Edição de 25.3 a 2.4.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Bygmester Joyce


1. (um voto) volto a falar do finnegans wake, mas prometo me esforçar por fazer desse texto algo mais.
2. tento falar de questões gerais de literatura, a partir dali.
3. afinal, o wake é (ou são), também, um grito e um tratado em germe sobre litera-, escri- e leituras.
4. finn, again:
5. (j.a.a.joyce) o fw é um livro para um leitor ideal, acometido de uma insônia ideal.
6. discordo.
7. (o wake é um sonho..)
8. o fw é o livro do autor ideal.
9. (
10. (umberto eco) : assim como se pode distinguir o leitor empírico (cada fulano que toma o livro) do leitor ideal (aquele que o próprio texto constrói como expectativa) pode-se também discernir um autor empírico (sujeito histórico) de um autor ideal (igualmente formado no texto, igualmente virtual, igualmente construto).
11. esse conceito é muito útil. nos libera, por exemplo, para voltar a tratar de intencionalidades e quetais, sem que tenhamos de tentar invadir a volição, o obscuro psiquismo de um indivíduo humano.
12. o autor ideal pode ter, e freqüentemente tem mesmo, mais domínio sobre o livro do que o próprio autor empírico.
13. )
14. essa é uma das grandes sacadas do wake.
15. pois joyce, james augustine aloysius joyce, instaurou tão deslavada polissemia no texto, que chegou a perder o controle dos significados gerados de maneira inaudita.
16. (pois não que isso não aconteça sempre. se trata apenas de uma distinção de grau)
17. (umberto eco) joyce criou uma máquina que, como todo engenho poderoso, é capaz de muito mais do que realizar os fins para que foi projetada.
18. alguém que admite o convívio, mero exemplo, de 65 línguas em um texto, não pode impedir que as outras se sintam em casa.
19. e nem mesmo que as suas, de casa, se lhe escapem dos nichos.
20. um falante de wollof, ou português, pode perder algo dos famosos trocadilhos multilíngües de joyce, e esse algo poderia ser a principal possibilidade na cabeça de james augustine.
21. mas ele pode ver algos mais. muitos mais.
22. a erudição necessária para que se possa ler satisfatoriamente o fw não pode recobrir a de james augustine; terá de ser em algo menor que esta. mas a surpresa é que deverá, idealmente, superá-la em muito.
23. j.a.a.j. escreveu um livro que, como todos, não é muito mais dele do que de qualquer outro, depois de publicado. mas levou esse fato ao limite.
24. o sonho da deleção da persona consistente e dominante do autor, que se esboçava no retrato do artista quando jovem, e que amadureceu no ulisses através do pastiche, se vê próximo aqui da realização acabada como em nenhum outro momento da história da literatura.
25. de que eu tenha notícia.
26. se existe uma entidade, um autor ideal, dominando realmente as construções de significados no wake, ele é muito mais poderoso que a entidade todo-consciente que se sente ainda por trás do ulisses.
27. o wake é um sonho: talvez de um família inteira de personagens, talvez de seu patriarca. certamente do leitor.
28. e joyce, ao confiar na construção do a.i., abriu as comportas para uma da maiores características da experiência onírica e da cultura do sonho: nossa necessidade absoluta de significar por nós mesmos, se necessário, de crer que tudo a nossa volta significa e de, conseqüentemente, imputar significação ao que, de saída, já não se mostre semantizado. (ernst cassirer, kenneth burke) somos o animal simbólico.
29. lemos sonhos, lemos as estrelas, lemos muito da arte recente dessa maneira.
30. com base no postulado insofismável de que algo ali está sendo dito.
31. com base no postulado insofismável de que está sendo dito para nós.
32. que deixa de ser tolo (ou tão) se deslocamos essa entidade, a quem se atribui a institutição do significado que criamos, do autor empírico para o autor ideal.
33. e, especialmente, se questionamos a possibilidade de que a construção do a.i. seja menos que unívoca. o que nos leva diretamente a questionar o autor em favor da onipotência da leitor-criador, e muito para próximo de certas teorias mais recentes da leitura.
34. desconfio disso.
35. desconfiaria da aplicação desmesurada de qualquer conceito ou processo que caiba ao finnegans ao resto da literatura, especialmente se prévia a ele.
36. continuo achando que o fw ainda não foi, não será tão cedo, isso se for um dia, alcançado pela literatura como todo. talvez nem mesmo pela arte.
37. continuo vendo nele, e em joyce, abridores de caminhos tão vigorosos que, a custa de explosivos, apagaram seus rastros.
38. (ou não)
39. evairthelass, methanks (eye sink) ay sea itssow. athleast in my mines I.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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