Edição de 13.5 a 19.5.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



The Grinch

Eu não gosto de Walter Salles.
O cara é bonitudo, cheio de boas relações, cheio da grana, cheio de moral e de idolatrias da imprensa e de muitas das pessoas que eu gostaria que gostassem mesmo era de mim.
Também gostaria de ser bonitudo e cheio da grana..

Na falta do sobredito, gastarei meu tempo nessa semana dando vazão a meu ressentimento, minha mesquinharia e minha inveja, falando mal do menino que deu certo. Pois não gostei dele desde o começo.

Estamos para ver novo filme dele. E eu vou, sim ver, como fui ver todos até hoje. E já explico por quê.
Num texto da Folha, tem aí uns dias, é que vi nascer minha motivação mais direta para escrever esse texto. A menina só faltava suspirar falando, sim, dos dotes físicos do rapaz, do seu "poder" em Hollywood, e do estatuto inquestionável de obra-prima de sua produção, da qual ela limava, aliás, o filme mais decente dele que já vi: O primeiro dia, co-dirigido por Daniela Thomas.

A atitude da dona Angiolillo ecoava, eu sei, e é isso que me dói, a postura geral da imprensa, que foi capaz de gerar o comentário sarcástico de Tutty Vasques, que dizia que o Oscar, sem Walter Salles, francamente, não era a mesma coisa..

Convenhamos, crianças, o cara um dia vai ganhar o tal Oscar, porque está na Miramax, porque está muito bem encaixado no sistema internacional, porque não sofre por falta de dinheiro e porque, diga-se, é putamente profissional, o que já faz uma diferença maldita no cinema dessas terras.
E é por isso que vou ver Abril despedaçado.
Porque o livro é pra lá de interessante, a idéia da adaptação é das mais originais e poderosas, e o cara é um cineasta.

Deixo claro: falo mal de Walter Salles, de Central do Brasil pra cá, falando mal de um profissional, o que já não diria do pessoal de Eu, tu, eles, por exemplo..

Só que eu não gostei de nenhum filme do homem. Acontece.
Ele diz que Terra estrangeira é seu filme mais bem realizado. Não preciso dizer mais nada.

E eu não gosto, mesmo, do culto que se gerou, e da unanimidade, em torno do indivíduo. Terra estrangeira é muito ruim, e Central do Brasil é, como O primeiro dia, legal..
Sabe legal? Tipos, ok. Mediano..

Mas isso é só minha opinião, não é? O cara meio barrigudo, meio careca, desdinheirado e frustrado já na juventude como artista "in ovo". O Grinch, que invejando a felicidade dos outros, quer destruir a festa.

Mas sabe o que mais? A coisa não é assim tão simples: Diogo Mainardi, criatura querida minha e de meu irmão, é também fofinho, bem-relacionado e filho de gente endinheirada (ainda que, obviamente, não se compare aos Moreira Salles. Quase ninguém se compara, por aqui..). Diogo Mainardi é quinhentas e setenta e cinco vezes, como escritor, o artista que Walter Salles poderia um dia ser, como cineasta.

Mas falta nele um elemento, que pôde, em WS, gerar o obaoba todo..
Ele não está "em busca do Brasil". Ele não é "um brasileiro procurando seu país", coisas todas que se dizem, e se devem dizer, de Salles.
Ele não está imbuído daquela maldita paixão das artes nacionais (que já levava lapadas do velho machadão, cento anni fa..) pela porra da identidade nacional. Muito pelo contrário.

Ele não está nas panelas e nas loas recíprocas que fazem viver a intelligentsia brasileira. A única panela de que fez parte foi capitaneada por Paulo Francis. Não preciso dizer mais nada..

Ele é o Grinch..
E isso é insuportável para nós. Bons-moços em busca de nossa identidade..

Errata

O grande Brunno me fez ver que confundi a estória da morte do Lucano com a do Lekeu, em circunstâncias gerais e, mais especificamente, na causa mortis: Lucano se matou, romanamente, em uma banheira, pulsos cortados, recitando seu poema.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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