discordo.
7. (o wake é um sonho..)
8. o fw é o livro do autor ideal.
9. (
10. (umberto eco) : assim como se pode distinguir o leitor empírico
(cada fulano que toma o livro) do leitor ideal (aquele que o próprio
texto constrói como expectativa) pode-se também discernir um autor
empírico (sujeito histórico) de um autor ideal (igualmente formado
no texto, igualmente virtual, igualmente construto).
11. esse conceito é muito útil. nos libera, por exemplo, para voltar
a tratar de intencionalidades e quetais, sem que tenhamos de tentar
invadir a volição, o obscuro psiquismo de um indivíduo humano.
12. o autor ideal pode ter, e freqüentemente tem mesmo, mais domínio
sobre o livro do que o próprio autor empírico.
13. )
14. essa é uma das grandes sacadas do wake.
15. pois joyce, james augustine aloysius joyce, instaurou tão deslavada
polissemia no texto, que chegou a perder o controle dos significados
gerados de maneira inaudita.
16. (pois não que isso não aconteça sempre. se trata apenas de uma
distinção de grau)
17. (umberto eco) joyce criou uma máquina que, como todo engenho
poderoso, é capaz de muito mais do que realizar os fins para que
foi projetada.
18. alguém que admite o convívio, mero exemplo, de 65 línguas em
um texto, não pode impedir que as outras se sintam em casa.
19. e nem mesmo que as suas, de casa, se lhe escapem dos nichos.
20. um falante de wollof, ou português, pode perder algo dos famosos
trocadilhos multilíngües de joyce, e esse algo poderia ser a principal
possibilidade na cabeça de james augustine.
21. mas ele pode ver algos mais. muitos mais.
22. a erudição necessária para que se possa ler satisfatoriamente
o fw não pode recobrir a de james augustine; terá de ser em algo
menor que esta. mas a surpresa é que deverá, idealmente, superá-la
em muito.
23. j.a.a.j. escreveu um livro que, como todos, não é muito mais
dele do que de qualquer outro, depois de publicado. mas levou esse
fato ao limite.
24. o sonho da deleção da persona consistente e dominante do autor,
que se esboçava no retrato do artista quando jovem, e que amadureceu
no ulisses através do pastiche, se vê próximo aqui da realização
acabada como em nenhum outro momento da história da literatura.
25. de que eu tenha notícia.
26. se existe uma entidade, um autor ideal, dominando realmente
as construções de significados no wake, ele é muito mais poderoso
que a entidade todo-consciente que se sente ainda por trás do ulisses.
27. o wake é um sonho: talvez de um família inteira de personagens,
talvez de seu patriarca. certamente do leitor.
28. e joyce, ao confiar na construção do a.i., abriu as comportas
para uma da maiores características da experiência onírica e da
cultura do sonho: nossa necessidade absoluta de significar por nós
mesmos, se necessário, de crer que tudo a nossa volta significa
e de, conseqüentemente, imputar significação ao que, de saída, já
não se mostre semantizado. (ernst cassirer, kenneth burke) somos
o animal simbólico.
29. lemos sonhos, lemos as estrelas, lemos muito da arte recente
dessa maneira.
30. com base no postulado insofismável de que algo ali está sendo
dito.
31. com base no postulado insofismável de que está sendo dito para
nós.
32. que deixa de ser tolo (ou tão) se deslocamos essa entidade,
a quem se atribui a institutição do significado que criamos, do
autor empírico para o autor ideal.
33. e, especialmente, se questionamos a possibilidade de que a construção
do a.i. seja menos que unívoca. o que nos leva diretamente a questionar
o autor em favor da onipotência da leitor-criador, e muito para
próximo de certas teorias mais recentes da leitura.
34. desconfio disso.
35. desconfiaria da aplicação desmesurada de qualquer conceito ou
processo que caiba ao finnegans ao resto da literatura, especialmente
se prévia a ele.
36. continuo achando que o fw ainda não foi, não será tão cedo,
isso se for um dia, alcançado pela literatura como todo. talvez
nem mesmo pela arte.
37. continuo vendo nele, e em joyce, abridores de caminhos tão vigorosos
que, a custa de explosivos, apagaram seus rastros.
38. (ou não)
39. evairthelass, methanks (eye sink) ay sea itssow. athleast
in my mines I.
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica
e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná,
e escreve muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
|