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The Grinch
Eu
não gosto de Walter Salles.
O cara é bonitudo, cheio de boas relações, cheio da grana, cheio
de moral e de idolatrias da imprensa e de muitas das pessoas que
eu gostaria que gostassem mesmo era de mim.
Também gostaria de ser bonitudo e cheio da grana..
Na
falta do sobredito, gastarei meu tempo nessa semana dando vazão
a meu ressentimento, minha mesquinharia e minha inveja, falando
mal do menino que deu certo. Pois não gostei dele desde o começo.
Estamos
para ver novo filme dele. E eu vou, sim ver, como fui ver todos
até hoje. E já explico por quê.
Num texto da Folha, tem aí uns dias, é que vi nascer minha motivação
mais direta para escrever esse texto. A menina só faltava suspirar
falando, sim, dos dotes físicos do rapaz, do seu "poder" em Hollywood,
e do estatuto inquestionável de obra-prima de sua produção, da qual
ela limava, aliás, o filme mais decente dele que já vi: O primeiro
dia, co-dirigido por Daniela Thomas.
A atitude
da dona Angiolillo ecoava, eu sei, e é isso que me dói, a postura
geral da imprensa, que foi capaz de gerar o comentário sarcástico
de Tutty Vasques, que dizia que o Oscar, sem Walter Salles, francamente,
não era a mesma coisa..
Convenhamos,
crianças, o cara um dia vai ganhar o tal Oscar, porque está na Miramax,
porque está muito bem encaixado no sistema internacional, porque
não sofre por falta de dinheiro e porque, diga-se, é putamente profissional,
o que já faz uma diferença maldita no cinema dessas terras.
E é por isso que vou ver Abril despedaçado.
Porque o livro é pra lá de interessante, a idéia da adaptação é
das mais originais e poderosas, e o cara é um cineasta.
Deixo
claro: falo mal de Walter Salles, de Central do Brasil pra cá, falando
mal de um profissional, o que já não diria do pessoal de Eu, tu,
eles, por exemplo..
Só
que eu não gostei de nenhum filme do homem. Acontece.
Ele diz que Terra estrangeira é seu filme mais bem realizado. Não
preciso dizer mais nada.
E eu
não gosto, mesmo, do culto que se gerou, e da unanimidade, em torno
do indivíduo. Terra estrangeira é muito ruim, e Central do Brasil
é, como O primeiro dia, legal..
Sabe legal? Tipos, ok. Mediano..
Mas
isso é só minha opinião, não é? O cara meio barrigudo, meio careca,
desdinheirado e frustrado já na juventude como artista "in ovo".
O Grinch, que invejando a felicidade dos outros, quer destruir a
festa.
Mas
sabe o que mais? A coisa não é assim tão simples: Diogo Mainardi,
criatura querida minha e de meu irmão, é também fofinho, bem-relacionado
e filho de gente endinheirada (ainda que, obviamente, não se compare
aos Moreira Salles. Quase ninguém se compara, por aqui..). Diogo
Mainardi é quinhentas e setenta e cinco vezes, como escritor, o
artista que Walter Salles poderia um dia ser, como cineasta.
Mas
falta nele um elemento, que pôde, em WS, gerar o obaoba todo..
Ele não está "em busca do Brasil". Ele não é "um brasileiro procurando
seu país", coisas todas que se dizem, e se devem dizer, de Salles.
Ele
não está imbuído daquela maldita paixão das artes nacionais (que
já levava lapadas do velho machadão, cento anni fa..) pela
porra da identidade nacional. Muito pelo contrário.
Ele
não está nas panelas e nas loas recíprocas que fazem viver a intelligentsia
brasileira. A única panela de que fez parte foi capitaneada por
Paulo Francis. Não preciso dizer mais nada..
Ele
é o Grinch..
E isso é insuportável para nós. Bons-moços em busca de nossa identidade..
Errata
O grande
Brunno me fez ver que confundi a estória da morte do Lucano com
a do Lekeu, em circunstâncias gerais e, mais especificamente, na
causa mortis: Lucano se matou, romanamente, em uma banheira, pulsos
cortados, recitando seu poema.
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica
e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná,
e escreve muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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